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Foi
tudo muito rápido, repentino e assustador. Primeiro
foram as dores nas costas e nas pernas. Depois a febre de
39,5 graus, os calafrios e as náuseas. "Meu corpo
está querendo pegar uma gripe", apostava o lavrador
Luiz Moreira Correia, de 28 anos. Ele foi medicado com
antitérmicos, comeu mingau de aveia e tomou canja. Em
vão. A dor tornou-se insuportável. Luiz não conseguia
mais ficar de pé. A temperatura não baixava. O suor
encharcava os lençóis. O lavrador chegou inconsciente
à Santa Casa de Tupi Paulista, no interior de São
Paulo. Sua pressão estava muito baixa: 8 por 2. Os
médicos pensaram em transferi-lo para um hospital maior.
Não houve tempo. Por dentro, o corpo sangrava. Eram
10h30 da manhã do último dia 20. Menos de 72 horas
depois dos primeiros sintomas, Luiz estava morto. Pereceu
vomitando sangue, de insuficiência renal e
respiratória. Até a semana passada, a causa do óbito
do lavrador era uma incógnita. Chegou-se a pensar em
dengue, leptospirose e até leucemia. Os pesquisadores do
Instituto Adolfo Lutz colocaram fim à dúvida. Luiz foi
vítima do hantavírus, um germe pouco conhecido dos
homens, cuja letalidade chega a ultrapassar 50% dos
casos. Com o lavrador, sobe para dois o número de
óbitos pelo microrganismo registrados no Brasil em 1998
ambos na mesma região.
O hantavírus faz
parte de uma nova leva de micróbios letais que vem
atacando a humanidade. Entre eles, o HIV, causador da
Aids, e o Ebola, capaz de, em poucas horas, transformar
as entranhas de um ser humano numa pasta sanguinolenta.
"Por enquanto, não há evidências de que o
hantavírus seja transmitido de pessoa para pessoa",
diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor da
Unicamp e coordenador dos institutos de pesquisa da
Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Dois dias
antes dos primeiros sinais da doença, o lavrador Luiz
trabalhara por quase uma semana na limpeza de um sítio
recém-comprado pelo tio, na pequena Nova Guataporanga,
cidade a 10 quilômetros de Tupi Paulista. O lugar estava
abandonado, cheio de entulho, cercado por mato alto e
repleto de ratinhos do campo eram eles o perigo.
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Ratos
que ameaçam:
temor de que o vírus
infecte roedores urbanos |
| Foto:
Claudio Rossi |
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Adversários
invisíveis -- É um alento que o hantavírus
não seja transmitido entre seres humanos, como o HIV e o
Ebola. Mesmo assim, os métodos usados pelo hantavírus
para fazer suas vítimas são assustadores. "Minha
mulher tinha uma saúde de ferro", conta Norival
Molina Cáceres, marido da professora aposentada Neusa
Maria Passoni, 51 anos, a primeira vítima fatal do
hantavírus. "E morreu de uma hora para outra."
Quase todos os dias, Neusa visitava a vizinha Daltina
Maria de Jesus, de 62 anos. Lá, rezava a novena e, por
vezes, ainda ajudava a amiga diabética na limpeza da
casa. A professora impressionava-se com o amontoado de
televisões velhas no terreno da vizinha um verdadeiro
criadouro de ratos, comentava. Quando as primeiras dores
no corpo apareceram, Neusa pensou em dengue. Não era.
Quatro dias depois, com falta de ar, a professora foi
internada na Santa Casa de Tupi Paulista. Foram tiradas
três radiografias dos pulmões, em intervalos inferiores
a um minuto. O resultado foi aterrorizante. A primeira
chapa estampava uma pequena mancha de sangue. A segunda
revelava avanços no comprometimento do tecido pulmonar.
E a terceira, uma nódoa de tamanho ainda maior. Num
ritmo espantoso, a professora perdia as funções
respiratórias. O caso era sério. Levada às pressas
para um hospital mais bem equipado, ela não resistiu.
Morreu no meio do caminho, em 13 de março.
"Os micróbios
são os únicos competidores reais dos homens pelo
domínio do planeta", já afirmou Joshua Lederberg,
prêmio Nobel de Medicina em 1958 e um dos pais da
engenharia genética. Adversários invisíveis, no
quesito adaptabilidade eles dão de dez na espécie
humana. Expelido na urina, fezes e saliva dos ratos, aos
quais não faz mal, o hantavírus tem o poder de
sobreviver fora do hospedeiro natural por até um ano.
Como no caso da professora, basta passar uma vassoura num
terreno infectado e respirar a poeira levantada para que
se corra o risco de inspirar o vírus ao mesmo tempo.
"O longo ciclo de vida do vírus faz dele uma
ameaça constante", afirma a infectologista Sylvia
Hinrichsen, professora da Universidade Federal de
Pernambuco e uma das maiores estudiosas do microrganismo
no país. Os surtos são imprevisíveis. Associam-se,
geralmente, a alterações ambientais que colocam em
contato duas espécies que até então viviam isoladas
uma da outra. Os primeiros casos fatais provocados por
hantavírus no Brasil, registrados em 1993, são
exemplares. Na zona rural de Juquitiba, no interior
paulista, três irmãos foram viver no meio da mata. Na
"invasão", todos foram contaminados. Apenas um
resistiu à doença. No mesmo ano, nos Estados Unidos,
doze índios navajos sucumbiram ao ataque do hantavírus.
Por causa de fortes chuvas na região, aumentou a oferta
de comida aos roedores. Com a fartura, os ratos se
reproduziram num ritmo além do normal e o alimento
escasseou. Famintos, os animais invadiram a aldeia
indígena em busca de comida. A morte chegou em seguida.
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O lavrador Luiz e a
professora Neusa: febre,
dores no corpo, hemorragias e falência
dos rins e dos pulmões |
Caçada
A pior história ainda pode estar por vir. Enquanto o
germe continuar hospedado em ratos do mato, seu raio de
ação se circunscreve a áreas rurais, com baixa
densidade demográfica. Mas, se o hantavírus conseguir
adaptar-se plenamente ao organismo do Rattus
norvegicus, a nojenta ratazana dos esgotos urbanos,
então em vez de contar vítimas de leptospirose (doença
também transmitida por ratos), o noticiário dos jornais
talvez comece a registrar casos de mortes provocadas pelo
novo vírus. Não é uma especulação gratuita. Em Seul,
capital da Coréia do Sul, já se registraram casos de
contaminação por ratos urbanos.
Os pesquisadores do
Instituto Adolfo Lutz pretendem nesta semana ir à
região de Tupi Paulista, onde tentarão identificar os
ratos transmissores do vírus. Descoberta a espécie do
animal, a prevenção torna-se mais certeira. Há
dezesseis tipos diferentes de hantavírus e uma dezena de
ratos transmissores da doença. Para caçar os animais,
os biólogos utilizarão centenas de armadilhas e iscas
à base de uma mistura de mandioca crua com pasta doce de
amendoim ou sardinha com aveia. Capturados, os bichos
serão anestesiados e começará o sacrifício. Sangue,
vísceras e pele serão transportados em cápsulas de
nitrogênio líquido, a 70 graus Celsius negativos, até
o instituto. O hantavírus foi isolado pela primeira vez
em 1976. Não há perspectiva de uma droga eficiente
contra ele, mas o trabalho desta semana pode torná-la
mais próxima.

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