Guatemala

Cabeça cortada

Responsável pelo Nunca Mais é assassinado

O crime foi cometido com violência brutal: espancado com um bloco de concreto, o bispo Juan José Gerardi, 75 anos, ficou tão desfigurado que a identificação inicial só foi feita pelo anel episcopal. O assassino atacou o bispo na garagem da casa episcopal na Cidade da Guatemala, na noite de domingo 27. Dois dias antes, numa cerimônia na catedral, Gerardi tinha divulgado o dossiê (Guatemala Nunca Mais) preparado pela Igreja Católica sobre as violações dos direitos humanos durante a guerra civil. Num país como a Guatemala, dilacerado por três décadas de um conflito típico dos tempos da Guerra Fria, ninguém põe em dúvida a conexão entre o dossiê e o assassinato.

Sem nenhuma surpresa, mas com contundência, o documento atribui ao Exército e aos grupos paramilitares de direita cerca de 80% das 150.000 mortes e dos 50.000 desaparecidos na guerra civil, que atingiu particularmente os camponeses indígenas e só terminou em dezembro de 1996 com um acordo de paz mediado pela Igreja. "Ele foi morto pelos esquadrões da morte que pretendem desestabilizar o país e impedir a redução das Forças Armadas", disse a VEJA a líder indígena Rigoberta Menchu, prêmio Nobel da Paz e amiga de Gerardi. Como diretor da Pastoral dos Direitos Humanos, Gerardi supervisionou o projeto, similar ao que documentou a repressão política no Brasil duas décadas atrás. Durante três anos, ele coletou o depoimento de 6.000 testemunhas e pôde relatar em minúcias 424 massacres. Nos anos 80, bispo numa área conflagrada onde vários padres foram assassinados, Gerardi sobreviveu a um atentado e precisou deixar o país temporariamente para escapar às ameaças de morte. Era mesmo um homem marcado.




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