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| Foto: Keystone/Sygma |
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juventude afronta seus pais, hierarcas de todos os tipos e os cânones morais: os universitários querem que garotas tenham acesso irrestrito aos seus dormitórios, e vice-versa. Numa época pré-Aids, os corpos são liberados para a diversão pelos anticoncepcionais. O sexo nunca mais foi o mesmo |
Dias, meses e anos têm o hábito de fluir ao sabor das circunvoluções do planeta no espaço. Umas poucas folhas do calendário se insurgem contra esse ditame natural e se prolongam na memória individual. Raríssimas são as que se tornam fixas na história da humanidade. O ano de 1968 está no primeiro caso. Pode passar ao segundo. Como resultado de uma química que obviamente vinha de mais tempo mas que produziu sua maior reação ali nos anos 60, mudou-se para sempre a relação dos pais e dos filhos, do homem e da mulher, do jovem e da autoridade. O negro furou o bloqueio racista na sociedade americana nos anos 60. A mulher começou a invadir fábricas e escritórios nos anos 60, até mesmo num país da periferia como o Brasil. Nos países mais desenvolvidos do mundo, nunca a opinião pública saíra às ruas para contestar políticas governamentais com tanta virulência quanto nos anos 60. Faz precisamente trinta anos, maio de 1968, que os estudantes saíram às ruas em Paris e sacudiram o governo do general Charles De Gaulle com sua plataforma inesperada de exigências. "É proibido proibir", "A imaginação no poder", ou aquela melhor ainda, tomada emprestada do surrealista e militante trotskista francês André Breton: "Sejamos realistas. Exijamos o impossível". Do outro lado do Atlântico, entre os americanos, estudantes, hippies, negros dos guetos, homens e mulheres lotavam os comícios pela paz ou pelos direitos civis. Por que tanta coisa se reuniu num período com duração tão curta? O que acontecia nos subterrâneos daquelas sociedades e de muitas outras que se inspiraram em suas manifestações de inconformismo?
Até hoje as lembranças estão vivas no ar. Até cantando. Quer um exemplo? Há três semanas, Robert Allen Zimmerman, um americano de 56 anos, já um tanto obeso, enfiado num terno negro, a camisa branca, e inacreditável fita de caubói amarrada ao pescoço, juntou-se a outros senhores enrugados como passa de uva, os ingleses Michael Phillip e Keith, e o mundo caiu. Cantavam Like a Rolling Stone, um dia na Praça da Apoteose, do Rio de Janeiro, num outro, em São Paulo, no Ibirapuera. A voz anasalada de Bob Dylan, o cheinho, continua a mesma. Os trejeitos de Michael, o Mick Jagger, com os portentosos lábios, e o ar de fim dos tempos de Keith Richards também não mudaram. E foi só. Mas bastou isso para que executivos circunspectos, fantasiados por um instante de roqueiros, se lembrassem de que houve um período, há trinta anos, em que pareceu que o mundo estava prestes a viver uma "primavera dos povos", uma virada espetacular, capaz de redimir e apagar os fantasmas das gerações anteriores.
Não há excesso no uso da escala
planetária para medir 68. "Um espectro ronda a
América", assustava-se o professor John Seeley, do
Centro para o Estudo das Instituições Democráticas da
Universidade da Califórnia em Santa Barbara,
parafraseando o Marx do Manifesto Comunista.
"E é tanto mais temível quanto, ao contrário
daquele que assomava sobre a Europa, não tem nome, nem
forma, nem unidade visível", completava. Afinal,
como identificar a natureza de erupções como a que,
trinta anos atrás, sacudiu a Universidade Colúmbia, em
Nova York, quando os estudantes entraram em choque
físico com a polícia, em protesto pelo envolvimento da
hierarquia universitária no esforço militar no Sudeste
Asiático? Foi no mesmo período que caravanas de pobres,
a maioria negros, começaram a chegar a Washington (data:
11 de maio), onde montaram uma favelona junto ao
Capitólio, parecida demais com os atuais acampamentos de
sem-terra em Brasília, para exigir do Congresso uma
política de combate à pobreza. Lixeiros, bombeiros e
professores faziam greves selvagens nos Estados Unidos. A
cidade de Nova York chegou a ser declarada em estado de
calamidade sanitária por causa de nove dias seguidos em
que os lixeiros não deram o ar de sua graça. Pequenas
comunidades hippies, liberadas para o sexo e as drogas,
instalavam-se por todo o país. Intelectuais apareciam
nas marchas dos mais novos ou serviam-lhes de estrela
guia. Susan Sontag, crítica e ensaísta, o jornalista
Norman Mailer, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1968, o
escritor e ativista dos direitos civis James Baldwin,
além de 500 outros intelectuais americanos, aderiram à
desobediência civil, recusando-se a fazer o papel de
contribuintes de um Estado cujos fundamentos deploravam.
"Por que pagar impostos?", perguntavam-se eles.
"Para financiar a guerra contra o Vietcongue?"
Coisas de 1968.
As coisas de 1968 incluíam audácia
criadora e, às vezes, a escolha que destrói. A cantora
americana Janis Joplin, que explodiu nesse ano, foi um
símbolo da rebeldia, do hippismo e da adesão às
drogas, morrendo de overdose tempos depois, da mesma
forma que outro ícone da música entre os jovens naquela
época, o guitarrista Jimi Hendrix. Grandes talentos
desperdiçados em mortes estúpidas no melhor momento da
vida. Esse era um padrão assustadoramente repetido
naqueles tempos. Num ato de hostilidade muito menos
danoso e mais ingênuo, jovens italianos jogaram ovos nas
cantoras de ópera do Teatro Alla Scala de Milão,
enquanto o psiquiatra Franco Basaglia liderava um
movimento pela supressão dos manicômios e pela
reintegração dos "loucos" à sociedade.
Muitos loucos foram soltos depois que os muros de um
asilo caíram sob o ataque simbólico de um trator. Com o
tempo, voltaram. Coisas do pós-68.
Os jovens eram, como em todas as guerras, a infantaria desse exército de revolucionários. A diferença, a enorme diferença que faria de 1968 uma época peculiar, é que esses jovens não aceitavam os velhos comandantes. Não queriam mais seguir tolamente a liderança daquela gente com mais de 30 anos que já tinha arrastado a Europa aos martírios de duas grandes guerras e ao desespero da Grande Depressão, o terremoto econômico que nos anos 30 afundou a economia, com reflexos no mundo inteiro. Quem tivesse nascido em 1945, último ano da II Grande Guerra, estava com 23 anos em 1968. Nas palavras do principal dirigente das barricadas parisienses, Daniel Cohn-Bendit, que tinha 23 anos em 1968 e hoje está com 53, "nós queríamos uma democracia direta, melhor do que a real, queríamos mudar a linguagem e o estilo de vida, queríamos uma liberação dos costumes, o entusiasmo da solidariedade, a alegria de superar o egoísmo". Sem outras referências que trabalhassem sua imaginação, os jovens de 68 eram nostálgicos tanto dos mitos revolucionários da Comuna de Paris de 1871 quanto dos brancaleônicos brigadistas internacionais da Guerra Civil Espanhola de 1936, e fascinados pelos mitos de então a China, com sua Revolução Cultural, o Vietnã e Cuba, particularmente o herói morto um ano antes na selva boliviana, Ernesto Che Guevara. É um paradoxo. Os meninos libertários de 68 exaltavam violentas ditaduras totalitárias, mas ninguém parecia importar-se muito com isso.
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| Foto: P. Jones Griffiths/Magnum |
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ano começou com a ofensiva do Tet, quando os vietcongues destroçaram os muros da embaixada americana e tornaram evidente: a Indochina não se renderia com facilidade. A retaliação dos Estados Unidos e das tropas sul-vietnamitas, deflagrada logo |
Não é rebelde quem quer. É quem pode.
A Europa deitava-se em berço esplêndido, com as mais
baixas taxas de desemprego de toda a história do
trabalho assalariado, 2,8% da população economicamente
ativa, contra os 12% atuais. Isso era em parte reflexo do
esforço de reconstruir uma Europa destroçada pelas duas
guerras com ajuda de uma inundação de dólares
americanos. Nesse ambiente favorável, os países do
Velho Continente erigiram seus estados de bem-estar
social. Nos EUA, durante os cinco anos da administração
Lyndon Johnson, a que estava na Casa Branca em 1968, os
gastos com educação elevaram-se de 2,3 bilhões de
dólares ao ano para 10,8 bilhões, um incremento de
370%. Na saúde, o aumento foi de 4,1 bilhões para 13,9
bilhões, mais de 200%. Graças a Johnson, em 1971, pela
primeira vez, os gastos federais com o bem-estar da
população foram maiores do que com a Defesa e isso
em plena Guerra do Vietnã. Entre os beneficiários
estava a maior população de gente solteira jamais
registrada na Europa ou nos Estados Unidos. Essa
geração carregava, pela própria natureza de sua
situação, um fardo muito mais leve do que o de seus
antecessores, com menos responsabilidades e mais
disposição para se envolver em causas generosas. Era
gente demais superlotando as salas de conferências,
laboratórios e bibliotecas, já que na França e na
Itália, por exemplo, todos os aprovados nos exames
finais das escolas secundárias têm direito a ingressar
na universidade. Os horizontes se alargavam como nunca.
É curioso verificar que o discurso no
qual os jovens se embalavam reunia elementos de
contestação muito evidentes. Mesmo num país como o
Brasil, que vivia sob ditadura militar, na lista dos dez
livros mais vendidos de VEJA figuravam, em outubro de
1968, nada menos que três livros do teórico marxista e
freudiano Herbert Marcuse: Eros e Civilização,
Ideologia da Sociedade Industrial e Materialismo
Histórico e Existência. Especialmente nos países
mais ricos, os jovens que consumiam esses livros tinham
sido educados com o manual dos manuais da puericultura do
pós-guerra, o livro Meu Filho, Meu Tesouro, do
doutor Benjamin Spock, uma
apologia da educação gentil que destronava a disciplina
severa do altar pedagógico, colocando em seu lugar o
amor dos pais pelo filho. Meu Filho... vendeu 50
milhões de exemplares, desde sua
publicação, em 1946, e tornou-se a obra de
não-ficção mais lida no mundo depois da Bíblia.
Moldou uma geração. As mulheres aprofundaram as
reivindicações feministas com algumas ajudas extras. O
fato de que os homens tinham ido para o combate na II
Grande Guerra as incorporou quase que à força ao
mercado de trabalho e, agora, a reconstrução não podia
nem queria prescindir delas. Além disso, desde o início
da década de 60, as meninas dispunham de um meio seguro
para controlar a própria atividade reprodutiva, por
intermédio da pílula anticoncepcional. Não precisavam
mais encher-se de filhos se quisessem divertir-se.
Essa festa de sentidos, dinheiro e possibilidades abertas que 68 concentrou foi a culminância dos Trinta Gloriosos trinta anos ininterruptos de expansão econômica, baixa inflação e desemprego insignificante, depois da II Guerra Mundial. A festa só viria a acabar anos depois, com os dois choques do petróleo, de 1973 e 1979. Os Estados Unidos sofreram seguidas derrotas na Guerra do Vietnã; Martin Luther King, herói das lutas pelos direitos civis dos negros americanos, foi assassinado; os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia e esmagaram a Primavera de Praga. Irrompeu o terrorismo anti-sistema que resultaria nas Brigadas Vermelhas italianas e no Baader-Meinhof, alemão. No próprio ano de 68, na ressaca das mobilizações gigantescas, o general De Gaulle conseguiu a mais espetacular vitória da direita na França, e os Estados Unidos de tantas maluquices anti-hierarquia sagraram vencedor nas urnas, depois do assassinato do democrata Robert Kennedy, o mortício ultraconservador Richard Nixon. Há aí o encerramento de um ciclo. Se 1968 se tornou um simples álbum de retratos de uma rebelião ingênua, é porque havia ainda muita gente que acreditava nos velhos sonhos. Não porque fossem estúpidos. É que, com a abundância, era mais fácil e mais adequado sonhar. E não precisava ser um sonho impossível, sobre um lugar inexistente e feliz. Para a maioria, a utopia dos rebeldes estava aqui e agora, ao alcance da mão.
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