A iniqüidade tolerada

A seca no Nordeste:
saque do armazém
garante o almoço
Foto: Egberto Nogueira  

A seca no Nordeste é um problema antigo, cujos registros remontam aos tempos da colônia e do império. É um fenômeno da natureza, inevitável como os terremotos, os vendavais e as enchentes. O mesmo não se pode dizer da fome nas regiões do semi-árido brasileiro. Ao contrário da seca, a fome é um problema evitável. A solução depende apenas de medidas adequadas tomadas na hora certa. Num país que atingiu o estágio de desenvolvimento do Brasil, é inconcebível que famílias saqueiem armazéns para ter o que comer em casa — ou que comam uma quantidade de alimentos inferior a suas necessidades nutricionais. Isso está acontecendo no Nordeste.

É preciso não confundir as coisas. Não existe no Nordeste a fome africana, aquela penúria geralmente causada por guerras entre tribos durante as quais as crianças ficam com ossos do corpo à mostra, como se estivessem num campo de concentração. No Nordeste brasileiro existe o tempo todo a fome endêmica, com ingestão de calorias abaixo das necessidades básicas. De vez em quando, em municípios mais castigados pela seca, ocorrem casos de fome aguda, quando o roçado desaparece e não há dinheiro para trazer comida da cidade. As pessoas sobrevivem com uma dieta muito rala, que é garantida por doações, captura de um ou outro animal silvestre e o aproveitamento de algumas plantas mais resistentes, como o cáctus. Saques em feiras e armazéns também podem ocorrer.

Não é admissível que um país como o Brasil, com seus supermercados abarrotados no Sul, tolere tanta iniqüidade e depois fique discutindo se o saque do arroz é espontâneo ou se é manobra de grupos interessados na exploração política do problema. Contra a fome nordestina, em seus períodos mais agudos, basta comparecer com um estoque de grãos que está longe de ser gigantesco. Resolver essa situação não é uma responsabilidade apenas de Brasília. A miséria nordestina só será resolvida no dia em que ela se transformar num problema cujas soluções sejam compartilhadas por cada Estado, cada prefeitura, pela sociedade inteira.




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