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Edição 2111

6 de maio de 2009
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Cinema
ISSO QUE É GARRA

Wolverine é um filme dividido por uma rixa interna entre duas
visões diferentes do cinema de entretenimento. O que lhe
dá alguma unidade e, apesar dos trancos, o torna atraente
é Hugh Jackman, um ator que vai bem em qualquer coisa


Isabela Boscov

LETAL, PORÉM ENCANTADOR
Jackman como o mutante Wolverine: o personagem projetou a série X-Men, mas o ator continua à espera de um filme que faça jus ao seu considerável carisma


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Um entertainer nato, Hugh Jackman vai bem em qualquer coisa, até quando a coisa em si não vai tão bem assim. É atraente nas várias comédias românticas sem pulso que estrelou, como Kate & Leopold, em que galantemente fez o que pôde para ocultar da plateia a inadequação de Meg Ryan; na festa do Oscar deste ano, em que foi reduzido de apresentador a mero mestre de cerimônias por insegurança dos produtores, e ainda assim demonstrou desenvoltura impecável (além de ótima voz, no número musical de abertura); e até no torturante Austrália, como um vaqueiro apaixonado. O australiano Jackman, enfim, vive aceitando papéis que não estão à altura de seu talento (e os exemplos são bem mais numerosos do que os já citados). O único deles que escapa completamente a essa descrição é o de Wolverine na série X-Men: como o mutante com garras de metal que se projetam dos nós de seus dedos sempre que sua raiva é provocada, Jackman é uma perfeição de equilíbrio entre ferocidade e cavalheirismo, entre humor autodepreciativo e angústia, e também entre as suas qualidades opostas como intérprete – o feitio de astro e o prazer genuíno em dividir a cena com outros atores. Wolverine é o personagem de Jackman, aquele em que, à maneira de Clint Eastwood nos faroestes de sua juventude, ele molda algo conhecido em uma criatura única, inconfundível e de apelo irresistível. Wolverine despontou assim como o grande chamariz de X-Men, e não seria exagero dizer que, por ter sido essa a primeira grande adaptação de um desenho da Marvel para o cinema, abriu o caminho para outros tantos super-heróis de gibis. Nada mais lógico também que, agora que a franquia começa a se desdobrar em personagens individuais, fosse ele o primeiro a ganhar um filme só seu – X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, Estados Unidos/Austrália, 2009), desde quinta-feira em cartaz no país.

Wolverine é o que no jargão do gênero se chama de "filme de origem", aquele que explica o nascimento do herói. O qual, no caso, se dá nas Montanhas Rochosas canadenses por volta de 1840, quando o pequeno James Logan descobre que é filho de um adultério, que tem um meio-irmão, Victor (na idade adulta, Liev Schreiber), e que, como este, manifesta características animalescas, tanto físicas quanto psicológicas, quando acometido pela ira ou pelo medo. Ambos, também, têm uma capacidade de regeneração que os torna virtualmente imortais. No trecho inicial, cuja orquestração excelente tem a marca do diretor sul-africano Gavin Hood, vê-se então como os dois irmãos se escondem do mundo em plena vista, perdendo-se no caos de guerra após guerra, da Secessão americana ao Vietnã, e unindo-se cada vez mais pelo flagelo que transformaram em meio de vida. Algum dia, porém, alguém teria de notar que eles não são homens comuns.

Nesse ponto, em que Logan e Victor são recrutados por um militar (Danny Huston) que já tem sob seu comando outros mutantes, Wolverine começa a transpirar os efeitos da rixa interna que marcou sua produção. Hood, que ganhou o Oscar de produção estrangeira em 2006 com seu Infância Roubada, a certa altura foi praticamente substituído no set de filmagem pelo produtor Richard Donner, de Máquina Mortífera, sob pretexto de não ter se mostrado em suficiente controle da logística de uma superprodução. Na verdade, soa mais plausível o rumor de que o estúdio e os produtores rechaçaram a ideia do sul-africano, ex-soldado profissional, de retratar Logan como uma vítima de stress pós-traumático, por considerá-la sombria demais. No meio do caminho, o pesado como chumbo Batman – O Cavaleiro das Trevas estreou e se tornou a quarta maior bilheteria mundial da história. Tentou-se operar então uma meia-volta, mas ela não passa disso mesmo: metade de uma volta. Wolverine às vezes não é mais que um gibi filmado, outras vezes deixa entrever ambições bem maiores. No meio disso tudo, Hugh Jackman faz o que sempre fez – seduz quando a cena é sua e também quando a divide com os outros atores, em particular com Liev Schreiber, que pode estar também ele prestes a se tornar um nome da lista "A" do cinema americano. Jackman é, em suma, o elemento que dá unidade a um filme que, mais uma vez, não consegue fazer jus a ele.

 


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