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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Glória e desdita de
um dono de butique
Onde se revela
a verdadeira identidade
do homem que se passa por
José Dirceu
Um dia, Carlos Henrique Gouveia de Melo sonhou
ser José Dirceu e...
Melhor começar do começo. Surgiram
razões, nas últimas semanas, para estranhar a falta
de coerência entre as diversas declarações e
práticas do ex-ministro José Dirceu e suas declarações
e práticas do passado. Ele saiu do governo cheio de ardor.
"Vou percorrer o Brasil, vou mobilizar o PT para dar combate àqueles
que querem interromper o processo político democrático
e querem desestabilizar o governo do presidente Lula", disse. Relevemos
os misteriosos agentes da interrupção da democracia
e ignoremos o fato de que a desestabilização do governo
Lula se origina em seus próprios tremores internos. O que
nos interessa é essa idéia de "mobilizar" o partido.
Ora, enquanto esteve no governo, Dirceu não fez senão
desmobilizá-lo!
Dias depois, uma tropa de choque de militantes,
bandeiras do PT em punho, acolitou-o na volta, que pretendia triunfal
acabou sendo constrangedoramente triunfal , à
Câmara dos Deputados. O papel que ele representava era o de
paladino da sagrada flama do partido, o guardião de seus
puros ideais. Ora, não foi ele que, como poderoso chefão
do ministério, não deu chance aos que apontavam a
dissonância entre os rumos do governo e os antigos ideais
do partido? José Dirceu precipitava-se no novo papel traído
pela inconsistência. Parecia às voltas com uma crise
de identidade. Quem sou eu? Que se espera de mim? Que espero eu
mesmo de mim?
Na transmissão do cargo de chefe da
Casa Civil à ex-ministra das Minas e Energia Dilma Rousseff,
nova atropelada de papéis. "Camarada de armas" foi
assim que chamou a ministra, militante, como ele, de movimentos
nascidos com a intenção de dar combate armado à
ditadura militar. Num passo além, ele agora se fazia guerreiro
guerreiro como Simon Bolívar, Garibaldi ou Che Guevara,
a espada e o trabuco erguidos em defesa de justas e nobres causas.
Dilma Rousseff, sim, participou da chamada luta armada. Já
Dirceu, em diversos depoimentos anteriores, disse que chegou a treinar
guerrilha, mas nunca a praticou. "Não gostava daquilo, não
me envolvi", alegou numa reportagem desta revista, em 2002.
Eis José Dirceu outra vez perdido no
labirinto do ser e não ser. Ele próprio, numa conversa
com jornalistas, na semana passada, transcrita pelo Estado de
S. Paulo de quarta-feira, endossou as razões para crer
que vive uma cruel crise de identidade ao afirmar: "Descobri que
eu sou dois, eu e o personagem Zé Dirceu". O conjunto de
tais elementos leva a uma única e inexorável conclusão.
José Dirceu não existe. É uma invenção
de Carlos Henrique Gouveia de Melo.
Da biografia do ex-chefe da Casa Civil, caso
alguém não se lembre, consta um período de
quatro anos em que viveu clandestinamente na pequena Cruzeiro do
Oeste, no Paraná. Fazia-se passar por um empresário
sem nenhum interesse pela política, tanto que, quando o viam
com um jornal na mão, estava sempre aberto na página
de esportes. Dizia-se corintiano fanático. Acabou casando
com a próspera dona da Clara Confecções, loja
de roupas femininas. Graças à ajuda dela, formou sua
própria loja, o Magazine do Homem. O nome com que se apresentava
era Carlos Henrique Gouveia de Melo.
Diante dos últimos acontecimentos,
começa-se a desconfiar que essa história tenha sido
contada ao inverso. Não foi José Dirceu quem inventou
Carlos Henrique, mas Carlos Henrique quem inventou José Dirceu.
Não existe um José Dirceu de verdade. Existe um Carlos
Henrique. Um dia, cansado de Cruzeiro do Oeste e da monotonia da
butique, Carlos Henrique pôs-se à busca de novas aventuras,
e, sob o pseudônimo de José Dirceu, trilhou uma surpreendente
carreira na política. No fundo, no entanto, continuou o mesmo
pacato cidadão que gosta, mesmo, é do Corinthians,
daí que muita coisa, por falta de gosto e de experiência,
não tenha dado certo. Daí também tantas obscuras
passagens na biografia de "José Dirceu" e tantas vacilações
em torno de seus papéis. Carlos Henrique não teve
tempo de pensar o personagem em todos os detalhes. Seria exigir
demais do pobre dono do Magazine do Homem.
A evocação de bois misteriosos,
alguns dados por escondidos em indevassáveis paragens, outros
tidos como puro fruto da imaginação, tem sido uma
constante nas estripulias políticas nacionais. No auge da
crise de desabastecimento do Plano Cruzado, o governo prometia buscar
os bois no pasto, para garantir a oferta da carne. Na semana passada,
o desafio era achar os bois de Marcos Valério, o publicitário
apontado como o homem da mala no esquema de distribuição
de dinheiro a partidos e deputados. Ele alegava que foi para comprar
bois que fez tantos e tão volumosos saques nas contas bancárias
de suas empresas.
A experiência brasileira sugere uma
correção no "cherchez la femme", a norma tantas vezes
invocada em investigações. Por aqui o imperativo é
outro. É "cherchez le boeuf", procure o boi.
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