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Diogo
Mainardi
Um país detestável
"Houellebecq definiu o Brasil como uma
porcaria de país. Foi antes das comemorações
do 'Ano do Brasil na França'. Imagino que
agora, depois de nos conhecer melhor, todos
os franceses compartilhem essa opinião"
Michel Houellebecq, em Partículas
Elementares, definiu o Brasil como uma porcaria de país,
"povoado de brutos fanáticos por futebol e por corridas de
automóvel. A violência, a corrupção e
a miséria estavam no apogeu. Se havia um país detestável,
era justamente, e especificamente, o Brasil". Partículas
Elementares é de 1998. Ou seja, foi publicado antes das
comemorações do "Ano do Brasil na França".
Imagino que agora, tendo tido a oportunidade de conhecer melhor
nossos músicos, cineastas, escritores, artistas plásticos
e políticos, todos os franceses compartilhem a opinião
de Houellebecq a respeito do país. Se eu fosse o ministro
das Relações Exteriores, ou o ministro da Cultura,
ou o diretor da Cacex, evitaria exibir o Brasil lá fora.
Nossa única chance é que o resto do mundo continue
a nos ignorar. Quanto menos contato os estrangeiros tiverem conosco,
melhor. Uma iniciativa como o "Ano do Brasil na França" produz
danos irreparáveis à nossa imagem. Os franceses levarão
meio século para esquecer o que viram.
A comunidade muçulmana na França
processou Houellebecq porque ele declarou numa entrevista que o
islamismo era "uma religião estúpida". Os brasileiros
não podem fazer o mesmo. Houellebecq tem razão sobre
o Brasil. A gente é uma porcaria. A gente é fanático
por esporte. A gente é corrupto. Um fato não exclui
o outro. Pelo contrário: há uma relação
direta entre fanatismo esportivo e corrupção. A investigação
sobre a roubalheira petista já revelou que a propaganda estatal
era usada para a lavagem de dinheiro. Agora falta descobrir se o
patrocínio de eventos esportivos tinha a mesma finalidade.
Eu persigo o diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato.
Sou seu professor Moriarty. Cheguei a recomendar sua convocação
à CPI. Tenho certeza de que ele pode explicar direitinho
como funciona o esquema de distribuição de verbas
promocionais das empresas públicas. Pizzolato está
por dentro de tudo. Além de arrecadar fundos para as campanhas
eleitorais de Lula, ele comanda o investimento em publicidade do
Banco do Brasil e decide o patrocínio da estatal a eventos
esportivos. É o nosso homem.
Um dos eventos esportivos patrocinados por
Pizzolato foi um torneio hípico realizado pelo publicitário
Marcos Valério. O maior quinhão do Banco do Brasil,
porém, é destinado ao vôlei e ao tênis.
O Banco do Brasil, quase sempre em sociedade com a Koch Tavares,
financia praticamente sozinho todo o tênis nacional. Patrocina
Gustavo Kuerten, o Brasil Open, o Ourocard Challenger, o circuito
juvenil, o Masters e o Aberto de São Paulo, através
de sua subsidiária Cobra Tecnologia. Nos dois primeiros anos
do governo Lula, a Cobra foi comandada por Graciano Santos Neto.
Ele é uma das figuras mais comentadas do petismo. Era diretor
da Gtech na época em que Waldomiro Diniz negociava em favor
da empresa. Na Cobra, foi acusado de beneficiar empresas privadas
com o repasse de contratos sem licitação. Graciano
é tenista amador. Em 2004, jogou uma partida preliminar da
final do Aberto de São Paulo, torneio patrocinado pela própria
Cobra. Ao término da partida, concedeu-se inclusive um troféu.
Como diria Houellebecq, é detestável que Graciano
tenha se aproveitado do dinheiro público para se exibir num
torneio de tênis. E é ainda mais detestável,
"especificamente detestável", que ninguém tenha pensado
em expulsá-lo da quadra a raquetadas.
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