1968

Com conquistas no terreno dos costumes,
a rebeldia de trinta anos atrás cristalizou-se
num belo álbum de retratos em preto-e-branco

Laura Capriglione

Foto: Keystone/Sygma
A juventude afronta seus pais, hierarcas de todos
os tipos e os cânones morais: os universitários
querem que garotas tenham acesso irrestrito aos
seus dormitórios, e vice-versa. Numa época pré-Aids,
os corpos são liberados para a diversão pelos
anticoncepcionais. O sexo nunca mais foi o mesmo

Dias, meses e anos têm o hábito de fluir ao sabor das circunvoluções do planeta no espaço. Umas poucas folhas do calendário se insurgem contra esse ditame natural e se prolongam na memória individual. Raríssimas são as que se tornam fixas na história da humanidade. O ano de 1968 está no primeiro caso. Pode passar ao segundo. Como resultado de uma química que obviamente vinha de mais tempo mas que produziu sua maior reação ali nos anos 60, mudou-se para sempre a relação dos pais e dos filhos, do homem e da mulher, do jovem e da autoridade. O negro furou o bloqueio racista na sociedade americana nos anos 60. A mulher começou a invadir fábricas e escritórios nos anos 60, até mesmo num país da periferia como o Brasil. Nos países mais desenvolvidos do mundo, nunca a opinião pública saíra às ruas para contestar políticas governamentais com tanta virulência quanto nos anos 60. Faz precisamente trinta anos, maio de 1968, que os estudantes saíram às ruas em Paris e sacudiram o governo do general Charles De Gaulle com sua plataforma inesperada de exigências. "É proibido proibir", "A imaginação no poder", ou aquela melhor ainda, tomada emprestada do surrealista e militante trotskista francês André Breton: "Sejamos realistas. Exijamos o impossível". Do outro lado do Atlântico, entre os americanos, estudantes, hippies, negros dos guetos, homens e mulheres lotavam os comícios pela paz ou pelos direitos civis. Por que tanta coisa se reuniu num período com duração tão curta? O que acontecia nos subterrâneos daquelas sociedades e de muitas outras que se inspiraram em suas manifestações de inconformismo?

Até hoje as lembranças estão vivas no ar. Até cantando. Quer um exemplo? Há três semanas, Robert Allen Zimmerman, um americano de 56 anos, já um tanto obeso, enfiado num terno negro, a camisa branca, e inacreditável fita de caubói amarrada ao pescoço, juntou-se a outros senhores enrugados como passa de uva, os ingleses Michael Phillip e Keith, e o mundo caiu. Cantavam Like a Rolling Stone, um dia na Praça da Apoteose, do Rio de Janeiro, num outro, em São Paulo, no Ibirapuera. A voz anasalada de Bob Dylan, o cheinho, continua a mesma. Os trejeitos de Michael, o Mick Jagger, com os portentosos lábios, e o ar de fim dos tempos de Keith Richards também não mudaram. E foi só. Mas bastou isso para que executivos circunspectos, fantasiados por um instante de roqueiros, se lembrassem de que houve um período, há trinta anos, em que pareceu que o mundo estava prestes a viver uma "primavera dos povos", uma virada espetacular, capaz de redimir e apagar os fantasmas das gerações anteriores.

Não há excesso no uso da escala planetária para medir 68. "Um espectro ronda a América", assustava-se o professor John Seeley, do Centro para o Estudo das Instituições Democráticas da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, parafraseando o Marx do Manifesto Comunista. "E é tanto mais temível quanto, ao contrário daquele que assomava sobre a Europa, não tem nome, nem forma, nem unidade visível", completava. Afinal, como identificar a natureza de erupções como a que, trinta anos atrás, sacudiu a Universidade Colúmbia, em Nova York, quando os estudantes entraram em choque físico com a polícia, em protesto pelo envolvimento da hierarquia universitária no esforço militar no Sudeste Asiático? Foi no mesmo período que caravanas de pobres, a maioria negros, começaram a chegar a Washington (data: 11 de maio), onde montaram uma favelona junto ao Capitólio, parecida demais com os atuais acampamentos de sem-terra em Brasília, para exigir do Congresso uma política de combate à pobreza. Lixeiros, bombeiros e professores faziam greves selvagens nos Estados Unidos. A cidade de Nova York chegou a ser declarada em estado de calamidade sanitária por causa de nove dias seguidos em que os lixeiros não deram o ar de sua graça. Pequenas comunidades hippies, liberadas para o sexo e as drogas, instalavam-se por todo o país. Intelectuais apareciam nas marchas dos mais novos ou serviam-lhes de estrela guia. Susan Sontag, crítica e ensaísta, o jornalista Norman Mailer, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1968, o escritor e ativista dos direitos civis James Baldwin, além de 500 outros intelectuais americanos, aderiram à desobediência civil, recusando-se a fazer o papel de contribuintes de um Estado cujos fundamentos deploravam. "Por que pagar impostos?", perguntavam-se eles. "Para financiar a guerra contra o Vietcongue?" Coisas de 1968.

As coisas de 1968 incluíam audácia criadora e, às vezes, a escolha que destrói. A cantora americana Janis Joplin, que explodiu nesse ano, foi um símbolo da rebeldia, do hippismo e da adesão às drogas, morrendo de overdose tempos depois, da mesma forma que outro ícone da música entre os jovens naquela época, o guitarrista Jimi Hendrix. Grandes talentos desperdiçados em mortes estúpidas no melhor momento da vida. Esse era um padrão assustadoramente repetido naqueles tempos. Num ato de hostilidade muito menos danoso e mais ingênuo, jovens italianos jogaram ovos nas cantoras de ópera do Teatro Alla Scala de Milão, enquanto o psiquiatra Franco Basaglia liderava um movimento pela supressão dos manicômios e pela reintegração dos "loucos" à sociedade. Muitos loucos foram soltos depois que os muros de um asilo caíram sob o ataque simbólico de um trator. Com o tempo, voltaram. Coisas do pós-68.

Os jovens eram, como em todas as guerras, a infantaria desse exército de revolucionários. A diferença, a enorme diferença que faria de 1968 uma época peculiar, é que esses jovens não aceitavam os velhos comandantes. Não queriam mais seguir tolamente a liderança daquela gente com mais de 30 anos que já tinha arrastado a Europa aos martírios de duas grandes guerras e ao desespero da Grande Depressão, o terremoto econômico que nos anos 30 afundou a economia, com reflexos no mundo inteiro. Quem tivesse nascido em 1945, último ano da II Grande Guerra, estava com 23 anos em 1968. Nas palavras do principal dirigente das barricadas parisienses, Daniel Cohn-Bendit, que tinha 23 anos em 1968 e hoje está com 53, "nós queríamos uma democracia direta, melhor do que a real, queríamos mudar a linguagem e o estilo de vida, queríamos uma liberação dos costumes, o entusiasmo da solidariedade, a alegria de superar o egoísmo". Sem outras referências que trabalhassem sua imaginação, os jovens de 68 eram nostálgicos tanto dos mitos revolucionários da Comuna de Paris de 1871 quanto dos brancaleônicos brigadistas internacionais da Guerra Civil Espanhola de 1936, e fascinados pelos mitos de então — a China, com sua Revolução Cultural, o Vietnã e Cuba, particularmente o herói morto um ano antes na selva boliviana, Ernesto Che Guevara. É um paradoxo. Os meninos libertários de 68 exaltavam violentas ditaduras totalitárias, mas ninguém parecia importar-se muito com isso.

Foto: P. Jones Griffiths/Magnum
O ano começou com a ofensiva do Tet, quando
os vietcongues destroçaram os muros da
embaixada americana e tornaram evidente:
a Indochina não se renderia com facilidade.
A retaliação dos Estados Unidos e das tropas
sul-vietnamitas
, deflagrada logo

Não é rebelde quem quer. É quem pode. A Europa deitava-se em berço esplêndido, com as mais baixas taxas de desemprego de toda a história do trabalho assalariado, 2,8% da população economicamente ativa, contra os 12% atuais. Isso era em parte reflexo do esforço de reconstruir uma Europa destroçada pelas duas guerras com ajuda de uma inundação de dólares americanos. Nesse ambiente favorável, os países do Velho Continente erigiram seus estados de bem-estar social. Nos EUA, durante os cinco anos da administração Lyndon Johnson, a que estava na Casa Branca em 1968, os gastos com educação elevaram-se de 2,3 bilhões de dólares ao ano para 10,8 bilhões, um incremento de 370%. Na saúde, o aumento foi de 4,1 bilhões para 13,9 bilhões, mais de 200%. Graças a Johnson, em 1971, pela primeira vez, os gastos federais com o bem-estar da população foram maiores do que com a Defesa — e isso em plena Guerra do Vietnã. Entre os beneficiários estava a maior população de gente solteira jamais registrada na Europa ou nos Estados Unidos. Essa geração carregava, pela própria natureza de sua situação, um fardo muito mais leve do que o de seus antecessores, com menos responsabilidades e mais disposição para se envolver em causas generosas. Era gente demais superlotando as salas de conferências, laboratórios e bibliotecas, já que na França e na Itália, por exemplo, todos os aprovados nos exames finais das escolas secundárias têm direito a ingressar na universidade. Os horizontes se alargavam como nunca.

É curioso verificar que o discurso no qual os jovens se embalavam reunia elementos de contestação muito evidentes. Mesmo num país como o Brasil, que vivia sob ditadura militar, na lista dos dez livros mais vendidos de VEJA figuravam, em outubro de 1968, nada menos que três livros do teórico marxista e freudiano Herbert Marcuse: Eros e Civilização, Ideologia da Sociedade Industrial e Materialismo Histórico e Existência. Especialmente nos países mais ricos, os jovens que consumiam esses livros tinham sido educados com o manual dos manuais da puericultura do pós-guerra, o livro Meu Filho, Meu Tesouro, do doutor Benjamin Spock, uma apologia da educação gentil que destronava a disciplina severa do altar pedagógico, colocando em seu lugar o amor dos pais pelo filho. Meu Filho... vendeu 50 milhões de exemplares, desde sua publicação, em 1946, e tornou-se a obra de não-ficção mais lida no mundo depois da Bíblia. Moldou uma geração. As mulheres aprofundaram as reivindicações feministas com algumas ajudas extras. O fato de que os homens tinham ido para o combate na II Grande Guerra as incorporou quase que à força ao mercado de trabalho e, agora, a reconstrução não podia nem queria prescindir delas. Além disso, desde o início da década de 60, as meninas dispunham de um meio seguro para controlar a própria atividade reprodutiva, por intermédio da pílula anticoncepcional. Não precisavam mais encher-se de filhos se quisessem divertir-se.

Essa festa de sentidos, dinheiro e possibilidades abertas que 68 concentrou foi a culminância dos Trinta Gloriosos — trinta anos ininterruptos de expansão econômica, baixa inflação e desemprego insignificante, depois da II Guerra Mundial. A festa só viria a acabar anos depois, com os dois choques do petróleo, de 1973 e 1979. Os Estados Unidos sofreram seguidas derrotas na Guerra do Vietnã; Martin Luther King, herói das lutas pelos direitos civis dos negros americanos, foi assassinado; os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia e esmagaram a Primavera de Praga. Irrompeu o terrorismo anti-sistema que resultaria nas Brigadas Vermelhas italianas e no Baader-Meinhof, alemão. No próprio ano de 68, na ressaca das mobilizações gigantescas, o general De Gaulle conseguiu a mais espetacular vitória da direita na França, e os Estados Unidos de tantas maluquices anti-hierarquia sagraram vencedor nas urnas, depois do assassinato do democrata Robert Kennedy, o mortício ultraconservador Richard Nixon. Há aí o encerramento de um ciclo. Se 1968 se tornou um simples álbum de retratos de uma rebelião ingênua, é porque havia ainda muita gente que acreditava nos velhos sonhos. Não porque fossem estúpidos. É que, com a abundância, era mais fácil e mais adequado sonhar. E não precisava ser um sonho impossível, sobre um lugar inexistente e feliz. Para a maioria, a utopia dos rebeldes estava aqui e agora, ao alcance da mão.




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