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Perfil O trabalho
do inglês Michael Roberts, diretor de
O que exatamente faz um diretor de estilo e moda, figura imprescindível em desfiles, revistas e campanhas? "Minha função é providenciar uma alternativa às reportagens sobre assassinatos e escroques que roubam fortunas, é criar a opção escapista, mostrar aquilo que as pessoas almejam", descreve o inglês Michael Roberts, 61 anos, justamente um dos mais requisitados diretores de moda e estilo, cargo que ocupa na revista Vanity Fair e que também desempenha em trabalhos avulsos para publicações e estilistas mundo afora. E no entanto Roberts é a antítese do que se espera de alguém que vive de lidar com moda: discretíssimo, fala baixinho, ri pouco e não faz nada que chame atenção para a sua imensa pessoa 1,90 metro que parece maior de terno claro, listadinho. Nem precisa, como mostra seu impressionante currículo. Roberts conhece todas as celebridades, da moda e do cinema, pelo lado dos bastidores. Morou na casa da diaba Anna Wintour, deu palpite em cada frufru das fotos que apresentaram Suri Cruise ao mundo e foi o responsável pelas roupas vestidas e desvestidas na primeira imagem sensual (sem querer, sem querer) da atriz-cantora Miley Cyrus quando ela, aos 15 anos, ousou mostrar um pedaço das costas. O trabalho mais memorável, na própria conta, foi uma sessão de fotos de março de 2007, meses depois que deixou a redação da revista New Yorker, onde trabalhou nove anos, para voltar à Vanity Fair. Encarregado de recriar o clima de um filme noir em fotografias, comandou um elenco com quarenta das maiores estrelas de Hollywood. A chuva de egos incluiu Jack Nicholson, Robert De Niro, Sharon Stone, Penélope Cruz e Julianne Moore, o aluguel do maior galpão da Universal Studios em Los Angeles, uma tempestade artificial e a badalada fotógrafa Annie Leibovitz. O orçamento, inimaginável para os atuais tempos de crise, chegou a seis dígitos. "Em determinado momento, tínhamos a Helen Mirren, de salto alto, no topo da escada de incêndio de um hotel, e uma chuva torrencial, de verdade, caindo. O agente dela gritava, enlouquecido, para eu tirar a mulher dali", relatou ele a VEJA. Sobre o encontro de duas almas intensamente controladoras, a dele e a de Annie, Roberts admite: saem faíscas. "Ele tinha mania de querer colocar chapéu em todo mundo. Foi uma batalha", espeta a fotógrafa no texto de apresentação do ensaio noir. Ao que Roberts rebate: "Se você já assistiu a um filme noir, sabe que as pessoas estão sempre de chapéu. Já ela cismou de colocar um carro anos 60 em um dos cenários. Disse que era o pequeno ingrediente que fazia diferença na foto. Até hoje não estou convencido". Segundo Roberts, "sair para trabalhar com Annie é como ir para uma batalha. Tenho de convencê-la de que a ideia é boa e que ela é a pessoa certa para realizá-la". Justiça seja feita, no mesmo texto a fotógrafa também é pródiga em elogios: "Michael é muito mais que um diretor de moda. Ele é um gênio quando se trata de roupas".
Nascido em Buckinghamshire, nos arredores de Londres, Roberts é o que se espera de um inglês típico: tem boas roupas, maus dentes e humor levemente autodepreciativo. "O problema foi ter entrado na lista dos mais bem vestidos. Nunca mais pude relaxar", brinca. Perguntado sobre a aura de genial, diz que o adjetivo anda desvalorizado "e é usado hoje até para descrever cachorros". Ao contrário da formação vaga de muitos colegas, fez faculdade de artes e começou como crítico de moda. Além de dirigir ensaios fotográficos, atua como ilustrador, artista plástico e fotógrafo. Já dirigiu (em fotos, claro) a rainha Elizabeth, no Palácio de Buckingham, e Carla Bruni, no Eliseu. "O próximo passo é fotografar na Casa Branca. E não só Michelle." Na Vanity Fair, é ele que monta, desmonta e arrasta pelo cenário, em geral tão suntuoso quanto as roupas, atrizes como Emily Blunt, Jessica Biel e Cate Blanchett. Se o glamour sobrevive, o orçamento definitivamente encolheu: a locação do ensaio do número de maio da revista, baseado no filme Ligações Perigosas, foi um castelo um tanto alquebrado perto de Paris. "Mas cada furo nos tapetes e nas cortinas e cada janela quebrada foram muito bem compensados pelos maravilhosos vestidos de alta-costura", descreve. "Ele é multiuso. Cuida de tudo, tem ideias incríveis e muito bom gosto. É uma pessoa que se pode chamar para cuidar de toda uma escola de samba, uma ópera", elogia o amigo publicitário Nizan Guanaes. A ligação com o Brasil nasceu de uma sugestão da falecida editora de moda inglesa Isabella Blow, que foi sua assistente e amiga. Ultimamente suas visitas, mesmo quando planeja dar um tempo e visitar os amigos, têm sido casadas a trabalhos para grifes e revistas nacionais. Um dos mais recentes é um conjunto de três ensaios para a revista Wish Report de maio, fotografados no Rio com as modelos Raica e Isabeli Fontana e um time de garotões malhados. "Ele acordava às 4 da manhã e punha todo mundo para trabalhar", descreve o diretor da revista, João Carlos Camargo. "Desenhou o sapato cor-de-rosa usado por Isabeli e ligou para o Manolo Blahnik fazer do jeito que queria. Em 48 horas, estava aqui no Brasil. Tem um poder impressionante." Roberts está "sozinho no momento" e vive viajando. Aluga apartamento em Paris e, nos outros lugares, hospeda-se em hotéis e na casa de amigos. Fitinha do Bonfim no pulso, pensa em comprar uma casa no Brasil, cenário de seu próximo livro (o oitavo), Tudo Bom, Tudo Bem esta, uma das poucas expressões em português que aprendeu nestes nove anos de idas e vindas; também sabe perguntar "Tem aipim?" e fica indignado quando ouve um não , mas confessa certo receio: "Quando o lugar é bonito, muita gente quer vir ficar com você". De beleza ele, definitivamente, entende.
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