|
Ciência Ele foi rastreado
por cientistas brasileiros e ingleses, em
Além de pavimentar o caminho para uma revolução na medicina, o sequenciamento do genoma humano permitiu que cientistas identificassem uma série de genes relacionados ao comportamento. Não se passa um mês sem que um novo estudo associe determinado gene à tendência a adquirir certo traço de personalidade, ou a desenvolver um hábito ou vício desde que o gene seja "ligado" pelo ambiente em que a pessoa vive. A mais recente dessas pesquisas, conduzida pela Universidade de Essex, na Inglaterra, debruça-se sobre o gene responsável pelo transporte da serotonina, neurotransmissor associado a sensações como o bem-estar e a felicidade. Uma variação nesse gene estaria relacionada à maneira como cada um processa as informações positivas ou negativas ou seja, à tendência a ser otimista ou pessimista. O gene do otimismo, como foi batizado pela comunidade científica, já havia sido rastreado pela equipe da geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, em parceria com o geneticista João Ricardo de Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco, durante uma pesquisa para tentar descobrir a influência genética de doenças psíquicas. Com novas questões levantadas pela equipe inglesa, o estudo da USP e da UFPE será agora publicado pela revista Molecular Psychiatry.
A pesquisa inglesa, que envolveu 97 voluntários, foi conduzida em duas etapas. Na primeira delas, analisou-se o DNA da saliva e das sobrancelhas dos participantes. A seguir, eles foram submetidos a um teste bastante usado pelos psicólogos cognitivos para avaliar a atenção seletiva. Uma tela à sua frente exibia alternadamente imagens com mensagens positivas, negativas ou neutras. Quando um ponto aparecia na tela, eles tinham de pressionar um botão. Nesse tipo de teste, quanto mais o participante se vê absorvido pela imagem, mais ele demora a apertar o botão. Isso permite aos pesquisadores descobrir como cada tipo de imagem afeta cada participante e traçar seu perfil. Ao compararem os resultados com o DNA dos voluntários, os pesquisadores constataram um padrão. Os que tinham duas versões "longas" do gene eram os otimistas. Os que tinham uma versão longa e outra curta do gene, ou duas versões curtas, eram os pessimistas. A pesquisa brasileira envolveu 197 voluntários e usou testes genéticos em amostras de sangue.
A busca por explicações para os diversos matizes da personalidade mobiliza a ciência e a filosofia desde a Antiguidade. Na Grécia, Hipócrates (460-375 a.C.), o pai da medicina, descreveu quatro tipos de personalidade, de acordo com a presença de determinadas substâncias no organismo. No Renascimento e na era moderna, o debate se deu principalmente em torno do grau de responsabilidade que a natureza e o ambiente teriam na formação da personalidade. Por todo o século XX, muitos pensadores se agarraram à tese de que o ser humano é produto apenas do ambiente. Com frequência, esse posicionamento era uma reação à série de barbaridades cometidas nos Estados Unidos e em vários países da Europa com o intuito de promover limpezas étnicas e evitar que ciganos, homossexuais ou quaisquer "indesejados" transmitissem seus genes aos descendentes. O apogeu dessa barbárie, evidentemente, ocorreu na Alemanha nazista. A descoberta da estrutura do DNA pelo americano James Watson e pelo inglês Francis Crick, em 1953, e o mapeamento completo do genoma humano, em 2003, abriram um campo de exploração sem precedentes para entender as origens biológicas da personalidade. Hoje se sabe que os comportamentos dependem da interação entre fatores genéticos e ambientais. Além disso, as descobertas mais recentes nesse campo mostram que a influência dos hábitos e do estilo de vida de cada um na ação dos genes é maior do que se pensava. Pessoas com genes associados à depressão têm mais probabilidade de desenvolver a doença se forem expostas a eventos traumáticos durante a vida. Do mesmo modo, indivíduos com dificuldade para fazer o metabolismo do álcool não vão se tornar automaticamente abstêmios. Com a descoberta do gene do otimismo, a geneticista Mayana Zatz faz a seguinte reflexão: é possível que, de agora em diante, tenhamos de ser mais tolerantes com quem teima em ver apenas o lado negativo do mundo. Afinal, essa atitude em parte está nos genes.
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|