| |
Noite do barulho
no Palácio Guanabara
Faz
sessenta anos, neste mês de maio, os
integralistas tentavam um golpe indo direto ao ponto
Como já ficou
supérfluo falar de 1968, recuemos outros trinta anos e
falemos de 1938. Aquele dia 10 de maio de 1938
transcorrera como muitos outros. Pela manhã, o
presidente Getúlio Vargas trabalhara no próprio
palácio residencial, o Palácio Guanabara. Ali, no
gabinete íntimo em que costumava ficar até a hora de ir
ao Catete, à tarde, examinara a papelada, fazendo
anotações à margem com a coleção de lápis que
mandava apontar todos os dias. Havia dois ou três lápis
pretos, um verde e quatro bicolores, vermelhos e azuis.
Conforme o ministério a ser endereçado o documento, sua
natureza reservada ou a urgência, ele usava um tipo de
cor. Como aquele dia foi igual aos outros, pulemos logo
para a madrugada seguinte. Pouco depois da meia-noite,
quando no Guanabara já estavam todos deitados o
presidente, sua família e os poucos servidores que ali
residiam ouviu-se o primeiro tiro. Estava começando o
levante dos integralistas, os famosos camisas-verdes, que
imitavam, no Brasil, a moda do fascismo italiano e do
nazismo alemão.
O levante
integralista está fazendo sessenta anos. Foi um dos mais
estrambóticos da História brasileira, tão cheia de
levantes, golpes e "revoluções"
estrambóticos. Consistiu numa revolução de jardim,
para começar, deu-se nos jardins do Palácio Guanabara,
onde penetraram dois caminhões cheios de rebeldes,
graças à cumplicidade de um oficial na portaria.
Também consistiu, caso único nos anais brasileiros, num
levante que foi direto ao ponto e procurou alvejar a
pessoa do presidente, ou pelo menos o lugar onde morava:
uma vez no jardim, os revoltosos passaram a metralhar o
palácio. Que país era aquele, em que um presidente que
mantinha os lápis sempre apontados era arrancado da cama
por uma revolução no jardim?
O ano de 1938,
visto de hoje, parece ficção. Encoberto pela fumaça do
tempo, soa inverossímil. Logo 1968, o ano das passeatas
estudantis e do Ato Institucional número 5, é que
parecerá assim se é que já não parece, para as
gerações mais jovens , e em seguida chegará a vez de
1998. O país de 1938 nos parece exótico e algo cômico.
Convença-se o leitor incrédulo, no entanto, de que os
camisas-verdes realmente existiram, assim como os bondes
elétricos, os chapéus e os mata-borrões, e que nessa
época era encarada com naturalidade a idéia de promover
levantes para tomar o poder.
Um vivo relato do
que acontecia dentro do palácio, naquela noite do
barulho, encontra-se no livro Getúlio Vargas, Meu
Pai, de autoria da filha dileta do presidente, Alzira
Vargas. A filha, despertada pelos tiros, precipitou-se da
cama e foi encontrar o pai colocando o revolver à
cintura, por cima do pijama. O grupo que dormia no
Guanabara, não mais de uma dúzia de pessoas, entre elas
a mulher do presidente e três filhos, procurou refúgio
no gabinete íntimo de Getúlio. O palácio estava às
escuras. O fogo era cerrado, e às vezes o perigo
rondava. "Uma bala solitária entrou zunindo dentro
do gabinete, em direção à cadeira em que papai
costumava sentar para escrever, e estraçalhou as
encadernações de vários livros na estante",
escreve Alzira.
Alzira, a
"Alzirinha", então com 23 anos, teve
importante papel naquela noite. Pelo único telefone que
funcionava, linha direta ligando ao Palácio do Catete,
articulou a reação com o mundo lá fora. Foi então que
ocorreram fatos até hoje suspeitos. O então chefe de
Polícia, Filinto Müller, disse que ia mandar uma força
para resgatar o palácio. O ministro da Justiça,
Francisco Campos, e o chefe do Estado-Maior do Exército,
general Góis Monteiro, disseram o mesmo mas essa
força nunca chegava. O ministro da Guerra, general
Eurico Dutra, conseguiu entrar com uma pequena escolta no
jardim, foi levemente ferido na orelha e, tão
misteriosamente como entrara, saiu. Haveria algum
interesse, nas altas esferas, em que o presidente fosse
morto?
Enfim, uma tropa
comandada pelo coronel Cordeiro de Farias concentrou-se
no campo do Fluminense, vizinho ao palácio. Ocorreu
então um último contratempo: não se encontrava a chave
da pequena porta que ligava o campo ao palácio.
"Por que não arrebentam a porta a bala?",
perguntava Alzira. Não. Esperou-se uma infinidade, até
que se achasse a chave. A tropa entrou então
educadamente, fuzilou oito rebeldes e acabou com a
revolução no jardim. Eram 5 da manhã.
Que tem a ver o
país de 1998 com o de 1938? É impensável, hoje, um
assalto aos jardins do Palácio da Alvorada. Não se
imagina o presidente Fernando Henrique Cardoso, revólver
enfiado na calça do pijama, esgueirando-se pelos
corredores, enquanto a filha busca socorro pelo único
telefone disponível. Quando se fala em tiroteio, na
política de hoje, é quase sempre em sentido figurado.
Mas em 1938 era impensável que em frente do mesmo
Palácio Guanabara hoje sede do governo do Rio de
Janeiro uma estudante fosse morta a balas de fuzil
AK-47, como ocorreu há poucas semanas. Os tiroteios
transpuseram o muro do palácio e ganharam a rua. Escolha
o leitor que país é melhor.

|
|