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"Eu
queria vê-lo em Roraima quando houve a queimada e agora no Nordeste visitando famílias atingidas pela seca" |
| Foto: Edison Vara |
Quem ouve o governador gaúcho Antonio Britto falando do governo tende até a duvidar de que ele pertença à ala do PMDB que apóia o presidente Fernando Henrique Cardoso. Britto critica a reforma ministerial e acha que o presidente deveria sair um pouco mais do gabinete em Brasília e percorrer o país para conhecer sua gente e seus problemas. Britto também faz críticas aos partidos, inclusive ao seu próprio. Elogia o PFL. "Poderíamos terceirizar as gestões do PMDB, do PT e dos outros partidos entregando-as ao PFL", diz, sorrindo. "Eles são profissionais." Aos 45 anos, ex-jornalista, ex-porta-voz de Tancredo Neves, ex-deputado federal e ex-ministro da Previdência, Britto não quer ser ex-governador tão cedo e é candidato à reeleição. Está em primeiro lugar nas pesquisas, mas tem pela frente uma parada dura, o ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra, do PT. Para garantir uma boa margem, Britto tem viajado pelo interior. Na quarta-feira, quando recebeu VEJA, havia passado o dia a bordo de um helicóptero visitando sete municípios do interior, onde inaugurou obras e lançou programas sociais. A entrevista:
Veja A atual crise no Partido dos Trabalhadores reacendeu os boatos de que Lula pode renunciar à candidatura presidencial. O senhor não teme que a falta de um candidato de esquerda possa empobrecer o debate eleitoral?
Britto -- Na hipótese de o Lula não concorrer, sim. Isso poderia empobrecer o debate em torno de diferentes idéias para fazer o país crescer. O Lula é o personagem político de carreira mais fascinante dos últimos trinta anos. Se não for candidato, ele estará negando a principal alternativa de combate ao presidente Fernando Henrique. Para o Planalto, não poderia haver coisa melhor. Mas eu não acredito que isso vá acontecer. Acho difícil que o Lula desista da campanha. Não sei como o PT faria para arranjar outro candidato. A melhor coisa para o Brasil seria que o PT se afirmasse no rumo que o Lula gostaria, mas isso parece estar cada vez mais distante. Lula e uma boa parte do partido acham que é preciso fazer alianças. Já um setor importante do PT acha que o partido poderá ser viável eleitoralmente sem as alianças. Mantendo-se assim, o PT começa a ser a reencarnação do ideal olímpico em que o importante é competir e não vencer. É preciso juntar forças para vencer.
Veja Por que isso é tão claro para pessoas como o senhor e o Lula, mas não convence boa parte do PT?
Britto -- Parte do PT obriga o partido a ficar negando a realidade. China e Cuba estão fazendo a reforma do Estado, mas o PT ainda não se deu conta de que a globalização é um fenômeno tecnológico, não político. Eles precisam aprender que a Internet e o fax não são de direita.
Veja Qual é o impacto real da morte de Sergio Motta e de Luís Eduardo Magalhães para o governo e para o país?
Britto -- Há um impacto afetivo brutal. Todos nós continuamos desnorteados com a perda de duas pessoas que eram muito presentes. Não apenas no metabolismo político, mas no metabolismo emocional do grupo que hoje administra o país. Evidentemente, o presidente perdeu dois operadores fantásticos. No curto prazo, a comoção, a mobilização e o espírito de mutirão poderão apresentar alguns resultados. Mas esses resultados não serão definitivos na medida em que passem a comoção e o clima de "vamos homenageá-los". Como está chegando a eleição, o mais prudente é o que o presidente está fazendo. Ele decidiu montar uma substituição temporária com pessoas que naturalmente podem estar nos lugares aos quais foram indicadas. Depois da eleição, em cima da realidade política, ele vai ter de montar um time novo.
Veja Por quê?
Britto -- Passada a eleição, PFL e PSDB podem decidir adotar caminhos distintos. É muito mais fácil articular os partidos em torno de uma proposta quando há a iminência da reeleição. No dia 5 de outubro, começa o ano de 2002 no Brasil. Aí a ausência do Sergio Motta e do Luís Eduardo, que garantiam uma conversa produtiva entre os partidos, vai ser mais visível.
Veja Que avaliação o senhor faz do governo de FHC?
Britto -- O governo é bom, mas eu queria ver o presidente passar uma semana sem aquelas fotografias com lideranças partidárias em seu gabinete. Eu queria vê-lo fotografado em Roraima, quando houve a queimada, no Rio de Janeiro combatendo a dengue, no sertão nordestino visitando famílias atingidas pela seca e conhecendo experiências interessantes de geração de empregos. A agenda presidencial está muito partidária, política e eleitoral. E pouco social. As reformas constitucionais têm feito com que o presidente se dedique pessoalmente à tarefa de articulação política, o que provoca um desgaste de imagem muito grande. O presidente precisa largar essa história de condução política.
Veja E quem vai cuidar disso para ele?
Britto -- O presidente adora fazer a coordenação política. Esse é o primeiro obstáculo para que haja dentro do palácio um coordenador político. O Sergio Motta e o Luís Eduardo eram operadores políticos. A coordenação nunca deixou de ser do presidente. O coordenador político foi empossado em 1995 e não mudou até agora. Chama-se FHC. Isso faz com que ele fique mais presente nas negociações da sub-ala de um partido do que nas queimadas em Roraima. A agenda do presidente tem de ser a agenda do país. E não a agenda dos partidos. Isso acontece, em parte, porque Fernando Henrique diz o seguinte: "Bem, se eu não me envolver, quem vai?" Não pode ser assim.
Veja O senhor fala das reformas constitucionais num tom que faz com que pareçam um tanto desnecessárias. É isso mesmo?
Britto -- O problema não são as reformas. Sem elas, é sabido, o governo e o país não avançam. O que me incomoda profundamente é o processo de aprovação dos textos. As reformas não vão avançar se não se obtiver a aprovação de três quintos dos votos disponíveis no Congresso. Como não existe fidelidade partidária no Brasil nem partidos, diga-se, cada negociação é feita com 300, 400, 500 parlamentares. Esse processo desorganizado não existe em nenhum lugar do mundo. Na Europa, os partidos são tão fortes que os jornalistas cobrem as reuniões que eles fazem, não o Congresso. O partido se reúne, discute e fica definido, por exemplo, que aqueles votos são favoráveis à privatização. No Brasil, temos ao mesmo tempo um sistema que leva ao fortalecimento da barganha individual e ao enfraquecimento coletivo, porque os partidos não se definem. Essa realidade dá ao presidente duas opções, uma pior do que a outra. Ou desiste das reformas e o país pára, ou ele vira refém da barganha, do conchavo. Acho que foi um pouco disso que aconteceu na reforma ministerial.
Veja Por que o senhor usa a palavra barganha para definir a reforma ministerial?
Britto -- Nenhum de nós é criança. A política não se faz apenas com princípios. Basta ver o Lula procurando o Orestes Quércia para conversar. Esse encontro seria impensável até alguns anos atrás. Mas, por mais que os interesses existam em política, essas coisas precisam ter um limite. O presidente prometia encaminhar uma pequena reforma ministerial altamente sensata, com técnicos. Só que ele mudou a estratégia no meio do caminho e decidiu instalar políticos nos cargos. Como a maioria dos políticos se candidatou a algum cargo eletivo, a reforma não pôde contar com os melhores políticos. Todos os que estão na disputa eleitoral não puderam ser cogitados. O problema foi ter feito uma reforma política sem poder contar com os melhores políticos.
Veja É ruim o novo ministério?
Britto -- Não estou dizendo que sejam ruins os que foram convidados, mas é óbvio que, quando só se pode contar com um milésimo de um universo político, se tem um milésimo de chance de buscar os melhores nomes. O ministério foi montado a partir de um critério errado que pode produzir confusão no futuro. Não conheço precedente de políticos que deixam sua carreira para ficar no governo. Eu, por exemplo, vibrei com a permanência do Eliseu Padilha no Ministério dos Transportes, gaúcho como eu. Mas ele é um caso desses. Gustavo Krause é outro.
Veja Essa avaliação crítica inclui o novo ministro da Saúde, José Serra?
Britto -- Acho que Serra vai ser um grande ministro. Mas sua indicação tirou a reforma do eixo original. Foi a partir daí que o eixo técnico ganhou cor política. Além disso, houve um grande equívoco de comportamento do governo em relação ao ministro anterior, Carlos Albuquerque, que fazia um bom trabalho na pasta e foi tratado de maneira indigna, como se fosse incompetente.
Veja Depois da vitória do governo na convenção do PMDB, ocorrida em março, o senhor acha que o partido ainda vai insistir no lançamento de uma candidatura própria ou a tendência é apoiar a reeleição de FHC?
Britto -- Do ponto de vista legal, o partido ainda pode lançar seu próprio candidato, pois a convenção que vale é a de junho, mas isso não faz o menor sentido. O PMDB está repetindo o que já fez muitas vezes nos últimos anos. Está se firmando como uma confederação e não como um partido. Uma confederação que tem muitas forças regionais com uma enorme dificuldade de se tornar uma força nacional. No passado, o PMDB se unia em torno da causa da redemocratização. O partido tinha um discurso contra a censura, contra a falta de eleições. Quando essa causa foi vitoriosa, ele se uniu por ter duas figuras que estavam absolutamente acima de todos, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Hoje não temos nem a causa nem a figura, e isso faz com que o PMDB tenha dificuldades. Nós somos vítimas do sucesso, é um caso engraçadíssimo. Deu tão certo que passamos a ter problemas.
Veja Com tantos defeitos, o que mantém o PMDB vivo?
Britto -- Todos os partidos estão numa situação mais ou menos parecida. É possível imaginar o PT cinco minutos sem o Lula? Ou o PDT sem o doutor Leonel Brizola? A verdade é que o PMDB talvez seja a face mais saliente de uma crise que não é dele. Esse sistema partidário acabou. Ele não permite que os partidos funcionem e começa a não permitir que o Congresso e a Presidência da República funcionem. Acho que a crise do PMDB mostra que os partidos menos antigos do que o nosso estão com as mesmas dificuldades. Cito o exemplo do PT e do PDT, mas poderia citar todos os outros partidos. Talvez o único partido que esteja mais tranqüilo seja o PFL.
Veja Qual é a diferença essencial entre o PFL e os demais partidos?
Britto -- Eu digo brincando que uma coisa boa que poderíamos fazer seria terceirizar as gestões do PMDB, do PT e dos outros partidos entregando-as ao PFL. Eles, sim, são profissionais. Outra idéia é contratar a cozinheira do Jorge Bornhausen, presidente do partido. Toda quarta-feira sai matéria nos jornais dizendo o seguinte: "O PFL almoçou ontem na casa de Jorge Bornhausen e acertou tal coisa". Aí saem 100 sujeitos do PFL na mesma direção. Se essa cozinheira fosse contratada pelo PMDB ou pelo PT, a República estaria salva. Eles sabem que se derem prioridade à briga interna do partido acabam perdendo espaço fora. Isso é competência política. Se há briga entre eles, ninguém fica sabendo. Enquanto nós estamos brigando, eles estão de prontidão. Eu morro de inveja. Eles têm lideranças fortes e habilidosas, como o senador Antonio Carlos Magalhães, o vice-presidente Marco Maciel e o Bornhausen, que dão nó em pingo d'água e ainda passam recibo. Isso estabeleceu uma condição diferenciada. A qualidade das lideranças é muito grande. Há, também, um sentimento das bases do partido de que o coletivo consegue o que quer por ser coletivo, enquanto em todos os outros partidos as pessoas não acreditam que pelo coletivo vão conquistar alguma coisa. Sai cada um para um lado e aí não conquistam nada.
Veja Depois da derrota da tese da candidatura própria do PMDB, o que vai acontecer com Itamar Franco?
Britto -- O ex-presidente Itamar está vivendo uma fase compreensível, de muita mágoa pessoal. Mas ele supera. O ex-presidente Itamar é um homem profundamente emotivo. É uma das coisas mais bonitas da sua personalidade. Mas eu compreendo a situação dele. Ele pensava que iria sair da convenção candidato à Presidência da República. Tendo perdido, é natural que fique chateado. Mas eu não vou prejudicar um respeito de vinte anos por uma mágoa de vinte dias do presidente. De mais a mais, quem me ensinou a gostar e apoiar FHC foi ele.
Veja Como candidato à reeleição, no que o eleitor deve prestar atenção na hora de escolher entre o seu nome e o de seus oponentes?
Britto -- Ainda não chegou a hora de anunciar a minha candidatura. Quando não havia a possibilidade da reeleição, a disputa eleitoral era o campeonato da esperança. Agora, pelo menos um dos candidatos, o governador, não vai poder explicar ou defender seus sonhos, mas dizer por que não os realizou. E eu tenho o que contar. Trouxemos 59 grandes empresas e geramos quase 100000 empregos nesses três anos. No ano 2000, quando todas as empresas recém-chegadas estiverem produzindo, o PIB do Estado terá crescido 15% em relação ao que era quando assumi. No ano passado, o PIB gaúcho cresceu a uma taxa duas vezes superior à brasileira. Completamos uma cadeia na área petroquímica com a ampliação do Pólo de Triunfo e montamos uma cadeia na área automobilística com a vinda de GM, Ford e Navistar. Também estamos fazendo esforços para modernizar a agricultura. O êxodo rural caiu pela metade no Rio Grande do Sul. Era de 2% ao ano entre 1990 e 1995. Caiu para 1% de 1995 para cá. O meu governo é também o que mais aplicou dinheiro nos trabalhadores rurais. Ou seja, em vez de prometer, posso mostrar o que realizei.
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