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São
Paulo
Vitória
da globalização
A trajetória de Favre, de menino pobre
na Argentina a militante trotskista na França
e namorado da prefeita de São Paulo, vai
culminar com um cargo no governo do PT

Thaís
Oyama
Luciana Prezia/Caras
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| Luis
Favre e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy: dupla
alegria com o casamento marcado para setembro |
A trajetória de sucesso pessoal de Luis Favre é uma
prova das virtudes da globalização. O franco-argentino,
futuro marido da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, construiu
sua biografia ignorando fronteiras: nasceu em um bairro pobre de
Buenos Aires, radicou-se na França, atuou como militante
de esquerda em diversos países da América Latina e
agora se prepara para integrar o governo Lula e obter a nacionalidade
brasileira projeto que, em razão de percalços
jurídicos, só poderá concretizar depois do
casamento com a prefeita, marcado para setembro.
Desde
janeiro, uma ala do PT simpática a Favre tenta aproveitar
no governo o talento do antigo colaborador. Favre chegou ao Brasil
nos anos 80, na qualidade de um dos principais dirigentes da Organização
Comunista Internacionalista, fundada com base nas idéias
do revolucionário russo Leon Trotsky. Ele foi uma espécie
de tutor político dos então trotskistas Antonio Palocci
e Luiz Gushiken, hoje ministros da Fazenda e da Secretaria de Comunicação.
Um companheiro da época o descreve como um "militante de
bastidores discreto, articulado, diplomático e ambicioso".
Em 1987, de volta à França, abandonou o trotskismo,
aproximou-se do Partido Socialista Francês e passou a atuar
em Paris como "embaixador" informal do PT. Por causa desse currículo,
e do empenho da prefeita Marta Suplicy, o presidente Lula determinou
a dois de seus principais ministros que estudassem o melhor lugar
para aproveitá-lo no governo. Em abril, definiu-se que seria
contratado pela Casa Civil, mas que ficaria na Secretaria de Comunicação
como assessor de relações internacionais com um salário
de 6.000 reais. Favre chegou a ser nomeado
para o cargo, mas não deverá tomar posse.
Semanas
depois da publicação de sua nomeação
no Diário Oficial da União, em 2 de maio, foi
surpreendido pela informação de que apenas o visto
de residência permanente no Brasil não lhe garantiria
o direito de integrar o governo. A Lei nº 8112, que trata dos
servidores, exige nacionalidade brasileira dos postulantes a cargo
público. Para obtê-la, ele teria de estar residindo
no Brasil há pelo menos quatro anos. Na tentativa de solucionar
o impasse jurídico, Favre mobilizou advogados, que encontraram
uma saída no artigo 113 da Lei nº 6815 (que trata da
situação jurídica dos estrangeiros). O artigo
diz que o prazo mínimo de residência no Brasil "poderá
ser reduzido" se o candidato à naturalização
tiver cônjuge brasileiro. O casamento com Marta Suplicy, que
sempre esteve em seus planos e nos da prefeita, será, portanto,
uma dupla alegria para o casal. A nomeação de Favre
pela Casa Civil, no entanto, já perdeu a validade: entre
o surgimento do empecilho e o encontro da solução,
passaram-se mais de dois meses e, de acordo com a lei, uma nomeação
perde a validade caso o candidato ao posto não tome posse
em trinta dias, prorrogáveis por mais trinta. O fato não
deverá ser impedimento para a participação
de Favre no governo. Um terceiro ministro já foi informado
de que, por força de uma nova nomeação, poderá
contar em breve com seus serviços.
Luis
Favre codinome que adotou em substituição ao
nome de batismo, Felipe Wermus foi criado em um conventillo
(cortiço) de Buenos Aires. Dormia num mesmo quarto com seus
pais e três irmãos. Nunca chegou a concluir o secundário,
mas foi no curso que deu início à militância
política que o levou, após uma série de prisões,
a emigrar para a França. A aproximação com
Marta Suplicy se deu no fim de 2000, por ocasião da morte
da irmã dela, Irene Vasconcellos, em Paris. Foi ele quem
acompanhou a prefeita enquanto ela assistia a irmã, internada
para uma cirurgia, e foi ele também quem se encarregou de
trazer o corpo de Irene ao Brasil. Na época, Marta disputava
a prefeitura de São Paulo e Favre, que permaneceu temporariamente
hospedado na casa dos Suplicy, passou a atuar como assessor informal
da candidata. Um colaborador de campanha lembra que ele participava
de todas as reuniões da equipe, mas raramente expressava
suas opiniões em público. "Ficava calado, porém,
em seguida, conversava com Marta e, pelas mudanças que ela
determinava, ficava claro que o ouvia com muito respeito", lembra.
O mesmo colaborador, que se manteve próximo da prefeita depois
da vitória nas eleições e de sua separação
do senador Eduardo Suplicy, descreve Favre como um homem de hábitos
refinados, apreciador de bons vinhos e charutos e inimigo das manhãs.
"Ele não gosta de ser incomodado antes do meio-dia. Acorda
tarde e vai para o jardim fazer ginástica."
O
casamento com a prefeita Marta Suplicy será sua quinta união.
Com a última mulher, a francesa Sophie Magnone, mãe
de Lucas, um de seus quatro filhos, Favre mantém sociedade
99% dele e 1% dela na empresa de comunicação
gráfica que abriu em Paris, a Optei. Com capital social de
7.700 euros e tendo como patrimônio
declarado um único computador, a Optei nunca apresentou balanço
anual e não anuncia seus serviços. Seu endereço
oficial é o mesmo da casa em que Favre morava até
se mudar para o Brasil. A Optei pode não ter a imponência
da biografia de seu proprietário, mas é a fonte de
renda declarada por Favre, que mora no Brasil há quase dois
anos. Diz ele: "A empresa está ativa e tem um gerente que
a administra para mim".
Colaborou
Antonio Ribeiro, de Paris
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