Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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São Paulo
Vitória da globalização

A trajetória de Favre, de menino pobre
na Argentina a militante trotskista na França
e namorado da prefeita de São Paulo, vai
culminar com um cargo no governo do PT


Thaís Oyama

 
Luciana Prezia/Caras
Luis Favre e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy: dupla alegria com o casamento marcado para setembro


A trajetória de sucesso pessoal de Luis Favre é uma prova das virtudes da globalização. O franco-argentino, futuro marido da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, construiu sua biografia ignorando fronteiras: nasceu em um bairro pobre de Buenos Aires, radicou-se na França, atuou como militante de esquerda em diversos países da América Latina e agora se prepara para integrar o governo Lula e obter a nacionalidade brasileira – projeto que, em razão de percalços jurídicos, só poderá concretizar depois do casamento com a prefeita, marcado para setembro.

Desde janeiro, uma ala do PT simpática a Favre tenta aproveitar no governo o talento do antigo colaborador. Favre chegou ao Brasil nos anos 80, na qualidade de um dos principais dirigentes da Organização Comunista Internacionalista, fundada com base nas idéias do revolucionário russo Leon Trotsky. Ele foi uma espécie de tutor político dos então trotskistas Antonio Palocci e Luiz Gushiken, hoje ministros da Fazenda e da Secretaria de Comunicação. Um companheiro da época o descreve como um "militante de bastidores – discreto, articulado, diplomático e ambicioso". Em 1987, de volta à França, abandonou o trotskismo, aproximou-se do Partido Socialista Francês e passou a atuar em Paris como "embaixador" informal do PT. Por causa desse currículo, e do empenho da prefeita Marta Suplicy, o presidente Lula determinou a dois de seus principais ministros que estudassem o melhor lugar para aproveitá-lo no governo. Em abril, definiu-se que seria contratado pela Casa Civil, mas que ficaria na Secretaria de Comunicação como assessor de relações internacionais com um salário de 6.000 reais. Favre chegou a ser nomeado para o cargo, mas não deverá tomar posse.

Semanas depois da publicação de sua nomeação no Diário Oficial da União, em 2 de maio, foi surpreendido pela informação de que apenas o visto de residência permanente no Brasil não lhe garantiria o direito de integrar o governo. A Lei nº 8112, que trata dos servidores, exige nacionalidade brasileira dos postulantes a cargo público. Para obtê-la, ele teria de estar residindo no Brasil há pelo menos quatro anos. Na tentativa de solucionar o impasse jurídico, Favre mobilizou advogados, que encontraram uma saída no artigo 113 da Lei nº 6815 (que trata da situação jurídica dos estrangeiros). O artigo diz que o prazo mínimo de residência no Brasil "poderá ser reduzido" se o candidato à naturalização tiver cônjuge brasileiro. O casamento com Marta Suplicy, que sempre esteve em seus planos e nos da prefeita, será, portanto, uma dupla alegria para o casal. A nomeação de Favre pela Casa Civil, no entanto, já perdeu a validade: entre o surgimento do empecilho e o encontro da solução, passaram-se mais de dois meses e, de acordo com a lei, uma nomeação perde a validade caso o candidato ao posto não tome posse em trinta dias, prorrogáveis por mais trinta. O fato não deverá ser impedimento para a participação de Favre no governo. Um terceiro ministro já foi informado de que, por força de uma nova nomeação, poderá contar em breve com seus serviços.

Luis Favre – codinome que adotou em substituição ao nome de batismo, Felipe Wermus – foi criado em um conventillo (cortiço) de Buenos Aires. Dormia num mesmo quarto com seus pais e três irmãos. Nunca chegou a concluir o secundário, mas foi no curso que deu início à militância política que o levou, após uma série de prisões, a emigrar para a França. A aproximação com Marta Suplicy se deu no fim de 2000, por ocasião da morte da irmã dela, Irene Vasconcellos, em Paris. Foi ele quem acompanhou a prefeita enquanto ela assistia a irmã, internada para uma cirurgia, e foi ele também quem se encarregou de trazer o corpo de Irene ao Brasil. Na época, Marta disputava a prefeitura de São Paulo e Favre, que permaneceu temporariamente hospedado na casa dos Suplicy, passou a atuar como assessor informal da candidata. Um colaborador de campanha lembra que ele participava de todas as reuniões da equipe, mas raramente expressava suas opiniões em público. "Ficava calado, porém, em seguida, conversava com Marta e, pelas mudanças que ela determinava, ficava claro que o ouvia com muito respeito", lembra. O mesmo colaborador, que se manteve próximo da prefeita depois da vitória nas eleições e de sua separação do senador Eduardo Suplicy, descreve Favre como um homem de hábitos refinados, apreciador de bons vinhos e charutos e inimigo das manhãs. "Ele não gosta de ser incomodado antes do meio-dia. Acorda tarde e vai para o jardim fazer ginástica."

O casamento com a prefeita Marta Suplicy será sua quinta união. Com a última mulher, a francesa Sophie Magnone, mãe de Lucas, um de seus quatro filhos, Favre mantém sociedade – 99% dele e 1% dela – na empresa de comunicação gráfica que abriu em Paris, a Optei. Com capital social de 7.700 euros e tendo como patrimônio declarado um único computador, a Optei nunca apresentou balanço anual e não anuncia seus serviços. Seu endereço oficial é o mesmo da casa em que Favre morava até se mudar para o Brasil. A Optei pode não ter a imponência da biografia de seu proprietário, mas é a fonte de renda declarada por Favre, que mora no Brasil há quase dois anos. Diz ele: "A empresa está ativa e tem um gerente que a administra para mim".

Colaborou Antonio Ribeiro, de Paris

 
 
 
 
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