O arrasa-livrarias

Como o caipira John Grisham se
transformou no escritor mais vendido da década

Carlos Graieb

Era uma vez dois primos caipiras nascidos no Estado de Arkansas, uma espécie de Piauí dos Estados Unidos. Ambos estudaram direito e, depois, enveredaram pela política. Um deu certo. Outro foi rejeitado pelas urnas e mudou de ramo. O que deu certo virou presidente dos Estados Unidos. O que deu errado se transformou no escritor mais bem-sucedido do país. John Grisham, primo distante de Bill Clinton — o avô materno do presidente americano tinha o sobrenome Grisham —, é um fenômeno. É o escritor que mais vendeu livros na década de 90, com 86 milhões de exemplares de 1991 para cá. Seu novo best-seller, O Júri (Rocco, tradução de Aulyde Soares Rodrigues; 503 páginas; 28 reais), recém-lançado no Brasil, foi o livro que mais vendeu nos Estados Unidos no ano passado, com 5 milhões de exemplares (veja quadro abaixo). Ao longo de sete anos de carreira, suas obras propiciaram em todo o mundo negócios no valor de 1 bilhão de dólares, incluídas aí as adaptações de seus romances para o cinema. Seu patrimônio pessoal, em 1996, era estimado em 30 milhões de dólares. Por conta disso, o lançamento de um novo livro de John Grisham é um verdadeiro ritual. Livreiros limpam quilômetros de prateleiras para acomodar seus novos romances. Editoras refazem suas escalas de publicação, evitando que algum nome de peso concorra diretamente com Grisham — é encalhe na certa.

Fumante — Qual o segredo desse arrasa-livrarias? Para começar, ele criou um estilo de romance de tribunal que consegue ser extremamente cínico sem necessariamente fazer, com isso, uma crítica ao sistema jurídico americano. Dos livros de Grisham, depreende-se que a Justiça é boa, mas dentro dela há espaço para várias manipulações que podem ser feitas por advogados espertos e inescrupulosos. O Júri é um exemplo disso. O livro gira em torno de uma batalha entre a indústria de cigarros e patrulhas antifumo nos Estados Unidos. Grisham, que é fumante, não se preocupa, como pode parecer a princípio, em fazer uma sátira aos politicamente corretos, como Michael Crichton em Revelação. O que ele quer, na verdade, é mostrar como funcionam as pressões sobre os jurados num caso como esse. No livro, tanto a defesa quanto a acusação espionam os jurados, e vão além, lançando mão de todo tipo de chantagem para pressioná-los. Se fosse ambientado no Brasil, O Júri seria provavelmente uma comédia inverossímil. Aqui, só crimes contra a vida vão a júri popular, e as pressões nunca são tão sofisticadas. Segundo o advogado Miguel Reale Junior, professor de direito penal da Universidade de São Paulo, consta na jurisprudência apenas um caso antológico de pressão contra jurados, durante o julgamento, numa cidade do interior, de um homem acusado de assassinar o amante da mulher. Em caso de condenação, o advogado de defesa prometeu erguer um "monumento aos traídos" na pracinha da cidade, com o nome de cada um dos jurados-algozes. Foi o suficiente para que o homem fosse absolvido.

Os leitores brasileiros de Grisham gostarão de saber que o autor já esteve várias vezes no Brasil, sempre incógnito, segundo revelou em janeiro à revista Publishers Weekly. Batista fervoroso, Grisham viaja pelo mundo ajudando na construção de igrejas em pequenas comunidades — e foi esse o motivo que o trouxe ao Brasil, retratado de relance em seu livro anterior, O Sócio. Homem de hábitos simples, Grisham conserva da infância pobre não apenas o fervor religioso. Esse filho de arrumadeira com um pedreiro mora numa cidadezinha no interior do Mississippi, onde se dedica a ações de caridade e, nas horas de folga, treina uma pequena equipe de beisebol. O passado humilde e os números assombrosos de seu sucesso fazem de Grisham a segunda maior encarnação do sonho americano nos dias de hoje. A primeira habita a Casa Branca — mas ganha bem menos e tem muito mais dores de cabeça.

Leitura na TV

Imagine Hebe Camargo recomendando livros em seu programa. É possível que um dia ela resolva fazer algo assim, mas qual seria a repercussão? Nos Estados Unidos, Oprah Winfrey, a mais conhecida das apresentadoras de TV, uma das personalidades mais bem pagas do show biz, decidiu falar de livros em seu programa. Criou o quadro Oprah's Book Club e, a partir daí, muita coisa mudou. Como observou a revista Publishers Weekly em seu balanço anual dos negócios livreiros nos Estados Unidos, 1997 foi um ano diferente por causa de Oprah: 100 títulos de ficção estiveram no topo das listas globais de mais vendidos, roubando posições de obras de auto-ajuda, saúde e computação. Os que chegaram mais alto foram sugestão de Oprah.




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