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Trinta anos depois de maio
Luís
Felipe de Alencastro
Maio de 1968. Estamos, a gente da minha
geração que participou daqueles acontecimentos
franceses, com mais trinta anos nas costas. E também
trinta anos mais burros e mais covardes? Tal era o triste
fado que a ala imediatista do movimento hippie americano
agourava quando dizia: "Não confie em ninguém
maior de 30 anos!" Entre imediatismos e sonhos de
longo prazo, houve de tudo no mês de maio. Impulso
libertário contra a "sociedade de consumo",
comícios de todo tipo, esbanjamento de idéias abstratas
e conquistas trabalhistas concretas. Absolvendo a
responsabilidade do então presidente De Gaulle nos
eventos que sacudiam o país, o escritor André Malraux,
brilhante gaullista, vaticinou: "Não se trata de
uma crise de governo nem de uma crise de regime; trata-se
de uma crise de civilização!" Malraux tinha
razão. Houve, de fato, uma profunda mudança cultural
naqueles anos na França, nos Estados Unidos, na maioria
dos países ocidentais, no rastro dos movimentos
estudantis que pipocavam em toda parte.
Comemorando a data,
o último número do semanário parisiense Le Nouvel
Observateur proclama na sua capa: "Maio de 1968
a falsa revolução que mudou tudo".
Agora dá para
dizer isso. Mas ali, na bucha, havia muita gente
perplexa, como mostram os documentos que vêm sendo
revelados. De Gaulle queria abandonar o governo, o
Parlamento andava por fora dos debates das ruas
parisienses, e os agentes locais da CIA prenunciavam uma
guerra civil. Para não falar dos próprios estudantes,
tomados por surtos de euforia revolucionária.
Sucederam-se
semanas de agitação, a maior greve operária do
pós-guerra ocorrida num país desenvolvido, muita
pancadaria. Mas em toda a região parisiense houve um
único morto, assassinado por uma facada numa obscura
briga de rua, e não pelas balas da polícia francesa.
Passou-se o verão
europeu, a URSS derrubou o governo Dubcek, o qual, em
Praga, tentava fazer o comunismo evoluir para um
"socialismo humanista", Paris recebeu
refugiados checoslovacos. Confirmava-se que as coisas
continuavam ruins na periferia das democracias
ocidentais. Veio o outono. Na altura em que as
universidades reabriam os cursos, surgiu a notícia
sinistra para o ensinamento que os estudantes
latino-americanos na França retirariam do ano de 1968.
Na Cidade do
México, numa tarde de outubro, um comício estudantil na
Praça Tlatelolco fora recebido a bala. Polícia e
Exército mexicanos atiraram na multidão, fazendo mais
de 300 mortos. Tal era nosso fatal destino. Enquanto os
estudantes franceses podiam, num mês de bagunça e de
sonhos, revirar o mundo e voltar incólumes para suas
universidades, nossos compatriotas levavam tiros nas
praças.
Deu-se o choque das
outras realidades nacionais. O retorno à sina do Brasil,
dono de uma longa História pautada por ditaduras,
truculências, guerra social, chacinas semanais. No
quadro brasileiro, pontuado pela repressão e pela
tortura, em que todos os slogans libertários de maio se
afiguravam perigosamente irreais, só nos cabia assumir a
atualidade de nossos dramas. E revigorar, talvez, o mote
da revolta de um homem já quarentão que, havia mais de
um século, ajudara a deflagrar um outro maio, o 13 de
Maio: no Brasil, um homem de bem não pode sentir-se bem.
Era mais ou menos o que escrevia Joaquim Nabuco, em 1883,
no prefácio do seu O Abolicionismo. Tal foi a
lição, embolada no passado e no presente, recolhida,
por alguns de nós, desse longínquo mês de maio: por
aqui, no meio de tanta injustiça, nenhum homem de bem
pode sentir-se bem. É triste, mas é realista.
No fundo, é
também uma maneira exaltante de assumir a infelicidade
nacional: há ainda muita coisa para mudar por aqui.
Luís
Felipe de Alencastro é historiador

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