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A Varig contra-ataca
Empresa
rompe o cartel da ponte aérea
e toma a frente na guerra das tarifas
Manoel
Fernandes

A competição na
aviação comercial brasileira, que já estava quente,
começou a ferver na semana passada. A Varig, maior
empresa nacional do setor, anunciou duas medidas que
deverão balançar o mercado de vôo doméstico. A
companhia vai reduzir em até 60% os preços das
passagens em todas as 280 rotas que opera dentro do
país. É uma iniciativa bem mais agressiva que a dos
concorrentes, que hoje oferecem desconto máximo de 55%,
e só para algumas linhas. O outro movimento anunciado
pela Varig vai atingir em cheio o coração do mercado
aéreo nacional, a ponte Rio--São Paulo. Durante 38
anos, Varig, Transbrasil e Vasp, as três maiores
empresas de aviação do Brasil, dividiram amigavelmente
os passageiros da rota de maior movimento do país. A
Varig anunciou que vai despedir-se dos compadres em
junho, para começar a competir com eles. "Seremos
ainda mais agressivos", diz Fernando Pinto,
presidente da Varig. "Vamos surpreender o
mercado."
Líder absoluta da aviação civil
brasileira, maior que a Vasp e a Transbrasil juntas, a
Varig tinha perdido a capacidade de incomodar seus
concorrentes. Apesar do tamanho, deixou que a TAM,
empresa muito menor, que nasceu fazendo vôos regionais e
cresce a cada ano, se transformasse na maior atração do
setor. Com o contra-ataque iniciado na semana passada, a
Varig quer virar o jogo da guerra de tarifas, em curso
desde o começo do ano. Até agora, ela vinha apenas
reagindo ao que faziam seus concorrentes, quase sempre
com algum atraso. "A Varig não é a primeira a dar
descontos, mas foi a mais agressiva", diz Mário
José Sampaio, dono da Multiplan, consultoria
especializada em aviação. "Agora os concorrentes
terão de ir atrás."
No pacote de
descontos anunciado pela Varig, os abatimentos variam de
20% a 60%, dependendo do percurso. Nas viagens mais
procuradas, o abatimento será sempre menor. O vôo entre
Rio de Janeiro e Manaus, que atualmente custa 570 reais,
pode cair para 228 reais. De São Paulo a Natal, o preço
deve baixar de 458 para 184 reais. Só que os descontos
não valem para todos os passageiros de um mesmo avião.
Em média, cada vôo terá vinte assentos com desconto.
Terá direito a eles quem comprar passagem com mais
antecedência. "Queremos aumentar a taxa de
ocupação de nossas aeronaves de 60% para 80%", diz
Fernando Pinto.
O anúncio de que a
Varig iria quebrar o cartel da ponte aérea provocou
algumas interpretações erradas. Muita gente achou que a
empresa estaria abandonando o filé mignon da aviação
brasileira, deixando de voar entre os aeroportos de
Congonhas, em São Paulo, e Santos Dumont ou Galeão, no
Rio, para ficar apenas com suas outras rotas nacionais e
internacionais. Não é isso que vai acontecer. A Varig
está apenas quebrando um contrato com a Vasp e a
Transbrasil pelo qual as três empresas se comprometiam a
praticar os mesmos preços e a oferecer o mesmo serviço
aos passageiros. Com a mudança, a Varig continua fazendo
o trecho Rio--São Paulo, mas fica livre para estabelecer
o preço que quiser, oferecer outras vantagens aos
passageiros e até aumentar o número de vôos o que
pretende fazer em breve.
A Varig entende
que, amarrada à Vasp e à Transbrasil, não teria
agilidade suficiente para brecar o crescimento da TAM na
rota Rio--São Paulo. Em apenas um ano, o número de
passageiros transportados pela TAM nesse percurso
aumentou 50%. Além disso, recentemente a Varig passou a
contar com a possibilidade de montar um pool próprio
para explorar o trajeto. A empresa tem duas
subsidiárias, a Rio-Sul e a Nordeste, que ganharam do
Departamento de Aviação Civil, DAC, autorização para
aumentar o número de vôos entre as duas maiores
capitais brasileiras. Isso significa que, a partir de
agora, a família Varig tem capacidade para oferecer até
41 vôos diários entre o Rio de Janeiro e São Paulo,
onze a mais do que a atual ponte aérea incluindo a
própria Varig. No início de sua operação-solo, a
empresa vai oferecer 25 vôos por dia. A operação
começa em junho, depois da reabertura do Aeroporto
Santos Dumont, destruído por um incêndio, três meses
atrás. Espera-se que a atitude da Varig provoque
reação entre as outras companhias. A TAM já anunciou
que vai aumentar a oferta de vôos diários de onze para
quinze a partir desta semana, e para 23 assim que o
Santos Dumont for reaberto. Vasp e Transbrasil ainda não
explicaram se pretendem dar alguma vantagem a seus
passageiros.
A queda no preço
das tarifas aéreas é resultado da desregulamentação
do setor feita pelo governo e do aumento da competição
entre as companhias. Essas novidades, que só agora
estão chegando ao Brasil, são ótimas para os
passageiros, mas perigosas para as empresas de aviação
que não tiverem organização e eficiência para
sobreviver ao desafio. Historicamente protegidas pelo
governo, agora essas empresas terão de se virar
sozinhas. A rentabilidade de todas elas caiu. A Vasp e a
Transbrasil andaram atrasando os salários em abril. A
Transbrasil, que teve prejuízo operacional de 159
milhões de reais em 1997, emitiu comunicado aos
funcionários explicando que o atraso era conseqüência
dos descontos muito altos nas tarifas.

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