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Presidência
O
momento do presidente

Maurício
Lima
Por
mais que o temperamento e arranjos políticos e administrativos
afastem os presidentes da condução direta das ações
governamentais, no presidencialismo eles são o centro irradiador
de poder. É inegável que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva tem mantido em torno de si e dos colaboradores mais
próximos a iniciativa das propostas e decisões mais
vitais de Brasília. Mas, por circunstâncias de sua
vitória nas urnas e por um fenômeno com raízes
no assembleísmo de seu partido, o PT, o presidente montou
um governo e uma base parlamentar de apoio tão heterogêneos
que, sete meses depois da posse, ninguém é capaz de
apontar com clareza qual é a orientação do
governo. Agora, a necessidade de encaminhar as reformas, cuja lentidão
começou a exasperar os mercados financeiros na semana passada,
e a urgência em dar uma resposta aos desmandos dos militantes
da esquerda radical no campo e nas cidades está forçando
Lula a explicitar o rumo que pretende imprimir ao país.
Tasso Marcelo/AE
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Gushiken,
o homem que
comanda a comunicação
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Na
semana passada, o Planalto anunciou que Lula vai assumir pessoalmente
com os partidos políticos aliados e adversários a
negociação dos votos necessários para aprovar
as reformas no Congresso. É de esperar que o presidente daqui
por diante assuma em pessoa o comando também em outras frentes.
Os sinais ficaram evidentes na semana passada. Na quinta-feira,
Lula convocou para uma reunião o ministro Miguel Rossetto,
encarregado de cuidar da reforma agrária. À mesa,
havia vários ministros, inclusive o da Agricultura, Roberto
Rodrigues, cujos pontos de vista são inteiramente opostos
aos de Rossetto. A certa altura, Rossetto reagiu às cobranças
que ouviu e disse que com o dinheiro do ministério não
daria "nem para fazer a reforma agrária no Sul". Lula pôs
fim à reunião e convocou Rossetto para outra conversa,
à noite, no Palácio da Alvorada. Da conversa, sabe-se
apenas que Rossetto saiu mais tranqüilo.
O
episódio não deve resultar em mudança significativa
na condução do problema agrário do país,
mas ilustra à perfeição o papel de equilibrista
que Lula tem exercido. Há sete meses, desde que tomou posse,
Lula comanda uma equipe excepcionalmente heterogênea
que, sendo diferente na origem e na ideologia, muitas vezes anda
para lados opostos, paralisando as ações do governo.
O cientista político Octavio Amorim Neto, num estudo sobre
a composição partidária dos governos da América
Latina, descobriu que, na história do presidencialismo latino-americano,
o governo de Lula é o recordista em número de partidos
aliados. São oito legendas diferentes. Há, aí,
a expressão de um mérito do PT de ter conseguido aglutinar
todos os partidos relevantes da esquerda brasileira PSB,
PPS, PDT, PC do B e PV. A amplitude, porém, alcançou
também legendas como PL e PTB e, até o fim do ano,
deve ainda agregar o PMDB, elevando a nove o total de siglas no
governo.
Como a maioria dos partidos brasileiros não tem espinha ideológica,
talvez seja mais relevante levar em conta a biografia dos aliados
do governo. E, nesse capítulo, a administração
petista tem de tudo um pouco. Entre os ministros, há sindicalistas
e empresários, banqueiros e ecologistas. Examinando os 32
auxiliares do presidente com status ministerial, descobre-se uma
floresta ideológica com a seguinte distribuição:
dezessete têm origem na esquerda moderada, como o próprio
presidente da República;
nove vêm de correntes da esquerda radical, como o ministro
Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário;
seis têm posições entre a direita e o centro,
como o ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura.
José Paulo Lacerda/AE
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Palocci
(à esq.), que dirige
a área mais organizada
do governo,
e José Dirceu,
da Casa Civil:
eles sabem o
rumo do governo
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A
heterogeneidade do governo é tanta que se espraiou para quase
todos os quadrantes. Está em escalões inferiores da
administração federal e no comando das estatais importantes.
O ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, mal consegue
despachar com seu auxiliar Carlos Lessa, presidente do principal
banco de fomento do país, o BNDES. De cada dez assuntos,
eles divergem em onze. No Congresso Nacional, existem duas tropas
de choque do governo a oficial e a real. Na oficial, os senadores
Tião Viana e Aloizio Mercadante representam o PT e o governo,
mas na hora em que o Palácio do Planalto precisa de apoio
inquestionável acaba recorrendo ao senador José Sarney,
presidente da Casa. Na Câmara, os líderes Nelson Pellegrino
e Aldo Rebelo, aos olhos do governo, são menos eficazes que
os deputados Paulo Bernardo e Professor Luizinho, que não
são líderes, mas atuam com mais ardor em favor do
governo.
Em governos que reúnem diversas correntes políticas,
as divergências, quando bem administradas pelo presidente,
não são necessariamente enfraquecedoras. George Washington,
pai da pátria americana, sofreu com os embates entre dois
poderosos auxiliares. Thomas Jefferson defendia amplos direitos
aos Estados e limitado poder ao governo central. Alexander Hamilton
tinha opinião oposta e, no século XVIII, esse
era um tema crucial no país que acabava de nascer. Washington
decidiu pelo sistema federativo, dando amplos poderes aos Estados,
mas manteve a força econômica do Tesouro da União.
De certa forma, desagradou a ambos. Mas decidiu em favor do país.
É o que se espera de Lula na imensa pauta de divergências
internas do governo.
Deve-se a essas diferenças internas a leniência com
que o governo tem tratado a insurgência dos radicais do campo
e da cidade, deixando passar a impressão de que, no Brasil,
ainda prospera a idéia ultrapassada de uma revolução
de massas e essa impressão chega lá fora, provocando
os danosos efeitos de sempre. Também se deve a isso o ataque
contra o papel das agências reguladoras, produzindo a sensação
de que o governo pode mexer arbitrariamente nos contratos, o que
só contribui para tirar o Brasil do mapa mundial dos capitais
de investimento direto. Na área econômica, a mais organizada
da administração petista, os tumultos diminuíram
porque o mercado compreendeu que, ali, há uma voz de comando
único. No início da gestão petista, quando
o mercado ainda não fazia essa leitura, a cotação
do dólar estremecia e as bolsas se agitavam a cada declaração
impensada de um petista cinco-estrelas.
A vida do presidente seria facilitada caso se disseminasse entre
a equipe a compreensão de que o governo tem uma agenda definida
e está empenhado em tirá-la do papel. No entanto,
parece que só sabe disso a tróica central do poder,
formada por José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda)
e Luiz Gushiken (Comunicação). A amplitude partidária
e ideológica do governo, porém, não se deve
a uma escolha pessoal de Lula. Se, ao contrário, o presidente
tivesse formado um governo puro-sangue, é bastante provável
que, hoje, estivesse ouvindo críticas de que o governo é
fraco porque lhe falta sustentação. No caso de Lula,
a ampla composição da equipe deve-se a um imperativo
das circunstâncias. Lula é um político que veio
de fora do estamento dominante do mundo político e, por isso
mesmo, para poder governar, precisava cercar-se de garantias mais
amplas que seus antecessores. Na verdade, Lula teve essa percepção
já na campanha presidencial, razão pela qual o PT
lançou a Carta ao Povo Brasileiro, renunciando aos velhos
dogmas de esquerda. Que o sistema é lulacêntrico não
há dúvida. O que angustia a sociedade brasileira é
a definição de para onde Lula pretende encaminhar
o sistema.
Roberto Castro/AE
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| O
presidente Lula, diante de figuras exponenciais, que ora lhe
apresentam soluções, ora lhe trazem dores de cabeça:
o sistema do governo, com certeza, é lulocêntrico.
Só resta ficar mais claro para onde o presidente pretende
encaminhar o sistema |
Valeria Gonçalves/AE
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Helvio Romero/AE
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STEDILE
Insurgência
no campo
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MEIRELLES
Comando
único
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Dida Sam,paio/AE
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Divulgação
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ROSSETTO
A
visão radical
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RODRIGUES
A
visão moderada
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Jose Paulo Lacerda/AE
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Antonio Pacheco/ZH/AE
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FURLAN
Longe
do BNDES
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DILMA
Origem
na esquerda
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Milton Junior/AE
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Antonio Milena
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MIRO
Ataque
a contratos
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GRAZIANO
Ação
paralisante
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Joedson Alves/AE
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Roberto Castro/AE
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MAURÍCIO
CORRÊA
A
greve não sai mais
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SARNEY
Na
tropa de verdade
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| O
mito da blindagem |
|
O
presidente Fernando Henrique extinguiu a Sudene em 2001.
Dois anos antes, o Tribunal de Contas da União
havia analisado o saldo de quatro décadas de
atividade do órgão criado em 1959 por
Juscelino Kubitschek. O estudo mostra que de cada três
projetos financiados um faliu ou foi abandonado. Embora
a idéia original do economista Celso Furtado
fosse montar um departamento enxuto que estimulasse
o desenvolvimento do Nordeste, a entidade inchou e se
prestou aos políticos malandros, ao desperdício,
a desmandos administrativos, ao nepotismo e à
corrupção. Seu fechamento foi uma medida
necessária.
Na semana passada, cumprindo uma promessa de campanha,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reabriu
a entidade em solenidade que contou com a presença
de Celso Furtado. Na cerimônia, o ministro Ciro
Gomes se comprometeu a reabrir ainda a Sudam, que trata
da Amazônia, também fechada depois de seguidos
casos de corrupção, bem como a Sudeco,
para o Centro-Oeste, inativa há anos. Ciro disse
que a nova Sudene, a nova Sudam e a nova Sudeco não
terão os erros das velhas. A partir de agora,
afirmou ele, teremos "instituições que
são blindadas a qualquer possibilidade de
fraude".
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Celso
Furtado, em discurso na inauguração
da
primeira Sudene: o saldo é negativo
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A
cerimônia da semana passada produziu dois grandes
ensinamentos. O primeiro deles é a idéia
de que há instituições públicas
que podem ser blindadas contra qualquer possibilidade
de fraude. É desejável que os políticos
se preocupem em combater a corrupção,
mas é estranho que um homem experiente como Ciro
Gomes acredite na hipótese de criar um cofre
público inexpugnável. Como lembrou o Prêmio
Nobel de economia, o americano Ronald Coase, as iniciativas
estatais que envolvem repasse de dinheiro são,
por definição, "ignorantes, sujeitas a
pressões e corruptas". Contra isso, não
há vacina 100% segura. Para tentar conter as
fraudes na contratação de funcionários,
Getúlio Vargas criou concursos públicos.
Adiantou? Para garantir a correção no
processo de compras do Estado, inventou-se a Lei das
Licitações. Funcionou? A adoção
de uma regra fecha uma portinha, mas não todas,
pois a malandragem que ataca o dinheiro público
tem criatividade ilimitada.
O outro ensinamento embutido na solenidade diz respeito
à própria recriação da Sudene.
Houve um tempo em que o Brasil mantinha uma empresa
estatal para cada setor: telefonia, mineração,
informática, aviação civil e militar,
além de bancos públicos espalhados por
todo canto. Era uma festa. As boas companhias acabaram
privatizadas e as incompetentes foram fechadas. Entre
as mais significativas, apenas a Petrobras e alguns
bancos federais continuam nas mãos do governo.
Manter uma agência de fomento federal para o Nordeste
fazia todo o sentido num ambiente em que os governadores
eram fracos politicamente e não tinham meios
de atrair capital. Atualmente, os Estados têm
meios de disputar investimentos sem o apadrinhamento
de Brasília. A melhor contribuição
que o governo federal poderia dar à região
seria investir nas áreas típicas de Estado,
como educação, saúde e infra-estrutura,
em vez de reviver máquinas de gastar já
reprovadas pela história.
Felipe
Patury
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