Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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O elo mais fraco

Maria Cheia de Graça percorre
o caminho do tráfico junto com
seu elemento descartável – a "mula"


Isabela Boscov


Divulgação
Catalina e as cápsulas de cocaína que tem de ingerir: tédio ou morte

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Maria (Catalina Sandino Moreno) tem 17 anos e três opções: continuar pelo resto da vida arrumando rosas para exportação numa fábrica, com salário mínimo e um capataz que não deixa as funcionárias ir ao banheiro; trabalhar como doméstica em Bogotá; ou virar "mula", o que implica ingerir 62 cápsulas gigantescas de cocaína, que mal passam pela sua garganta, e transportá-las no estômago até os Estados Unidos. Embora esteja grávida de dois meses, ela escolhe a terceira alternativa – e um dos propósitos de Maria Cheia de Graça (Maria Llena Eres de Gracia, Estados Unidos/Colômbia, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, é explicar por que uma moça pobre, mas não miserável, criada numa família incompleta, mas não particularmente problemática, e que engravidou por acaso, mas não pretende se desfazer do bebê, preferiria sujeitar-se a perder a vida e a liberdade a aceitar as duas outras possibilidades.

No excelente filme de estréia do americano Joshua Marston, ex-estudante de ciências políticas, um dos motivos é a ingenuidade de Maria e de outras moças como ela. O tráfico de drogas está de tal forma entranhado no dia-a-dia da Colômbia, propõe ele, que adquiriu o ar de modo de vida escuso porém viável. A coerção dos homens que recrutam Maria – e a avisam de que, se ela não entregar todas as cápsulas, irão visitar "sua avozinha e sua mamãe" – não é mais acintosa do que aquela praticada pelo capataz da fazenda de flores. Maria e suas colegas têm uma noção vaga de que, de qualquer dos dois lados da lei, são elas as figuras dispensáveis. São colocadas em grupo no avião porque, se uma for pega, as outras passarão mais facilmente pela alfândega. Se a polícia as identificar, não haverá repercussões para os escalões superiores, já que elas nem sabem o nome verdadeiro de seus "agentes". E, se uma delas morrer em razão de uma cápsula estourada, ainda assim a maior parte do carregamento terá chegado ao seu destino. Aí entra a parte mais relevante do que Marston tem a dizer: uma vida com três opções apenas, sendo que as legais envolvem grande tédio e humilhação, pode não ser vida que valha a pena para espíritos mais inconformistas como Maria. Na interpretação belíssima e sem afetação de Catalina – uma colombiana de classe média que, na vida civil, fala um inglês perfeito e parece destinada a se tornar uma estrela –, tem-se a oportunidade, enfim, de desmontar não um, mas dois estereótipos. O primeiro, o da "mula" em si. E o segundo, a partir do contato de Maria com um enclave colombiano no bairro de Queens, em Nova York, o do suposto sonho americano dos imigrantes hispânicos. O único sonho de Maria e das pessoas que ela encontra é, na verdade, um sonho colombiano. Mas esse deu estrondosamente errado.

 
 
 
 
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