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6 de maio de 2009
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Betty Milan
O desafio da liberdade

"O fato é que, sem liberdade subjetiva, a
liberdade não existe. O grande engodo da
revolução sexual dos anos 60 foi a fantasia
de que a liberação sexual era suficiente"

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de Betty Milan

Além de romancista, a francesa Françoise Sagan era filósofa. Na entrevista que ela me deu, anos atrás, perguntei o que é a liberdade. Sagan respondeu com uma frase de Jean-Paul Sartre, de quem era grande admiradora: "Ser livre é querer o que a gente pode". De imediato, não entendi.

Recentemente, na coluna semanal que mantenho em Veja.com, respondi a uma leitora cuja história ilustra a frase de Sartre. Apesar de casada, ela não resiste ao ímpeto de seduzir, empenhando-se em conquistar outros homens. Aproxima-se até conseguir. Não faz sexo, só procura despertar o sentimento amoroso. Quer o pretendente aos seus pés.

Todd Davidson/Getty Images/RF


Como o personagem Don Juan, essa leitora seduz pelo gosto de vencer a resistência e se afirmar. Como ele, não ama ninguém. Amor, só por si mesma. Serve-se dos homens para suscitar a paixão e se sentir vitoriosa. A sua referência é a guerra e o fim que justifica os meios.

Mas ela sofre com o ímpeto a que está sujeita. Sobretudo quando o seduzido se apaixona e quer uma relação que ela não pode sustentar. Conquistar é um imperativo a que obedece cegamente e que não a deixa viver como deseja. Trata-se de um imperativo que a impede de ser livre.

Nos termos de Françoise Sagan, ela não é livre porque quer o que não pode. O austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise, diria que está sujeita a uma compulsão inconsciente, e esta a faz agir como um robô, pois se entrega a uma caçada que não interessa e resulta num contínuo desassossego.

O fato é que, sem liberdade subjetiva, a liberdade não existe. O grande engodo da revolução sexual dos anos 60 foi a fantasia de que a liberação sexual era suficiente. O "não" à repressão foi um grande passo, também dado graças à descoberta da penicilina, que acabou com o medo da sífilis, e à invenção da pílula, que nos livrou do medo da gravidez indesejada. Só que, além do "não" à repressão, é preciso dizer "não" à obrigação e à compulsão. Depois da revolução sexual, para se mostrar liberada, a mulher precisava dizer "sim" a todas as propostas masculinas e o homem precisava ter uma atividade sexual intensa. O sexo tornou-se tirânico: a fim de provar que éramos livres, éramos obrigados a transar. Um segundo "não" deixou de se impor. O "não" à transa obrigatória.

O terceiro "não" que a liberdade exige de nós independe de ação política ou social. Só depende de uma ação subjetiva, que passa pela fala e pela escuta e leva ao conhecimento de si. Implica a rememoração do passado para impedir a repetição no presente, a volta no tempo para reinventar o futuro. Isso requer a escuta de um analista? Não necessariamente. Requer a escuta de uma pessoa que, além de ser sensível à palavra, o seja também à fragilidade alheia e à própria – alguém disposto a ouvir como amigo e que sabe que só ganha perdendo tempo com seu interlocutor. Noutras palavras, alguém que sabe da importância da gratuidade.


A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em Veja.com. Uma vez por mês, ela publicará em VEJA um artigo especialmente escrito para a revista impressa

Acompanhe a coluna de Betty Milan em www.veja.com.br/bettymilan



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