| |
Para além da cor
Com Alice Walker e outros autores, a
literatura
negra está finalmente abandonando o gueto
A boa notícia sobre
a literatura negra americana é que ela está deixando de
ser negra para ser apenas literatura. Sobretudo o chamado
romance negro vem se despindo cada vez mais da panóplia
étnica, que o reduzia à literatura de resistência
anticolonialista e antiimperialismo branco, para abraçar
temas universais. Quem ganha com isso é o leitor.
Afinal, por mais que se reconheça a importância
histórica do empenho dos autores afro-americanos em
expor e denunciar os mecanismos de controle e repressão
dos brancos, não dá para negar que essa produção se
tornou repetitiva e lamurienta.
É curioso, mas foi outra ladainha a do movimento
feminista que ajudou a romper com o puro denuncismo e
alçou a literatura negra para além do gueto. Tomem-se
como exemplo os treze contos do volume De Amor e
Desespero (Rocco; tradução de Waldéa
Barcellos; 132 páginas; 16,50 reais), de Alice Walker. O
livro, de 1967, foi um dos precursores dessa transição,
que se intensificou nos últimos tempos. Com temas
amplos, foi uma das primeiras obras de autor negro a ser
adotadas nas escolas americanas. Ao narrar a história de
mulheres negras subjugadas ora pelo machismo ora pela
pobreza, a escritora desenhou uma superfície em que
leitores brancos também se identificam. No melhor dos
treze contos, o negro Jerome é um típico professor
universitário americano que devora romances de tribunal.
Além disso, trai a esposa e a vê como uma digna
representante do "sexo frágil". Alice não
está descrevendo um novo-aculturado, mas um americano
médio que, apenas por acaso, é negro.
Sem rancor É com essa fórmula
que os novos ficcionistas e ensaístas negros, como
Shirley Hallstock, Felícia Mason e Shelby Steele, se
vêm firmando no mercado. Publicados pelas grandes
editoras americanas e européias, ganharam a atenção
dos melhores agentes literários. Embora fortemente
influenciadas pela solidariedade racial, as obras desses
autores deixaram de sacrificar a estética em nome de
epopéias rancorosas e autopiedosas, ganhando mais
plasticidade e diversidade. Como Michael Jackson, parece
que os escritores afro-americanos descobriram que não
faz sentido "passar o resto da vida sendo uma cor''.
Alice Walker, 54 anos, ficou famosa quando, nos anos 80,
seu romance A Cor Púrpura virou filme de Steven
Spielberg. É seu romance mais conhecido e premiado:
ganhou o American Book Award e o Pulitzer. Para muitos
críticos deveria ter recebido também o Nobel, láurea
que a academia sueca deu a uma autora negra mais
tradicionalista, a também americana Toni Morrison.
Atualmente, Alice prepara um volume de poemas, retomando
a forma com a qual iniciou sua carreira, que inclui obras
de ficção, jornalismo e ensaísmo.
Hamilton dos Santos
|
|