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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O desafio da
complexidade
"O grande diferencial, para pior, da
América
Latina é haver sido colonizada por sociedades
tecnologicamente muito atrasadas"
Na Nova Inglaterra, as coleções
de ferramentas antigas exibem muitas dezenas de machados diferentes.
Há um para cada tarefa. É espantosa sua variedade.
No Brasil, os primeiros colonizadores portugueses trouxeram um só
machado. É o mesmo e único que persiste até
hoje. Aos nossos velhos carapinas e marceneiros não faltavam
habilidades e criatividade de fato, nosso mobiliário
colonial é mais belo do que o correspondente americano. Mas
suas caixas de ferramentas eram pobres. Havia pouca variedade e
pouca especialização.
Para garantir seu suprimento de vitamina C,
os colonos da Nova Inglaterra cultivavam acima de 1.000 variedades
de maçãs que amadureciam em momentos diferentes. Algumas
se conservavam no inverno. Outras eram melhores para doce ou sidra.
Em contraste, nossos caboclos cultivavam menos espécies de
milho e mandioca do que os índios locais. Ou seja, nesse
particular, dominavam uma tecnologia encolhida.
Ilustração Ale Setti
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Um carpinteiro de ascendência alemã, no Vale do Itajaí,
construía suas casas com uma estrutura de peças sólidas
de madeira, depois preenchida com tijolos ou barro. Aliás,
era a mesma técnica construtiva (enxaimel) da tradição
portuguesa. Mas havia uma diferença. O carpinteiro alemão
lavrava (e marcava) no solo todas as peças e todos os encaixes.
Ao estarem todas as peças prontas, a casa era erguida. Na
tradição portuguesa, as peças iam sendo lavradas
e ajustadas uma a uma, no lugar em que entravam. O método
alemão é mais eficiente, pois todo o trabalho é
feito no plano. Contudo, requer uma concepção prévia
de toda a casa. Ou seja, ela está pronta na idéia
antes de se iniciar a construção. O outro método
é mais simples, mas ineficiente.
Perguntarão os leitores, já
impacientes, aonde quero chegar com essa conversa. Desde Adam Smith,
centenas de economistas tentam explicar o progresso, o crescimento
ou sua ausência. Permito-me, imodestamente, propor minha própria
teoria apresentada aqui de forma excessivamente lacônica.
Nos seus termos mais singelos, ela diz o seguinte:
tem maiores chances de se desenvolver economicamente quem lida melhor
com a complexidade. Terão poucas chances aquelas sociedades
em que cada um lida com poucos elementos. O desenvolvimento requer
abraçar a complexidade, principalmente nas dimensões
que afetam direta ou indiretamente o processo produtivo.
Vai mais longe quem usa maior variedade de
meios de produção (ferramentas, máquinas).
Igualmente, quem produz maior variedade de produtos. Nas sociedades
desenvolvidas, o tempo é organizado de forma mais complexa.
Mais ainda, tais sociedades estão sempre preocupadas com
problemas e obstáculos que estão mais à frente
no tempo. Em vez de resolver as crises do presente, resolvem-se
as do futuro, para que não cheguem a ocorrer.
Em uma recepção de hotel, em
sociedades avançadas, muitos problemas foram antecipados
e evitados ou sua solução foi codificada em
procedimentos-padrão. Ademais, a cabeça do funcionário
foi preparada para lidar simultaneamente com um número grande
de problemas. Já em hotel de lugar pobre, o funcionário
se confunde, se esquece, se afoba e os problemas não resolvidos
vão se multiplicando.
Igualmente, nos países avançados
as relações humanas se pautam por regras complexas,
impessoais e estruturadas. Além disso, são regras
diferentes para regular momentos e funções diferentes
da vida, com claras distinções entre família,
organizações e Estado.
No fundo, a mensagem é que o desenvolvimento
virá mais espontaneamente para aquelas sociedades que melhor
lidam com os aspectos da complexidade que afetam a produção,
pois o processo é cada vez mais complexo. O grande diferencial,
para pior, da América Latina é haver sido colonizada
por sociedades tecnologicamente muito atrasadas apesar de
terem complexidade e vantagens em outras áreas.
Não sei bem aonde levará minha
teoria. Mas, se herdamos uma cultura incapaz de lidar com a complexidade,
temos de mudar, sobretudo, aprendendo com quem sabe. E certamente
o ponto de partida é uma educação de qualidade.
Claudio de Moura Castro
é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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