Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Cinema
O segundo é melhor

O Clã das Adagas Voadoras chega
de carona em Herói. Desta vez,
Zhang Yimou acertou em cheio


Isabela Boscov

 
Divulgação
Lau e Ziyi lutam: entre a exuberância da China e o rigor formal do Japão

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Por um capricho das distribuidoras, dois filmes feitos pelo chinês Zhang Yimou com um intervalo de quase três anos chegam com apenas uma quinzena de diferença aos cinemas brasileiros – depois de Herói, nesta sexta-feira é a vez de O Clã das Adagas Voadoras (House of Flying Daggers, China/Hong Kong, 2004) entrar em cartaz. Como se corre o risco de achar que assistir a ambos é ver mais da mesma coisa (até porque os dois foram indistintamente propagandeados como filmes de artes marciais), cabe avisar que há aí um engano: Clã não é só um bocado diferente de Herói. É também superior. No ano de 859, nos estertores da dinastia Tang (618-907), chega aos ouvidos de dois policiais que Mei (Zhang Ziyi), a nova cortesã da cidade, é na verdade uma agente da organização de guerrilheiros do título. Cada um a seu modo, eles iniciam uma investigação. Jin (o sino-japonês Takeshi Kaneshiro), que é jovial, inconseqüente e conquistador, faz-se passar por freguês do bordel e agarra Mei – que é cega – à força. Seu companheiro Leo (Andy Lau) chega para dispersar o tumulto arranjado e submete Mei a uma prova destinada a apurar se ela é mesmo a habilíssima dançarina que diz ser. Com o talento da cortesã devidamente demonstrado numa seqüência atordoante, os policiais fazem com que ela acredite estar livre, para assim os conduzir ao quartel-general do clã. Jin a escoltará, dizendo-se apaixonado por ela, e Leo os seguirá a distância. Durante o trajeto, Jin e Mei se apaixonarão de fato, a identidade verdadeira de Leo será descoberta e, acima de tudo, O Clã das Adagas Voadoras se revelará um encontro sensacional entre a exuberância do cinema chinês e o rigor do filme de samurai – em especial da variedade celebrizada pelo diretor Akira Kurosawa, de quem Yimou é grande admirador.

Toru Yamanaka/AFP
O chinês Yimou: uma personalidade diferente a cada filme


Há menos de fantasioso do que se possa supor nessa história. A dinastia Tang de fato se esfacelou sob a ação de milícias rebeldes. Esse foi também o período de influência mais marcante da China sobre o Japão. Yimou, contudo, inverte a mão desse trânsito. Aqui é a China, sempre tão impermeável ao que vem de fora, que se dobra ao Japão. Se em Herói o diretor homenageava Kurosawa na estrutura emprestada de Rashomon, em Clã ele o faz de todas as maneiras possíveis, do tema – o dilema entre liberdade individual e lealdade – às cores e composições impressionistas. Mesmo as lutas, sempre lindas, ganham outra força. Em vez de mera exibição de virtuosismo, elas traduzem o crescendo da ligação entre Jin e Mei e o destino trágico para o qual esse romance se encaminha. Na seqüência final, quando a ação é parcialmente encoberta por uma nevasca que corta a tela, o que o diretor quer é que a platéia se lembre de uma cena clássica – a da luta sob a chuva em Os Sete Samurais. Talvez a própria fluidez da personalidade de Yimou, que parece ser um homem diferente a cada filme que faz, venha a impedir que ele ocupe um lugar comparável ao de Kurosawa na história do cinema. Mas, ao menos por um momento, ele chegou bem perto.

 
 
 
 
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