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Fotografia
Retratos de família Fruto
de um trabalho de mais de dez anos do canadense Gregory Colbert, uma
mostra em Nova York documenta a intimidade entre homens e animais em
várias regiões do mundo 
Tania Menai, de Nova York
Gregory Colbert  |
UMA GRANDE AMIZADE
Flagrante de um garoto do Sri Lanka em momento zen com um elefante: a cena é
natural, não tem nada de fabricado |
Segundo um dos mais respeitados biólogos
da atualidade, o americano Edward O. Wilson, da Universidade Harvard, manter laços
com o mundo natural e os animais é uma necessidade atávica da espécie
humana. Para grande parte das pessoas, essa necessidade é satisfeita pelo
contato com bichos de estimação. A exposição Ashes
and Snow (Cinzas e Neve), contudo, revela que nossos laços com
os animais podem ser muito mais variados e surpreendentes do que imaginariam os
habitantes das grandes cidades. Em cartaz em Nova York, a mostra exibe cenas da
intimidade entre habitantes das partes mais remotas do mundo e animais selvagens
como águias, elefantes, leopardos e até mesmo baleias. Concebida
pelo fotógrafo e cinegrafista canadense Gregory Colbert, Ashes and Snow
reúne 200 fotos e um filme de uma hora projetado num imenso telão.
O material é resultado de treze anos de expedições a países
como Índia, Egito, Mianmar, Sri Lanka, Quênia, Etiópia e Namíbia.
"Os animais nunca impuseram barreiras aos homens. Foram os humanos que inventaram
essa distância; ela é artificial", disse Colbert, um aguerrido defensor
dos bichos, a VEJA.
Gregory Colbert  | Alan
Riding/The New York Times  |
PAS DE DEUX
Bailarina dança num templo, enquanto uma águia rodopia em torno
de seu corpo: Colbert capta a sintonia entre homens e bichos | Colbert:
expedições por 33 países para realizar o projeto | O
conjunto, que atraiu mais de 100.000 espectadores ao ser exibido em Veneza, em
2002, chega a Nova York juntamente com seu "museu nômade", um espaço
monumental projetado pelo arquiteto japonês Shigeru Ban e feito para rodar
o mundo. Trata-se de um pavilhão cujas paredes são constituídas
por 148 contêineres empilhados (os mesmos que transportarão todo
o material de cidade em cidade). Instalada num píer em Manhattan, a estrutura
de mais de 4.000 metros quadrados tem o aspecto de um galpão industrial
quando vista por fora, mas seu interior é imponente. Colunas douradas,
que lembram um templo, sustentam um teto com pé-direito de 17 metros. Em
meio à penumbra, as luzes focalizam apenas as imensas fotografias, penduradas
entre as colunas todas reveladas em cor sépia, sobre papel artesanal
japonês sem moldura, vidro ou legenda.
Gregory Colbert/Arsenale Venice/The New York Times
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RITUAL COM PLUMAS
Uma menina asiática faz oração ao lado de uma ave: espírito
new age perpassa a exposição num píer de Nova York |
No final da passarela, uma grande tela mostra o
filme de uma hora com cenas em velocidade lenta, também em cor sépia,
em que elefantes dançam na água com mulheres, monges navegam de
barco num rio repleto de elefantes, uma bailarina dança com uma águia
e crianças e senhoras dormem abraçadas com leopardos no meio do
deserto. O próprio Colbert aparece nadando com um elefante (cena também
registrada em foto) e mergulha, sem equipamento algum, com uma baleia de 55 toneladas.
Para que essa cena fosse captada, Colbert passou cerca de dois anos e meio estudando
os hábitos das baleias e aprendendo a se aproximar delas as imagens
foram feitas por outro fotógrafo, a cada mergulho do canadense. No filme,
de autoria de Colbert e mais quatro cinegrafistas, 28 espécies de animais
interagem com humanos, incluindo cobras, falcões, corujas e lobos. A narração
é do ator Laurence Fishburne, que recita poesias escritas pelo próprio
fotógrafo. O título da exposição foi tirado de um
desses poemas: "das penas ao fogo; do fogo ao sangue; do sangue aos ossos; dos
ossos à medula; da medula às cinzas; das cinzas à neve".
E é também uma alusão a um componente literário da
exposição, um romance escrito por Colbert que fala sobre um homem
que viaja durante um ano e a cada dia escreve uma carta a sua mulher.
Gregory Colbert  |
NADO SINCRONIZADO
O fotógrafo estudou o comportamento das baleias por mais de dois anos para
interagir com o animal na água: vida dedicada à natureza |
O projeto Ashes and Snow é financiado
em parte pela Fundação Bianimale, criada pelo próprio Colbert
para apoiar projetos de arte e conservação da natureza. O fotógrafo
conta que a razão de um museu nômade é seu desejo de mostrar
que a arte deve ser acessível a todos "e não reservada a
uma elite". O arquiteto Ban, que ficou famoso por desenhar o pavilhão japonês
na Expo 2000 em Hannover, na Alemanha, pretende fazer espaços de exposição
diferentes em cada cidade pela qual a mostra deve itinerar nos próximos
dois anos. Depois de Nova York, ela segue para Los Angeles ainda neste ano e,
em 2006, para o Vaticano. Em seguida, passará por Pequim, Xangai, Tóquio,
Berlim e Cidade do México. Da filosofia
por trás de sua concepção à trilha sonora, Ashes
and Snow exala um indisfarçável espírito new age. "A
natureza é um poema, e nós, homens, com nossa arrogância,
temos de parar de pensar que somos a parte mais importante dela somos apenas
uma sílaba", diz Colbert. Seu trabalho fotográfico, contudo, tem
inegável beleza plástica e capta homem e animais em cenas de comunhão
perfeita. "Os povos que visitei e fotografei têm uma linguagem corporal
diferente da nossa. Eles interagem com os animais naturalmente. Nada disso foi
ensaiado ou posado", afirma Colbert. O projeto do artista não termina por
aí. Ele pretende retratar ainda mais espécies pelo mundo
e, claro, continuar militando pela causa dos bichos. "Não teremos futuro
se não deixarmos de ser predadores", diz o artista. Há uma chance
de os brasileiros verem a exposição no futuro. Duas semanas atrás,
Colbert foi procurado por produtores cariocas interessados em levar Ashes and
Snow para o Rio de Janeiro. O artista já esteve no Brasil e, obviamente,
tem opiniões apaixonadas sobre a necessidade de conhecer e preservar a
Amazônia. "A floresta é como uma biblioteca. As espécies são
seus livros. É preciso ler cada um deles para preservá-los. Caso
contrário, nada sobrará", diz. |