Barbárie impune

Acusadas da morte de garoto em ritual satânico
no Paraná são absolvidas por falta de provas


Foto: Jader Rocha/Ricardo Almeida
Beatriz com Celina no tribunal: nada ficou claro sobre a morte de Evandro (abaixo)

Terminou na semana passada o mais longo e um dos mais polêmicos julgamentos no país. Depois de 34 dias no tribunal, o júri absolveu Celina e Beatriz Abagge, mãe e filha apontadas como mandantes do assassinato do menino Evandro Ramos Caetano, de 6 anos, num ritual de magia negra em abril de 1992. Na época, o caso ganhou grande repercussão por sua brutalidade, além da importância das acusadas, que ficaram conhecidas como "as bruxas de Guaratuba". O corpo foi encontrado perto da serraria de Aldo Abagge, marido de Celina e, na época, prefeito de Guaratuba, no litoral do Paraná. Sem mãos, pés, vísceras nem couro cabeludo, estava irreconhecível. Por um exame de DNA, concluiu-se que a probabilidade de que o cadáver fosse do menino era de 99,997%. Celina e Beatriz confessaram sua participação no crime numa fita gravada pela polícia, rica em detalhes, como o modo pelo qual haviam segurado a criança até que fosse esganada. Segundo esse depoimento, o idealizador do ritual satânico teria sido Oswaldo Marcineiro — pai-de-santo de um terreiro que freqüentavam —, como forma de atrair "saúde e fortuna". O caso, que apontava para a culpa das acusadas, tornou-se no entanto uma grande embrulhada que resultou na absolvição das acusadas.

Para começar, no julgamento foi questionada a própria identidade do cadáver. A defesa de Celina e Beatriz pôs em dúvida a eficiência técnica do teste de DNA realizado em 1992, e a juíza Anésia Kowalski indeferiu seus pedidos de exumação para um novo exame. Meses depois de sua prisão, Celina e Beatriz passaram a alegar que teriam feito sua confissão depois de torturadas pela polícia. "Eu só ia ao terreiro para jogar búzios", disse Beatriz a VEJA. A fita em que estava gravada a confissão das acusadas desapareceu dos autos do processo. Somente um mês antes do julgamento surgiu uma fita cassete, que teria sido entregue por um anônimo a jornalistas e mais tarde repassada à equipe de sete advogados de defesa da família Abagge. Nessa nova gravação, onde existem cortes perceptíveis, Celina e Beatriz parecem induzidas a repetir as palavras dos policiais. "Essa fita pode ter sido produzida", diz o promotor Celso Ribas. Dois meses depois de sua prisão, Beatriz denunciou que teria sido violentada pelos policiais que a interrogaram. Os peritos do Instituto Médico Legal detectaram em Celina sinais de escoriações, mas não viram evidência de tortura. Um deles, Raul Rezende, não chegou a depor: apareceu morto com um revólver na mão sobre o túmulo de seu pai num cemitério de Curitiba, em março passado, deixando mais um episódio sinistro no caso.

Com a sentença, Celina e Beatriz puderam respirar novamente a liberdade. "Houve ressentimento social em relação a elas, como se todo rico fosse culpado", diz um de seus advogados, Antônio Figueiredo Basto. "Se fossem ricas e influentes como dizem, elas não teriam sido presas." O caso, contudo, não está resolvido. A promotoria entrou com recurso para anulação da sentença, e falta o julgamento de outras cinco pessoas: Oswaldo Marcineiro, seus dois auxiliares e dois funcionários da prefeitura de Guaratuba acusados de cumplicidade. O pai-de-santo, que já acusou Celina e Beatriz como mandantes do crime, agora diz que também fez sua confissão sob tortura. Há novos inquéritos em andamento. Um apura o possível falso testemunho do carpinteiro Edésio da Silva, que afirma ter visto Evandro no carro de Celina e Beatriz no dia de seu desaparecimento mas caiu em várias contradições no tribunal. Outro investiga a identidade do cadáver encontrado em Guaratuba, inicialmente apontado como sendo o do menino Evandro.

Raul Juste Lores




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