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Edição 2111

6 de maio de 2009
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Especial
2009, o ano do G-2

Mas se os Estados Unidos não se cuidarem pode ser que
a China saia da crise ainda mais forte e faça o G-1 sozinha


Lauro Jardim, de Pequim

Shawn Thew/Corbis/Latinstock

Reunião do "G-2"
Hu Jintao e Obama: seguidos ataques à solidez do dólar, expansão do poderio bélico e provocações calculadas aos EUA



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Com um vigor que lembra o seu espantoso crescimento econômico das últimas três décadas, de quase 10% ao ano, a China está manobrando a seu favor o xadrez geopolítico internacional. Os movimentos do país que mais cresce no planeta contrastam com a perplexidade das grandes potências, semiparalisadas pela crise econômica mundial. Até meados da década, a China destacava-se na paisagem global por ter sido capaz de tirar da miséria centenas de milhões de pessoas. Agora a nação tem pretensões muito maiores. Quando se espanarem as cinzas jogadas pela crise sobre o mapa econômico e político, a China surgirá com uma estatura e uma força relativa inéditas na nova ordem mundial. Niall Ferguson, historiador da Universidade Harvard, resume com clareza esse novo papel de Pequim: "Os Estados Unidos deveriam se apressar a fazer uma reunião do G-2 com a China antes que ela faça um G-1 sozinha".

Nos últimos três meses, a China fez várias apostas. Todas elas altas. Numa ponta, mirou os EUA como alvo de ataques. Noutra, ousou comparar seu autointitulado "sistema superior" de governo com os praticados pelas democracias representativas do Ocidente. E bateu no peito para afirmar com todas as letras que seu sistema era mais eficiente para resolver a crise. Numa terceira ponta, abriu o cofre para comprar fabricantes estrangeiros de matérias-primas. Uma das aquisições mais espetaculares foi a de parte da mineradora anglo-australiana Rio Tinto pela estatal de alumínio chinesa por 19,5 bilhões de dólares. E, para completar, a China piscou o olho (e abriu a carteira) para países da Ásia, América Latina e África, num momento em que as nações desenvolvidas só veem os próprios problemas. O colosso chinês almeja, enfim, mais do que ser reconhecido somente como o chão de fábrica do planeta, somente como aquele país que produz 75% dos brinquedos e 36% do aço do planeta – e passou a deixar tal ambição patente. Ou, conforme a definição de Timothy Garton Ash, professor da Universidade Oxford, o dragão parou de agir como "mero lagarto".

Anderson Schneider

Equilíbrio interno
Liquidação no comércio: se o país crescer abaixo de 8%, não produzirá emprego para os 15 milhões que migram anualmente para as cidades

Não que a crise não a tenha afetado. Atingiu sua economia, sim. As exportações, um dos pilares do milagre chinês, caem desde novembro, e no primeiro trimestre a queda passou dos 20% em comparação com os três primeiros meses do ano passado. Anualizada, essa queda é quase o dobro de tudo o que o Brasil exporta. A construção civil, outro desses pilares, fechou março sem se recuperar de um baque que começou há um ano (veja a reportagem que começa na página 88). Mas suas reservas trilionárias a colocam em situação privilegiada na crise. A verdade é que a China está mais ou menos do mesmo tamanho – a novidade é que os outros gigantes encolheram. Um exemplo: desde setembro, os três maiores bancos do mundo em valor de mercado passaram a ser chineses. Em 2006, nenhum deles figurava entre os vinte maiores. Os EUA, que tinham sete entre os vinte grandes (incluindo os dois primeiros), agora se contentam com três nesse ranking. Até o número 1 em depósitos é, desde abril, um banco chinês: o Banco Comercial e Industrial da China tem o equivalente a 1,3 trilhão de dólares em depósitos, superando o JPMorgan Chase, que possui 1,03 trilhão de dólares.

É justamente na relação com os EUA que a nova postura fica evidente. A subida de tom e a escalada de críticas são notáveis. Logo após o encontro com Barack Obama, na véspera do G-20, o presidente da China, Hu Jintao, deu a senha: "Ter boas relações com os EUA não é apenas algo de interesse dos dois povos, mas também é benéfico para a paz, a estabilidade e a prosperidade da Ásia e do mundo como um todo". A frase é verdadeira, mas é novidade em seu repertório. É como se Hu Jintao dissesse: "Estamos num patamar de igualdade". O dirigente chinês acrescentou que "resultados positivos não serão conseguidos com facilidade". No mesmo diapasão, o governo chinês divergiu dos Estados Unidos ao apoiar a versão da Coreia do Norte de que botara em órbita um satélite de comunicação que, para os EUA, era na verdade um míssil armado com uma ogiva nuclear.

Não por acaso, as pretensões chinesas passam também por expandir seu poderio bélico. Em março, a China anunciou que aumentará seu orçamento militar em 14,9% neste ano. Algo como 70 bilhões de dólares para se armar. Em 2008, já gastara 17% mais do que no ano anterior. O Pentágono duvida dos números chineses. Em documento oficial, calculou que no ano passado a China gastou entre 110 e 150 bilhões de dólares com a área militar – oficialmente, esse valor era de 60 bilhões de dólares. Ressalte-se, contudo, que, seja qual for o parâmetro, os gastos militares da China ainda são bastante inferiores aos dos EUA: os chineses gastam 1,4% do PIB, os EUA 4%, ou 515 bilhões de dólares (isso sem contar o dinheiro gasto nas guerras em que os Estados Unidos se metem). Mas bastante superiores ao de dois países emergentes, como Brasil (12 bilhões de dólares por ano) e Rússia (50 bilhões de dólares). Por enquanto, quem mais se preocupa são os EUA. Diz um relatório do Pentágono, apresentado semanas atrás ao Congresso americano: "Muita incerteza cerca o futuro da China, principalmente sobre como o seu aumento de poder militar será usado".

Anderson Schneider

Confiança inabalada
O governo quer estimular o consumo: 80% dos chineses dizem que vão manter os gastos ou aumentá-los

O momento-chave da escalada chinesa deu-se em março, quando o primeiro-ministro Wen Jiabao bateu na sagrada solidez do dólar. "Emprestamos uma enorme quantidade de recursos aos EUA. E é claro que estamos apreensivos com a segurança dos nossos ativos. Para falar francamente, estamos um pouco preocupados." Pronto. Foram apenas 28 palavras, mas suficientes para obrigar Obama a responder, reafirmando algo que até ali ninguém pusera em dúvida: a capacidade de os EUA honrarem os títulos que emitem. Foi uma espécie de jogo de cena dos chineses, que detêm 1,4 trilhão de dólares em bônus emitidos pelo Tesouro americano, dos 2 trilhões que possuem em reservas estrangeiras (só no ano passado compraram mais 400 bilhões de dólares em T-Bonds). Exatamente por ser a maior detentora desses títulos é que não interessaria à China pôr publicamente em dúvida a solidez desses ativos. Mas não deixou passar a oportunidade para fragilizar os EUA diante do mundo, obrigando-os – suprema ironia – a reafirmar a segurança dos seus títulos como se fossem um desses países caloteiros. "Continuaremos com-prando bônus americanos, mas prestaremos atenção de perto a possíveis flutuações de valor", disse, dias depois, a vice-presidente do Banco Central da China, Hu Xiaolian. Novamente, deixou uma ameaça pairando no ar. "É um tema que nos preocupa: manter nosso dinheiro com os Estados Unidos depende mais deles do que de nós", afirmou o diretor-geral adjunto do Ministério do Comércio, Shen Danyang, em entrevista concedida a VEJA numa das amplas salas de reunião do ministério, perto da Praça da Paz Celestial, em Pequim.

Para não deixar o assunto da fragilidade do dólar (e, por extensão, dos EUA) sumir do noticiário, no calculado intervalo entre a fala do primeiro-ministro e a reunião do G-20, o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, publicou um artigo propondo a substituição do dólar como moeda internacional de referência para as reservas. Em seu lugar, entraria uma moeda contábil usada internamente pelo FMI (a SDR, na sigla em inglês), regida por uma cesta de moedas que reúne o euro, a libra, o dólar e o iene. Os economistas que preveem o fim do dólar como moeda de referência acham que isso acontecerá a longo prazo. O resto considerou a ideia muito mais como uma provocação. Novamente, contudo, a China obrigou o governo americano a posicionar-se – contra, naturalmente. É assim que ela tem medido forças com os EUA. Num movimento paralelo, fechou alguns acordos, com países como Argentina e Indonésia, para que nas transações de comércio exterior se utilize o iuane, jogando o dólar para escanteio. O Brasil pode ser o próximo a fechar um acordo desse tipo com a China. Na imprensa oficial chinesa (um pleo-nasmo, aliás), cada um desses entendimentos é saudado como "mais um passo para tornar o iuane uma moeda global".

Anderson Schneider

Na direção correta
Vagão de metrô no sul do país: 28 000 quilômetros de trilhos até 2026

Para além da disputa direta com os Estados Unidos, a China tem estendido a mão aos seus vizinhos asiáticos e aos países africanos e latino-americanos. Com o bolso forrado de reservas, procura novos amigos – um jogo de sedução que os EUA praticaram por décadas. Anunciou a criação de um fundo de investimento em projetos de infraestrutura nos países do Sudeste Asiático. Para isso, separou 25 bilhões de dólares. No Congo, em Angola, na Nigéria e em vários outros países africanos, a China opera basicamente com acordos de permuta: banca e faz obras de engenha-ria pesada (estradas, barragens) em troca de concessões de exploração de jazidas minerais. A Sinopec, estatal de petróleo, fechou um acordo com a Petrobras para financiar 10 bilhões de dólares em troca de fornecimento de petróleo. Tem estreitado também relações com Hugo Chávez, de olho no petróleo venezuelano, e com os russos, com quem a empresa firmou um compromisso de abastecimento de petróleo para as próximas duas décadas no valor de 25 bilhões de dólares.

A curva de crescimento de investimentos da China no exterior não para de apontar para o alto. Em 2008, foram 52 bilhões de dólares em aquisições. Menos que os 186 bilhões de dólares dos EUA e os 74 bilhões de dólares do Japão. Mas 63% a mais do que no ano anterior. A previsão para este ano é chegar aos 100 bilhões de dólares. A China quer comprar o que puder na baixa – e não há por que não fazê-lo. Tudo o que for matéria-prima, recursos minerais e fonte de energia interessa ao país: a China é o maior consumidor mundial de cobre, zinco, alumínio e aço; o segundo maior de petróleo. As ofertas têm sido feitas. Para que se tenha uma ideia do tamanho do megaconsumo chinês, o Brasil consome 24 milhões de toneladas por ano de aço; a China, quase vinte vezes mais: 450 milhões de toneladas por ano.

A China acumula 2 trilhões de dólares em reservas estrangeiras – boa parte desse patrimônio amealhada de 2007 para cá. Graças de certo modo a um iuane desvalorizado: como o câmbio não é flutuante, sua moeda mexeu-se relativamente pouco nos últimos anos, apesar do volume monstruoso de ingresso de capital estrangeiro no país e do azul radiante de sua balança comercial. Nos últimos meses, as autoridades chinesas passaram a reagir de forma cada vez mais irritada quando os EUA repetem a velha reclamação de que o país manipula o iuane – as respostas à surrada cobrança americana têm sido mais enfezadas do que nunca. Seja como for, como enfatiza o articulista Martin Wolf no livro A Reconstrução do Sistema Financeiro Global, "a China, como o maior país superavitário do mundo, tornou-se fundamental em qualquer solução para os desequilíbrios globais. O país desempenha um duplo papel na economia mundial: é, ao mesmo tempo, o maior exportador de capital (como o Reino Unido do fim do século XIX) e o gigante emergente em mais rápido crescimento (como os EUA da mesma época)".

Fotos Anderson Schneider e Oliver Weiken/Corbis/Latinstock

Monumentalidade
Os arranha-céus de Xangai (à esq.) e o Parlamento (à dir.), em Pequim: a China valeu-se da crise para enterrar a postura humilde e se afirmar como grande potência mundial

Portanto, a China tem mais dinheiro em caixa que qualquer outro país. Mas tem também 900 milhões de pobres ainda à espera para entrar no fabuloso trem de prosperidade que tirou quase 400 milhões de pessoas da miséria desde que Deng Xiaoping deu o pontapé inicial às reformas que arrancaram o país das trevas econômicas produzidas na era Mao. Não é só a pobreza que aflige: a China convive ainda com a humilhação de ter 116 milhões de analfabetos, um número que vem crescendo, aliás. E esses são problemas que nem os EUA (donos de uma economia ainda o triplo da chinesa) nem a Europa nem o Japão têm.

Por isso, apesar dos movimentos calculados dos últimos meses, a China não pode descuidar-se: o equilíbrio interno tem sido conseguido à base de um crescimento médio de dois dígitos ao ano nas últimas três décadas. É falsa, por isso, a impressão superficial que se tem no Ocidente de que um crescimento de 6% (projetados por economistas de vários bancos) a 8% (a meta do governo) seja algo aceitável em termos chineses. É um número de dar inveja ao resto do mundo, que, segundo o Banco Mundial, deve crescer 1,3% em 2009. Mas é um tombo e tanto. O próprio governo chinês diz que abaixo de 8% não conseguirá produzir empregos para os 15 milhões de chineses que deixam o campo todos os anos e para os 7 milhões de jovens que se graduam nas universidades. No ano passado, o país cresceu 9% e 11 milhões de empregos urbanos foram criados – menos, portanto, do que o necessário. Em 2009, por enquanto, nenhuma melhora: neste primeiro trimestre, o desemprego urbano subiu em relação ao fim do ano passado. Além disso, 1 milhão (de um total de 7 milhões) dos graduados em 2008 nas universidades chinesas estão sem trabalho.

O camponês miserável precisa ver que a fila está andando, que seu parente está migrando para um emprego nas regiões urbanas, para que possa suportar a própria condição. A estabilidade chinesa funciona como a bicicleta: não pode pedalar muito devagar, senão cai. Numa palavra, com crescimento de um dígito, a esperança num futuro melhor esboroa. No fim de 2008, o governo chinês impressionou o mundo ao admitir que 20 milhões de trabalhadores haviam perdido o emprego com a crise e tiveram de voltar para o campo. À moda chinesa, reconheceu o óbvio: a crise econômica é democrática, atinge a todos, inclusive a China. Por que "à moda chinesa"? Porque lançou um dado sem fazer uma comparação com o número de demitidos no mesmo período do ano anterior. A propósito, os especialistas em China são unânimes em colocar dúvidas sobre as estatísticas chinesas, controladas a ferro e fogo pelo governo (o economista americano Nouriel Roubini, por exemplo, acha que são 40 milhões de desempregados). De qualquer forma, ainda que com algumas ressalvas, é com elas que se conta. O mais importante, porém, é que o fosso de renda que separa os trabalhadores rurais dos urbanos alargou no ano passado, quando a crise atingiu o país de forma patente no último trimestre. A renda dos camponeses cresceu 8% ante 8,4% do aumento de ganhos daqueles que trabalham nas zonas urbanas. Na China, a remuneração média de um empregado nas cidades é quase o quádruplo dos 50 dólares mensais ganhos pelos camponeses.

Em novembro, o governo lançou um pacote de estímulo de 585 bilhões de dólares para enfrentar a crise que dois meses antes começara a devastar o mundo financeiro (leia sobre os resultados desse pacote na reportagem que começa na página 88). Uma bolada e tanto, embora a grande questão seja quanto de dinheiro novo entrou no pacote. O número mais provável, segundo se acredita no Ocidente, é 185 bilhões de dólares – o resto já estava previsto. Mas nunca se saberá ao certo: a transparência não é mesmo a característica mais marcante de governos autoritários. O que importa para consumo externo e para a população chinesa é que o governo reagiu rápido.

Sean Gallup/Getty Images

Fábrica do mundo
Produtos chineses de alta tecnologia numa feira de eletroeletrônicos em Berlim: sem competidores

Essa foi a razão de o presidente do BC da China ter louvado as vantagens e a "superioridade do sistema chinês" – também autointitulado "socialismo com características chinesas" – sobre as democracias representativas. Nesse sentido, foi uma resposta rápida e sem contestação, como em qualquer regime autoritário. Discussões e negociações no Congresso para aprovar um pacote de recuperação da economia ou críticas ácidas da imprensa, como é obrigado a ouvir o recém-empossado Barack Obama? Nem pensar. Praticamente, a unanimidade das dezenas de chineses com quem conversei em diversas cidades do país repetiu com pouca variação a frase "o governo quer acabar com a crise, vai acontecer". No mundo real, até o gigantesco retrato de Mao Tsé-tung na entrada da Cidade Proibida sabe que não é assim. O governo dizia, por exemplo, que o país cresceria 9,7% no ano passado. Cresceu 9%.

Há um manifesto perigo se ideais de regimes "superiores" de partido único prosperarem mundo afora. Por muito tempo, o Ocidente imaginou que a liberdade econômica que os chineses experimentam de modo crescente há três décadas pudesse resultar no futuro em liberdade de expressão e política. Até agora, nada autoriza que se continue pensando nessa direção, pelo menos a médio prazo. A China assume-se como potência neste início de século, mas sem abrir mão (muito pelo contrário) de um dos três princípios essenciais do modelo fixado por Deng Xiaoping – o de que o PCC deve ter o controle absoluto do sistema político. Um controle que completa sessenta anos em outubro. Os outros dois princípios são: a eficiência cada vez maior da economia para produzir riquezas e o controle direto e um papel relevante do estado na economia.

O ano de 2009 será talvez lembrado no futuro como marco da entronização da China no posto de potência mundial. Ou o ano em que a terceira maior economia do mundo colocou a segunda, o Japão, na alça de mira e estabeleceu com a primeira, os Estados Unidos, uma relação tão simbiótica que o destino de uma se amarrou ao da outra. 2009, o ano do G-1.



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