A sina das águas

Aumento das marés ameaça cada
vez mais a soberba Veneza

Veneza está se afogando. Não com a rapidez de um Titanic, mas com aquela persistência dos fenômenos da natureza capazes de derrubar todos os esforços humanos para salvar a soberba cidade plantada sobre uma laguna. A elevação do nível do mar, causada pelo aquecimento do clima, aliada à falta de esgoto e à poluição da laguna, tem feito com que a famosa "água alta" — a maré cheia que avança sobre a Praça de São Marcos, ponto mais baixo e famoso da cidade — tome proporções desmedidas. Na década de 80, a praça, que abriga a Catedral de São Marcos, costumava ser inundada três vezes ao mês. Hoje, tem água pelas canelas uma vez por semana. As previsões são de que em cinqüenta anos ficará alagada diariamente. Em dois séculos, a continuar nesse ritmo, a maior parte da cidade, com seus magníficos palácios, estará permanentemente debaixo d'água.

A cidade dos canais sempre se alagou. Os venezianos escolheram construir a cidade num canto estratégico da laguna — do ponto de vista do século VI, quando o fator determinante era a proteção aos ataques inimigos, quanto mais água melhor. Desde então, a água é a sina de Veneza. Depois da tragédia de 1966, quando uma maré de 2 metros de altura devastou a cidade, o Parlamento italiano aprovou às pressas a construção de diques móveis nas três ligações entre a laguna e o Mar Adriático. Nunca foram construídos. Uma verba de 1 bilhão de dólares para obras de saneamento e restauração de Veneza foi igualmente por água abaixo, sem que a cidade ficasse mais seca e segura.

Os venezianos têm planos mais modestos, como subir as calçadas e instalar portas estanques na entrada dos prédios mais vulneráveis — mas não é com esses métodos paulistanos que se vai preservar um dos mais espetaculares patrimônios da humanidade. Há duas semanas, o Fundo Veneza em Perigo, organização dedicada a preservar a cidade, propôs um plano estratégico em várias frentes, que inclui obras e investimentos pelos próximos cinqüenta anos. Uma primeira providência reduziria a poluição de Veneza por meio de tratamento do esgoto (a cidade não tem rede coletora e os dejetos são simplesmente lançados nos canais). Seria preciso também reverter a erosão na laguna e impedir os estragos causados pelos grandes navios no vizinho Porto de Marghera, o quinto maior da Itália.

"Só então seria possível começar a isolar progressivamente a laguna do mar, o objetivo maior", diz Edmund Penning-Rowsell, professor da Universidade de Middlesex, na Inglaterra, e autor de uma proposta apresentada na semana passada. Ele sugere trabalhos de escoramento costeiro aliados ao incentivo do renascimento da vegetação de mangue, que no passado afunilava as entradas dos canais e evitava marés tão avassaladoras. É um projeto para gerações.

Aqui não tem negócio

O economista Giacomo Vaciago, presidente de uma comissão que cuida de arrecadar mais impostos na Itália, saiu-se com esta: privatizar a Galeria degli Uffizi, o Fórum Romano e até o Coliseu — jóias mais fulgurantes do patrimônio histórico e artístico do país. Os romanos reagiram como se fosse piada de mau gosto. O ministro dos Bens Culturais Walter Veltroni rejeitou a idéia de botar a mão invisível nesse campo. "É o mesmo que vender as pirâmides do Egito a uma companhia petrolífera", comparou.




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