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Olhando pra esquerda ou olhando pra direita,
estamos dentro de um palíndromo: A MALA NADA NA LAMA
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Em defesa do mensalão ou
a decadência da corrupção
Me repito (repito-me, antigamente): vivo num
mundo melhor do que jamais foi. Há uma razoável
transparência nos atos e nos fatos, não porque o puder
o queira, mas porque é impossível ocultar os malfeitos,
os nãofeitos, a violência e, vamos falar claro, a escrotidão.
O mundo está melhor. Só
fica horrorizado com o presente do Iraque, onde o número
de vítimas é mínimo e que logo são
socorridas e anestesiadas pra que não sintam dor ,
quem não sabe que os turcos mataram 1 milhão de armênios
(de uma população de 3 milhões) no século
XX e nunca ouviu falar na Guerra de 18 a Grande Guerra.
Os caras apodreciam nas trincheiras. E os ferimentos não
eram bonitinhos como no cinema. O soldado via o companheiro a seu
lado berrando aos céus sem um pedaço da cara, sem
um olho. Sem socorro.
Hoje, entre o terrorismo individual
o das torres do World Center, por exemplo e
o terrorismo coletivo, os Estados Unidos bombardeando quem bem entendem,
há equiparação de forças. E ocasionalmente
o terrorismo individual põe o terrorismo imperial de joelhos.
Retirou do Iraque as tropas da Espanha.
No último século
melhoramos extraordinariamente em higiene, diversão e comunicação
cinema, rádio, tevê, celulares, em tudo. A média
de vida era de 41 anos; hoje, em alguns países, a expectativa
já ultrapassa os 80. E os protestos que você vê
todos os dias, por não haver merenda nas escolas, atendimento
nos hospitais, pelas escolas serem deficientes, etecétera,
são devidos ao fato do cidadão saber que tem direito
a um porrilhão de coisas. E meios de reivindicação.
Nos últimos trinta anos
foi enorme a conquista de espaço pela mulher, depois dos
anos 60 a aceitação da negritude, a princípio
forçada, logo depois até admirada, é irreversível.
Paro aqui. Esse assunto, amplo
como as águas, deve ser retomado por gente capaz, que
deixe de ser babacamente otimista pra ser conscientemente otimista.
Acabo de ler um livro admirável,
Wide as the Waters (Benson Bobrick; Simon & Schuster;
380 páginas). Livro impossível de ser traduzido, pois
trata justamente da luta mortal, na Inglaterra, através de
séculos, pra traduzir a Bíblia pro povo. Contém
comparações lingüísticas de rara beleza
em inglês! A Bíblia que resultou dessas
traduções influenciou definitivamente na luta entre
o Papado, a Reforma, o Stablishment inglês. A Bíblia
ampla como as águas. A maior influência
pra formação da língua inglesa, pra unificação
da unidade nacional.
É desse admirável
Livro feito por scholars e tratando de assunto em
que só entram scholars que tiro este pequeno
trecho:
"Todos os historiadores católicos
reconhecem as múltiplas manifestações de corrupção
da Igreja medieval parecia determinada a se autodesacreditar.
Tudo podia ser obtido por dinheiro, por mais danoso que isso fosse
pra própria Igreja".
A coisa começou em 1293,
quando um Colégio Eleitoral raivosamente dividido se reuniu
pra eleger um novo Papa. O impasse foi resolvido por uma proposta
extraordinária. Alguém lembrou o nome de Pedro Morrone,
um eremita beneditino com pouquíssima educação.
Todos os presentes, "inspirados pelo Espírito Santo", aceitaram
imediatamente a extravagante sugestão. O monge, perplexo,
foi trazido num burro e coroado Papa Celestino V. Mostrou-se logo
totalmente despreparado para as demandas do cargo, desgostando os
cardeais com suas excentricidades e inaptidões. Os cardeais
reagiram, e Celestino V ficou praticamente em cativeiro o resto
do papado. Um ano depois deixou "voluntariamente" o cargo e foi
substituído por Benedetto Gaetani (Bonifácio VIII).
Aí é que foi a
inana. Felipe, o Belo, da França, cobiçando a riqueza
da Igreja, taxou pesadamente os clérigos franceses. O Papa
Bonifácio resolveu enfrentá-lo, mas foi vencido, e
espancado até a morte. Logo depois Clemente V, a pedido de
Felipe, transferiu o papado para Avignon, na França, onde
ficou sessenta anos, perdendo todo o prestígio.
Só recuperado materialmente
por seu sucessor, João XXII, que criou o sistema de apaziguar
os pecados com a venda de indulgências! Qualquer um
com dinheiro podia pecar (agir criminosamente) com impunidade.
As indulgências vinham
do pressuposto de superabundância de méritos dos santos.
Desse tesouro (Compensium dos Méritos dos Santos) o Papa
podia transferir mérito pra quem fosse deficiente
e pudesse pagar. O Tesouro de indulgências jamais se esgotaria
porque os ativos incluíam os inexauríveis méritos
de Cristo. Com efeito, João XXII foi o fundador do "Banco
Central da Salvação". Estava decidido a elevar às
nuvens a riqueza papal. Estabeleceu um sistema no qual era da Igreja
o primeiro ano de qualquer benefício, estabeleceu preço
pra todos os documentos emitidos pela Igreja, concentrou o poder
de arrecadação nas mãos de apaniguados e parentes.
Quando morreu, o tesouro papal estava avaliado em 25 milhões
de Coroas/Ouro.
A prosperidade da Igreja beneficiava
até os monges e frades pedintes. Durante os séculos
XI e XII doações se tornaram uma mania. Terras, construções,
pedras preciosas, ouro e prata eram doados aos conventos com inacreditável
generosidade. Também eram exigidas verdadeiras relíquias
pela realização de milagres e, acima disso, a venda
das indulgências e das missas levava rios de ouro pro tesouro
monástico. Depois de um tempo, qualquer frase suspeita dita
por um cidadão se tornava foco pro achaque a impostura
não tinha nenhuma vergonha. Prelados ouviam confissões,
aproveitavam-se delas, pregavam por doações, administravam
sacramentos: apregoavam suas mercadorias com a mesma desfaçatez
de um bufarinheiro. E aumentavam sua fortuna até anexando
pertences e propriedades de monges renitentes.
Também na Inglaterra os
prelados possuíam imensas propriedades rurais, tinham rendas
principescas, e poderes eclesiásticos e civis inacreditáveis.
Anátemas terríveis eram expelidos dos púlpitos
contra todos os que resistiam aos desígnios do mando. Os
mais ferozes anátemas eram excomunhões "gerais", que
excediam qualquer pena contra crimes capitais. Exemplo:
"Que sejam malditos pelo que
comem e pelo que bebem; pelo que andam e pelo que param; quando
remam e quando cavalgam; porque riem e porque choram; em casa ou
no campo; na água ou em terra, em todos os lugares. Amaldiçoados
sejam seus pensamentos e suas cabeças; seus olhos e seus
ouvidos; suas línguas e seus lábios; seus dentes e
suas gargantas; seus ombros e seus peitos; seus pés e suas
pernas; suas coxas e seus bofes. E que permaneçam malditos
da sola dos pés ao alto da cabeça, a não ser
que reflitam no que dizem e pensam e fazem, e venham dar satisfações".
Mensalão eu, hein?!
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