Edição 1912 . 6 de julho de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 
Olhando pra esquerda ou olhando pra direita, estamos dentro de um palíndromo: A MALA NADA NA LAMA

Em defesa do mensalão ou
a decadência da corrupção

Me repito (repito-me, antigamente): vivo num mundo melhor do que jamais foi. Há uma razoável transparência nos atos e nos fatos, não porque o puder o queira, mas porque é impossível ocultar os malfeitos, os nãofeitos, a violência e, vamos falar claro, a escrotidão.

O mundo está melhor. Só fica horrorizado com o presente do Iraque, onde o número de vítimas é mínimo – e que logo são socorridas e anestesiadas pra que não sintam dor –, quem não sabe que os turcos mataram 1 milhão de armênios (de uma população de 3 milhões) no século XX e nunca ouviu falar na Guerra de 18 – a Grande Guerra. Os caras apodreciam nas trincheiras. E os ferimentos não eram bonitinhos como no cinema. O soldado via o companheiro a seu lado berrando aos céus sem um pedaço da cara, sem um olho. Sem socorro.

Hoje, entre o terrorismo individual – o das torres do World Center, por exemplo – e o terrorismo coletivo, os Estados Unidos bombardeando quem bem entendem, há equiparação de forças. E ocasionalmente o terrorismo individual põe o terrorismo imperial de joelhos. Retirou do Iraque as tropas da Espanha.

No último século melhoramos extraordinariamente em higiene, diversão e comunicação – cinema, rádio, tevê, celulares, em tudo. A média de vida era de 41 anos; hoje, em alguns países, a expectativa já ultrapassa os 80. E os protestos que você vê todos os dias, por não haver merenda nas escolas, atendimento nos hospitais, pelas escolas serem deficientes, etecétera, são devidos ao fato do cidadão saber que tem direito a um porrilhão de coisas. E meios de reivindicação.

Nos últimos trinta anos foi enorme a conquista de espaço pela mulher, depois dos anos 60 a aceitação da negritude, a princípio forçada, logo depois até admirada, é irreversível.

Paro aqui. Esse assunto, amplo como as águas, deve ser retomado por gente capaz, que deixe de ser babacamente otimista pra ser conscientemente otimista.

Acabo de ler um livro admirável, Wide as the Waters (Benson Bobrick; Simon & Schuster; 380 páginas). Livro impossível de ser traduzido, pois trata justamente da luta mortal, na Inglaterra, através de séculos, pra traduzir a Bíblia pro povo. Contém comparações lingüísticas de rara beleza – em inglês! A Bíblia que resultou dessas traduções influenciou definitivamente na luta entre o Papado, a Reforma, o Stablishment inglês. A Bíblia – ampla como as águas. A maior influência pra formação da língua inglesa, pra unificação da unidade nacional.

É desse admirável Livro – feito por scholars e tratando de assunto em que só entram scholars – que tiro este pequeno trecho:

"Todos os historiadores católicos reconhecem as múltiplas manifestações de corrupção da Igreja medieval – parecia determinada a se autodesacreditar. Tudo podia ser obtido por dinheiro, por mais danoso que isso fosse pra própria Igreja".

A coisa começou em 1293, quando um Colégio Eleitoral raivosamente dividido se reuniu pra eleger um novo Papa. O impasse foi resolvido por uma proposta extraordinária. Alguém lembrou o nome de Pedro Morrone, um eremita beneditino com pouquíssima educação. Todos os presentes, "inspirados pelo Espírito Santo", aceitaram imediatamente a extravagante sugestão. O monge, perplexo, foi trazido num burro e coroado Papa Celestino V. Mostrou-se logo totalmente despreparado para as demandas do cargo, desgostando os cardeais com suas excentricidades e inaptidões. Os cardeais reagiram, e Celestino V ficou praticamente em cativeiro o resto do papado. Um ano depois deixou "voluntariamente" o cargo e foi substituído por Benedetto Gaetani (Bonifácio VIII).

Aí é que foi a inana. Felipe, o Belo, da França, cobiçando a riqueza da Igreja, taxou pesadamente os clérigos franceses. O Papa Bonifácio resolveu enfrentá-lo, mas foi vencido, e espancado até a morte. Logo depois Clemente V, a pedido de Felipe, transferiu o papado para Avignon, na França, onde ficou sessenta anos, perdendo todo o prestígio.

Só recuperado materialmente por seu sucessor, João XXII, que criou o sistema de apaziguar os pecados com a venda de indulgências! Qualquer um com dinheiro podia pecar (agir criminosamente) com impunidade.

As indulgências vinham do pressuposto de superabundância de méritos dos santos. Desse tesouro (Compensium dos Méritos dos Santos) o Papa podia transferir mérito pra quem fosse deficiente – e pudesse pagar. O Tesouro de indulgências jamais se esgotaria porque os ativos incluíam os inexauríveis méritos de Cristo. Com efeito, João XXII foi o fundador do "Banco Central da Salvação". Estava decidido a elevar às nuvens a riqueza papal. Estabeleceu um sistema no qual era da Igreja o primeiro ano de qualquer benefício, estabeleceu preço pra todos os documentos emitidos pela Igreja, concentrou o poder de arrecadação nas mãos de apaniguados e parentes. Quando morreu, o tesouro papal estava avaliado em 25 milhões de Coroas/Ouro.

A prosperidade da Igreja beneficiava até os monges e frades pedintes. Durante os séculos XI e XII doações se tornaram uma mania. Terras, construções, pedras preciosas, ouro e prata eram doados aos conventos com inacreditável generosidade. Também eram exigidas verdadeiras relíquias pela realização de milagres e, acima disso, a venda das indulgências e das missas levava rios de ouro pro tesouro monástico. Depois de um tempo, qualquer frase suspeita dita por um cidadão se tornava foco pro achaque – a impostura não tinha nenhuma vergonha. Prelados ouviam confissões, aproveitavam-se delas, pregavam por doações, administravam sacramentos: apregoavam suas mercadorias com a mesma desfaçatez de um bufarinheiro. E aumentavam sua fortuna até anexando pertences e propriedades de monges renitentes.

Também na Inglaterra os prelados possuíam imensas propriedades rurais, tinham rendas principescas, e poderes eclesiásticos e civis inacreditáveis. Anátemas terríveis eram expelidos dos púlpitos contra todos os que resistiam aos desígnios do mando. Os mais ferozes anátemas eram excomunhões "gerais", que excediam qualquer pena contra crimes capitais. Exemplo:

"Que sejam malditos pelo que comem e pelo que bebem; pelo que andam e pelo que param; quando remam e quando cavalgam; porque riem e porque choram; em casa ou no campo; na água ou em terra, em todos os lugares. Amaldiçoados sejam seus pensamentos e suas cabeças; seus olhos e seus ouvidos; suas línguas e seus lábios; seus dentes e suas gargantas; seus ombros e seus peitos; seus pés e suas pernas; suas coxas e seus bofes. E que permaneçam malditos da sola dos pés ao alto da cabeça, a não ser que reflitam no que dizem e pensam e fazem, e venham dar satisfações".

Mensalão – eu, hein?!

 
 
 
 
topo voltar