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Cinema O
elo mais fraco Maria Cheia de Graça
percorre o caminho do tráfico junto com seu elemento descartável
a "mula" 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Catalina e as cápsulas de cocaína que tem de ingerir:
tédio ou morte |
Maria (Catalina
Sandino Moreno) tem 17 anos e três opções: continuar pelo
resto da vida arrumando rosas para exportação numa fábrica,
com salário mínimo e um capataz que não deixa as funcionárias
ir ao banheiro; trabalhar como doméstica em Bogotá; ou virar "mula",
o que implica ingerir 62 cápsulas gigantescas de cocaína, que mal
passam pela sua garganta, e transportá-las no estômago até
os Estados Unidos. Embora esteja grávida de dois meses, ela escolhe a terceira
alternativa e um dos propósitos de Maria Cheia de Graça
(Maria Llena Eres de Gracia, Estados Unidos/Colômbia, 2004),
que estréia nesta sexta-feira no país, é explicar por que
uma moça pobre, mas não miserável, criada numa família
incompleta, mas não particularmente problemática, e que engravidou
por acaso, mas não pretende se desfazer do bebê, preferiria sujeitar-se
a perder a vida e a liberdade a aceitar as duas outras possibilidades.
No excelente filme de estréia do americano Joshua Marston, ex-estudante
de ciências políticas, um dos motivos é a ingenuidade de Maria
e de outras moças como ela. O tráfico de drogas está de tal
forma entranhado no dia-a-dia da Colômbia, propõe ele, que adquiriu
o ar de modo de vida escuso porém viável. A coerção
dos homens que recrutam Maria e a avisam de que, se ela não entregar
todas as cápsulas, irão visitar "sua avozinha e sua mamãe"
não é mais acintosa do que aquela praticada pelo capataz
da fazenda de flores. Maria e suas colegas têm uma noção vaga
de que, de qualquer dos dois lados da lei, são elas as figuras dispensáveis.
São colocadas em grupo no avião porque, se uma for pega, as outras
passarão mais facilmente pela alfândega. Se a polícia as identificar,
não haverá repercussões para os escalões superiores,
já que elas nem sabem o nome verdadeiro de seus "agentes". E, se uma delas
morrer em razão de uma cápsula estourada, ainda assim a maior parte
do carregamento terá chegado ao seu destino. Aí entra a parte mais
relevante do que Marston tem a dizer: uma vida com três opções
apenas, sendo que as legais envolvem grande tédio e humilhação,
pode não ser vida que valha a pena para espíritos mais inconformistas
como Maria. Na interpretação belíssima e sem afetação
de Catalina uma colombiana de classe média que, na vida civil, fala
um inglês perfeito e parece destinada a se tornar uma estrela , tem-se
a oportunidade, enfim, de desmontar não um, mas dois estereótipos.
O primeiro, o da "mula" em si. E o segundo, a partir do contato de Maria com um
enclave colombiano no bairro de Queens, em Nova York, o do suposto sonho americano
dos imigrantes hispânicos. O único sonho de Maria e das pessoas que
ela encontra é, na verdade, um sonho colombiano. Mas esse deu estrondosamente
errado. |