Sangue e horror

Novo vírus mata no Brasil e reforça receios sobre
epidemias emergentes, como a Aids e o Ebola

Eduardo Junqueira e Karina Pastore

 

 

Foi tudo muito rápido, repentino e assustador. Primeiro foram as dores nas costas e nas pernas. Depois a febre de 39,5 graus, os calafrios e as náuseas. "Meu corpo está querendo pegar uma gripe", apostava o lavrador Luiz Moreira Correia, de 28 anos. Ele foi medicado com antitérmicos, comeu mingau de aveia e tomou canja. Em vão. A dor tornou-se insuportável. Luiz não conseguia mais ficar de pé. A temperatura não baixava. O suor encharcava os lençóis. O lavrador chegou inconsciente à Santa Casa de Tupi Paulista, no interior de São Paulo. Sua pressão estava muito baixa: 8 por 2. Os médicos pensaram em transferi-lo para um hospital maior. Não houve tempo. Por dentro, o corpo sangrava. Eram 10h30 da manhã do último dia 20. Menos de 72 horas depois dos primeiros sintomas, Luiz estava morto. Pereceu vomitando sangue, de insuficiência renal e respiratória. Até a semana passada, a causa do óbito do lavrador era uma incógnita. Chegou-se a pensar em dengue, leptospirose e até leucemia. Os pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz colocaram fim à dúvida. Luiz foi vítima do hantavírus, um germe pouco conhecido dos homens, cuja letalidade chega a ultrapassar 50% dos casos. Com o lavrador, sobe para dois o número de óbitos pelo microrganismo registrados no Brasil em 1998 — ambos na mesma região.

O hantavírus faz parte de uma nova leva de micróbios letais que vem atacando a humanidade. Entre eles, o HIV, causador da Aids, e o Ebola, capaz de, em poucas horas, transformar as entranhas de um ser humano numa pasta sanguinolenta. "Por enquanto, não há evidências de que o hantavírus seja transmitido de pessoa para pessoa", diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor da Unicamp e coordenador dos institutos de pesquisa da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Dois dias antes dos primeiros sinais da doença, o lavrador Luiz trabalhara por quase uma semana na limpeza de um sítio recém-comprado pelo tio, na pequena Nova Guataporanga, cidade a 10 quilômetros de Tupi Paulista. O lugar estava abandonado, cheio de entulho, cercado por mato alto e repleto de ratinhos do campo — eram eles o perigo.

Ratos que ameaçam:
temor de que o vírus
infecte roedores urbanos
Foto: Claudio Rossi  

Adversários invisíveis -- É um alento que o hantavírus não seja transmitido entre seres humanos, como o HIV e o Ebola. Mesmo assim, os métodos usados pelo hantavírus para fazer suas vítimas são assustadores. "Minha mulher tinha uma saúde de ferro", conta Norival Molina Cáceres, marido da professora aposentada Neusa Maria Passoni, 51 anos, a primeira vítima fatal do hantavírus. "E morreu de uma hora para outra." Quase todos os dias, Neusa visitava a vizinha Daltina Maria de Jesus, de 62 anos. Lá, rezava a novena e, por vezes, ainda ajudava a amiga diabética na limpeza da casa. A professora impressionava-se com o amontoado de televisões velhas no terreno da vizinha — um verdadeiro criadouro de ratos, comentava. Quando as primeiras dores no corpo apareceram, Neusa pensou em dengue. Não era. Quatro dias depois, com falta de ar, a professora foi internada na Santa Casa de Tupi Paulista. Foram tiradas três radiografias dos pulmões, em intervalos inferiores a um minuto. O resultado foi aterrorizante. A primeira chapa estampava uma pequena mancha de sangue. A segunda revelava avanços no comprometimento do tecido pulmonar. E a terceira, uma nódoa de tamanho ainda maior. Num ritmo espantoso, a professora perdia as funções respiratórias. O caso era sério. Levada às pressas para um hospital mais bem equipado, ela não resistiu. Morreu no meio do caminho, em 13 de março.

"Os micróbios são os únicos competidores reais dos homens pelo domínio do planeta", já afirmou Joshua Lederberg, prêmio Nobel de Medicina em 1958 e um dos pais da engenharia genética. Adversários invisíveis, no quesito adaptabilidade eles dão de dez na espécie humana. Expelido na urina, fezes e saliva dos ratos, aos quais não faz mal, o hantavírus tem o poder de sobreviver fora do hospedeiro natural por até um ano. Como no caso da professora, basta passar uma vassoura num terreno infectado e respirar a poeira levantada para que se corra o risco de inspirar o vírus ao mesmo tempo. "O longo ciclo de vida do vírus faz dele uma ameaça constante", afirma a infectologista Sylvia Hinrichsen, professora da Universidade Federal de Pernambuco e uma das maiores estudiosas do microrganismo no país. Os surtos são imprevisíveis. Associam-se, geralmente, a alterações ambientais que colocam em contato duas espécies que até então viviam isoladas uma da outra. Os primeiros casos fatais provocados por hantavírus no Brasil, registrados em 1993, são exemplares. Na zona rural de Juquitiba, no interior paulista, três irmãos foram viver no meio da mata. Na "invasão", todos foram contaminados. Apenas um resistiu à doença. No mesmo ano, nos Estados Unidos, doze índios navajos sucumbiram ao ataque do hantavírus. Por causa de fortes chuvas na região, aumentou a oferta de comida aos roedores. Com a fartura, os ratos se reproduziram num ritmo além do normal — e o alimento escasseou. Famintos, os animais invadiram a aldeia indígena em busca de comida. A morte chegou em seguida.

O lavrador Luiz e a professora Neusa: febre,
dores no corpo, hemorragias e falência
dos rins e dos pulmões

Caçada — A pior história ainda pode estar por vir. Enquanto o germe continuar hospedado em ratos do mato, seu raio de ação se circunscreve a áreas rurais, com baixa densidade demográfica. Mas, se o hantavírus conseguir adaptar-se plenamente ao organismo do Rattus norvegicus, a nojenta ratazana dos esgotos urbanos, então em vez de contar vítimas de leptospirose (doença também transmitida por ratos), o noticiário dos jornais talvez comece a registrar casos de mortes provocadas pelo novo vírus. Não é uma especulação gratuita. Em Seul, capital da Coréia do Sul, já se registraram casos de contaminação por ratos urbanos.

Os pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz pretendem nesta semana ir à região de Tupi Paulista, onde tentarão identificar os ratos transmissores do vírus. Descoberta a espécie do animal, a prevenção torna-se mais certeira. Há dezesseis tipos diferentes de hantavírus e uma dezena de ratos transmissores da doença. Para caçar os animais, os biólogos utilizarão centenas de armadilhas e iscas à base de uma mistura de mandioca crua com pasta doce de amendoim ou sardinha com aveia. Capturados, os bichos serão anestesiados e começará o sacrifício. Sangue, vísceras e pele serão transportados em cápsulas de nitrogênio líquido, a 70 graus Celsius negativos, até o instituto. O hantavírus foi isolado pela primeira vez em 1976. Não há perspectiva de uma droga eficiente contra ele, mas o trabalho desta semana pode torná-la mais próxima.




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