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| Foto: Frederic Jean |
| As amigas Fernanda
(à esq.) e Vera: parceiro "digno de admiração" |
Nas estatísticas, elas dão traço praticamente não existem. Mulher, na faixa dos 40 anos, separada, com filhos, que encontra parceiro de idade e condição social parecidas é artigo tão raro que chama a atenção. Namoro, caso, rolo, nada disso, felizmente, é impossível. Em especial naquele grupo de pós-balzaquianas que se cuidam e se produzem, dispostas a enterrar de vez a imagem veneranda historicamente associada às mulheres dessa idade. Mas casamento mesmo, de papel passado ou projeto de vida em comum, é exceção tão grande que a apresentadora de TV carioca Márcia Peltier provavelmente se tornou uma versão contemporânea e feminina de Santo Antônio das quarentonas apenas cinco meses depois da separação, a bela Márcia conheceu novo parceiro, recasou e mudou.
Márcia não é a típica noiva quarentona, até porque tem 39 anos e até porque essa figura provavelmente não existe. Ela conta que não estava procurando parceiro. "Depois de um casamento de 21 anos, achava que ia ser difícil me apaixonar. Estava numa fase muito recolhida e muito defendida", diz a apresentadora, que também temia a reação das duas filhas adolescentes. Não contava com a determinação do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Aos 56 anos, viúvo há sete meses, cinco filhos, ele pediu a uma amiga comum que providenciasse um almoço para aproximá-los. "Não queria uma menina de 20 anos, e sim alguém que conhecesse as vantagens e desvantagens de um relacionamento sério", diz Nuzman. Os dois já trocaram alianças numa festa badalada e pretendem casar-se no civil assim que sair o divórcio de Márcia que continuará usando no nome artístico o Peltier do ex-marido. Francisco Peltier, 47 anos, também traz um sopro de alento para as maduras casadouras: de uma carona inesperada, pulou para um namoro com a socialite Regina Marcondes Ferraz, 41 anos, separada e sozinha havia cinco anos.
São histórias incomuns. Muito mais corriqueira é a situação da decoradora Yeda Rosa, 54 anos, separada há doze, que já teve vários namorados e continua sozinha. "Saio muito, mas nunca achei o homem certo", diz. "Os mais velhos só querem saber de sexo, e os mais jovens não têm vida resolvida, esquematizada, como a minha." É o tipo da queixa recorrente. "Sou profissionalmente realizada, auto-suficiente, moro bem, tenho dois filhos", descreve-se a relações-públicas Fernanda Fairbanks, 42 anos, há nove separada. "Quero um companheiro, mas ele tem de ser digno de admiração." Não vai ser fácil, até pela realidade demográfica. Há um excedente de 2.184.491 mulheres na população, segundo a contagem de 1996 do IBGE. Além disso, existem três mulheres que permanecem separadas, desquitadas, divorciadas e viúvas para cada homem do mesmo estado civil principalmente porque a maioria deles (cerca de 80% em 1994) escolhe solteiras mais jovens na hora de casar de novo.
"Preconceituosos"
Não se trata de um problema brasileiro. Nos Estados
Unidos, as pesquisas indicam que, dos 20 aos 24 anos, a
proporção é de 105 homens para cada 100 mulheres. Dos
40 aos 44 anos, a vantagem se inverte: 98 homens para
cada 100 mulheres. Considere-se que as mulheres sempre
procuram homens mais velhos, e os homens, mulheres mais
jovens, e está pintado o retrato solitário da mulher
madura desacompanhada. "É a chamada pirâmide da
solidão", diz a demógrafa Maria Coleta de
Oliveira, do Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp.
"A mulher olha para cima e não vê parceiro
disponível." Que o diga a pedagoga Vera Lúcia
Gonçalves, 46 anos, que desde a separação, há onze
longos anos, sai bastante, mas só teve dois
relacionamentos mais estáveis e nenhum casamento.
"Um empecilho extra é que, na minha faixa, o homem
também já sofreu, tem feridas e está com o coração
fechado", avalia Vera. Otimista, ela cita algumas
vantagens compulsórias da solidão: "A gente
aprende a matar barata sozinha, levar o carro ao
mecânico, fazer imposto de renda". Filhos também
são problema na hora de achar parceiro novo. "Para
a mulher, que quase sempre fica com as crianças, os
rearranjos afetivos e familiares são mais
complicados", constata a socióloga Lilibeth Roballo
Ferreira, do IBGE. Resultado: entre as mulheres sozinhas
na faixa dos 40 aos 44 anos, só 1,5% se casa; entre 45 e
49 anos, o número de noivas baixa para menos de 1%. Não
chega a ser a situação mencionada por uma notória (e
desmentida) pesquisa americana, que dizia ser mais fácil
uma mulher morrer em atentado terrorista do que encontrar
marido depois dos 40 anos, mas passa perto.
Além da idade e dos filhos, as mulheres apontam a independência, fato consumado para boa parte dessa geração feminina, como elemento negativo adicional. "Diante de uma parceira com quem devem falar de igual para igual, eles se sentem inseguros", afirma a empresária paulista Rosangela Klein, 44 anos, separada há três. "Do jeito que a coisa está, mulher vai acabar ficando só com mulher", brinca a pecuarista mineira Geralda Magela Mourão, 50 anos, viúva há oito. Geralda, que foi casada por 26 anos, define-se como "uma pequena criadora que ganha o suficiente para comprar suas coisinhas e não depender de ninguém". E é aí, diz, que mora o problema: "Os homens da minha geração não acompanharam a evolução das mulheres". Ela tem há cinco anos um namorado da mesma idade, mas não está satisfeita. "A cabeça dele está muito aquém da minha", explica. É uma queixa constante. "Os homens ainda são muito preconceituosos", reclama Mércia Dantes, 39 anos, dona de uma empresa de marketing direto em Belo Horizonte. Mesmo orgulhosa de sua independência financeira, ela acha que sai prejudicada em possíveis relacionamentos.
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Márcia
Peltier e Carlos Nuzman: almoço que deu certo |
| Foto: Paulo Jares |
Geralda e Mércia confirmam a tendência de que, na sua idade, casar é difícil; namorar, nem tanto. E onde, afinal, estão os príncipes encantados das senhoras casadouras? Um estudo do psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor da instigante disciplina de relacionamento amoroso, na Universidade de São Paulo, indica o caminho das pedras: a grande maioria das uniões começa a partir de um conhecimento anterior que a certa altura vira romance ou com a apresentação promovida por um amigo comum (veja quadro abaixo). Foi assim com a ex-ministra Dorothéa Werneck, 49 anos, que desde 1995 ampliou seu eterno sorriso ao lado do colega economista Jaime Mezzera, um uruguaio de 55 anos que havia conhecido, num congresso, uma década antes. Já sob as asas dos oportuníssimos amigos comuns encaixam-se, por exemplo, a apresentadora de TV Silvia Poppovic e a atriz americana Sharon Stone. Silvia, 43 anos, namora há três o endocrinologista Marcelo Bronstein, 52. Sharon, 40 anos, casou-se em fevereiro com um jornalista de 47, Phil Bronstein ao que se saiba, sem nenhum parentesco com Marcelo. Bem, se até a loira de Instinto Selvagem levou um tempão para encontrar marido (e ainda por cima se contentou com um jornalista), então ainda há esperança.

Com reportagem de Manuel Martínez e Virginie Leite
Copyright © 1998, Abril
S.A. |