EURO

Ao aderir à moeda única, onze países
dão a largada para a grande aventura
da unificação da Europa

Eliana Simonetti

 




 

A União Européia tomou, na última quinta-feira, uma decisão histórica. Definiu os onze países que, a partir de 1º de janeiro do próximo ano, abrirão mão de suas moedas nacionais para aderir a uma moeda única, o euro. Os europeus já têm passaporte único. Também demoliram as barreiras alfandegárias, para facilitar o comércio entre os países. Agora estão derrubando mais do que o simples padrão monetário nacional. Estão abrindo mão de um quesito que até então era considerado fundamental na soberania de uma nação. O franco francês, o marco alemão e a lira italiana são, como o idioma e a cultura, parte da personalidade e da História de seus povos. O que está acontecendo na Europa, portanto, ultrapassa a esfera da economia. É a semente de uma mudança que transforma a sociedade européia e pode impor alterações profundas no mundo inteiro. É a primeira vez na História da humanidade que países soberanos estão abrindo mão, pacificamente, do poder de emitir e controlar sua própria moeda em favor de uma idéia: resolver seus problemas numa comunidade de nações com línguas, histórias e costumes diferentes.

Com o euro começa a nascer uma Europa pacificada e moderna. Uma potência com 371 milhões de habitantes, uma produção de riqueza que só perde para os americanos e com empresas fortíssimas. Espera-se que aconteça uma onda de fusões entre as companhias européias, graças às facilidades de operação produzidas pela nova moeda. É previsível, também, um aumento substancial de investimentos na região. Os estudiosos do mercado financeiro estimam que 1 trilhão de dólares em investimentos internacionais deverá ser convertido do dólar para o euro. Pelo tamanho e a força da economia americana, o dólar continuará sendo a principal moeda internacional por muito tempo. Mas ninguém duvida que está nascendo uma nova potência financeira, política, industrial e comercial no mundo.

Barril de pólvora -- Durante mais de 500 anos a Europa esteve metida em guerras por disputas territoriais e econômicas — e várias vezes envolveu outros continentes em suas querelas. As brigas tiveram variadas razões, quase sempre de natureza econômica e comercial. Inglaterra e França engalfinharam-se numa guerra de 100 anos porque, entre outros motivos, os ingleses queriam ter mais facilidade de comércio na região de Flandres, (hoje parte da Bélgica, Holanda e França). França e Prússia lutaram pelas minas de ferro e carvão das regiões de Alsácia e Lorena e deram origem, com isso, à I Guerra Mundial. Quando a II Guerra terminou, em 1945, começou-se a pensar em fórmulas para esfriar o barril de pólvora europeu. A primeira medida tomada foi uma condição imposta pelos americanos para a liberação dos recursos destinados à reconstrução da Europa. Os países europeus tiveram de firmar um acordo pelo qual carvão e aço deveriam ser negociados livremente no continente. Foi daí que nasceu o Mercado Comum Europeu.

A união econômica, que agora dá seu passo decisivo, demorou quase cinqüenta anos para se concretizar. O que se viu foi que, no processo de reconstrução do pós-guerra, o nacionalismo se acentuou. A França continuou a brigar com a Inglaterra, desenvolveu um projeto nuclear independente e travava a porta de entrada dos ingleses no mercado comum. A Alemanha tornou-se uma potência que fazia sombra aos vizinhos. Desde 1990, as pressões da economia internacional estão provocando uma virada nesse processo. A Europa cresceu muito lentamente nos anos 90, e o desemprego transformou-se num problema sério. Hoje há 18 milhões de trabalhadores europeus parados. Os produtos fabricados no continente são muito caros e não conseguem competir com vantagem no mercado internacional. Fábricas alemãs, francesas e italianas estão se mudando para países onde o custo de produção é mais baixo. A Europa tinha de mudar, sob o risco de não sobreviver.

Perplexidade -- Houve uma época em que viajar pelo continente europeu era um castigo. Os comerciantes tinham de carregar centenas de moedas para fazer negócio no câmbio de cada burgo ou de cada feudo. O surgimento dos Estados nacionais foi um processo longo e doloroso, feito pela força das baionetas. Hoje, alemães, franceses, italianos e espanhóis estão aderindo à idéia de uma Europa unida sem que uma bala tenha sido disparada. Apesar disso estão meio perplexos. As pesquisas indicam que quase metade das pessoas não consegue sequer acreditar no que está acontecendo. Apenas 12% das pequenas empresas européias começaram a pensar sobre o euro e nem as multinacionais estão preparadas para o ritual de passagem. O processo está planejado da seguinte forma. Desde já, os preços, nos países europeus, passam a ser anunciados em duas versões: na moeda local e em euros. A nova moeda começará a circular no início do ano que vem. Tem de um lado um mesmo desenho para todos os países e de outro os símbolos nacionais que cada membro da comunidade escolher para a moeda que for cunhada em seu território. As atuais moedas nacionais continuam a circular só até 2002. A partir daí, desaparecerão. Os 13 bilhões de notas e os 76 bilhões de moedas que hoje circulam na Europa serão substituídos por euros. É uma operação monumental para um povo que viveu todo tipo de guerra e revolução — mas sempre manteve sua moeda intata.

Entre 1871 e 1945, a Alemanha perdeu duas guerras mundiais, enfrentou a hiperinflação e passou por diferentes sistemas de governo (império, república democrática e ditadura nazista). Durante todo esse tempo, o nome do país permaneceu o mesmo: Deutsches Reich, Império Alemão. Sua moeda, o marco, também teve sempre presente o símbolo do Estado, uma águia. O franco francês tem quase 200 anos. A lira italiana tem pouco mais de um século. E a libra esterlina já completou 900 anos. A mudança do ano que vem será uma verdadeira revolução. Apenas na França os bancos terão de converter 24.000 caixas automáticos para expelir novas notas sem deixar de aceitar o franco, até que as moedas nacionais saiam de circulação. Empresas terão de alterar sistemas de pagamento e contabilidade, reformar caixas registradoras, terminais de cartões de crédito e outras máquinas que lidam com dinheiro. A IBM da Europa, que tem um diretor encarregado da união econômica e monetária dos países europeus, estima que o custo global dessa reforma será de 150 bilhões de dólares.

Modelo americano -- Os idealizadores do euro e da União Européia se espelharam nos americanos para transformar o continente europeu. Os Estados Unidos são um país enorme, composto de Estados com certa autonomia e uma só moeda. Têm ótimos resultados com essa fórmula. Seu índice de desemprego, de 4,5%, está entre os menores do mundo, a inflação é praticamente inexistente e a economia, cada vez mais eficiente e competitiva, vem crescendo 3% ao ano. A diferença é que a economia americana é aberta, com liberdade para que produtos, serviços e empresas circulem livremente e possam competir entre si. O Orçamento do governo federal é flexível, de modo que possa tomar recursos de áreas desenvolvidas e repassá-los para Estados mais deprimidos. A situação da Europa é bastante diversa. Seus Estados intervêm exageradamente na economia, há subsídios em excesso, muitos regulamentos e benefícios sociais generosos demais. Outra diferença em relação aos Estados americanos é que a mobilidade dos trabalhadores entre os países europeus é restrita por fortes laços de cultura e idioma e a legislação trabalhista ainda é muito rígida.

Muitas dessas barreiras começaram a ser demolidas há dois anos quando se definiram as exigências mínimas, em matéria de saúde econômica, para que os países pudessem aderir ao euro. Os resultados foram surpreendentemente positivos. Houve cortes em orçamentos, reformas no sistema previdenciário, eliminação de subsídios. Entre os onze países que adotarão o euro na primeira hora, a taxa média de inflação está em 1,6% ao ano, a taxa de juro anual é de 6,1% e o déficit público não passa de 2,4% do PIB. O desemprego está em queda. Até a desacreditada Itália está fazendo o dever de casa e, pela primeira vez, sendo apontada como aluna exemplar no grupo.

Existem, é claro, muitos críticos do que está acontecendo. Em seu livro Europe Adrift (Europa Desgovernada), o economista inglês John Newhouse compara a situação atual da Europa à que vigorava antes da I Guerra Mundial. "Temos uma Rússia instável e caótica, uma Alemanha com poder crescente, instabilidade nos Bálcãs e duas potências, França e Inglaterra, incapazes de agir juntas para resolver os problemas", afirma. "Poderíamos dizer, como se disse no passado a respeito dos Bourbons, que não aprenderam nada e não esqueceram nada." A União Européia pode reverter essa situação. A Inglaterra, que relutou até a semana passada à idéia de aderir ao euro, já prometeu que fará parte do clube a partir do início do ano 2000. A França, que tentou dar um golpe na direção da União Européia impondo um francês mais conservador para a presidência do novo banco central europeu, foi neutralizada.

Blocos econômicos como o Nafta, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, e o Mercosul, que facilita o comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, compõem uma estratégia econômica que se está tornando mais ou menos comum nesses tempos de economia globalizada, fluxo internacional de capitais e acelerada inovação tecnológica. Ainda assim, são estruturas primitivas perto do que se está desenhando na Europa. Os países europeus, berço da civilização ocidental, conhecidos como o Velho Mundo, estão ousando ir além da economia e transformar a globalização em algo mais profundo. É claro que há o risco de a aventura não dar certo. Se tudo correr bem, como se espera, a União Européia será um farol apontando novos caminhos para o futuro da História humana.




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