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Livros O
grande moleque modernista O francês Marcel
Duchamp tem muitos seguidores. Mas, como nota uma nova biografia, a maioria
ignora seu traço essencial: o humor 
Jerônimo Teixeira
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Era inverno em Minnesota,
Estados Unidos. A neve acumulava-se na porta do museu que exibia uma mostra itinerante
da obra do francês Marcel Duchamp, em meados dos anos 40. O guarda pegou
uma pá e se pôs a limpar a calçada. Mal sabia ele que aquela
ferramenta fazia parte da exposição: era uma obra de arte. Tratava-se
de um dos famosos ready-mades criados por Duchamp objetos comuns que o
artista transformava em "obras de arte", geralmente com títulos bizarros
como (no caso da pá) Em Antecipação ao Braço Quebrado.
Perdida no meio da volumosa biografia Marcel Duchamp (Cosac &
Naify; tradução de Maria Thereza de Rezende Costa; 588 páginas;
59 reais), de Calvin Tomkins, jornalista da revista The New Yorker, essa
anedota é emblemática da vida e da carreira do biografado. Duchamp
é, paradoxalmente, o maior ícone da iconoclastia modernista. Não
contente em questionar a representação naturalista e a perspectiva,
como faziam seus contemporâneos cubistas, ele resolveu atacar a arte como
instituição, elevando produtos industriais à condição
de "obras-primas". O que seus epígonos (que até hoje vicejam nas
bienais do mundo todo) não percebem é quanto havia de humor nessa
atitude. O ready-made não estava ali para ser levado totalmente a sério,
muito menos para ser entronizado. O guardinha do museu de Minnesota talvez tenha
entendido melhor o que Duchamp pretendia realizar.
A influência de Duchamp sobre a arte contemporânea só se equipara
à do espanhol Pablo Picasso e não se pode dizer que isso
seja um fato de todo positivo. A atitude irreverente e contestadora do francês
hoje degenerou na auto-indulgência de tantas instalações,
intervenções urbanas, happenings. E o curioso é que, embora
tenha aberto a porteira para chusmas de charlatães, Duchamp nunca se esforçou
para fazer escola. O personagem que emerge da biografia de Tomkins é um
individualista irredutível. Esteve próximo de várias correntes
de vanguarda, como o cubismo, o dadaísmo e o surrealismo, mas nunca se
filiou a nenhuma delas. Dizia que o único "ismo" em que se pode acreditar
é o erotismo: sua última grande obra, Étant Donnés,
é uma instalação na qual figura uma mulher nua, com as pernas
escancaradas. Esse trabalho provocador consumiu as últimas duas décadas
de trabalho de Duchamp, que morreu em 1968, de embolia pulmonar, no chão
de seu banheiro, aos 81 anos. Embora sempre tenha contado com uma boa rede de
patronos para lhe garantir uma vida confortável, Duchamp não chegou
a se converter no típico artista rico, como foram os casos de Picasso e
Dalí. De tempos em tempos, ele se afastava da arte para se dedicar a outra
paixão, o jogo de xadrez. Charmoso, teve várias mulheres, mas costumava
manter uma distância afetiva de todas elas uma exceção
foi a escultora brasileira Maria Martins, a quem propôs uma união
mais duradoura (embora ela já fosse casada com um diplomata).
Nas várias entrevistas que Duchamp concedeu, transparece uma cultivada
indiferença em relação à arte. Dizia, por exemplo,
que nenhuma obra-prima européia poderia se comparar em beleza aos arranha-céus
de Nova York (Duchamp, aliás, tornou-se cidadão americano em 1955).
Sua obra se define por essa rejeição às convenções
estéticas. Em contrapartida, as instituições artísticas,
mesmo as de vanguarda, freqüentemente a rejeitaram. Sua tela Nu Descendo
uma Escada foi mal compreendida até entre a patota cubista, que a recusou
em um salão parisiense, em 1912 seu título, que à
época soava jocoso, não cabia na pretensa seriedade do movimento.
No ano seguinte, surgia o primeiro ready-made, uma roda de bicicleta incorporada
a um banco. Duchamp gostava de ter esse objeto em seu estúdio, para observar
os raios da roda em movimento. Em 1917, já em Nova York, o artista rabiscou
sobre um mictório o pseudônimo R. Mutt, deu-lhe o título de
Fonte e inscreveu essa curiosa peça em uma mostra de arte independente
na qual foi, mais uma vez, recusado.
A irreverência de Duchamp não pouparia nem os grandes mestres da
Renascença. Em 1919, ele pintou bigode e cavanhaque em um cartão-postal
da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Era o quadro mais famoso do mundo,
um objeto tão familiar quanto um urinol ou uma pá por que
não transformá-lo também em ready-made? O título dado
à obra é uma sucessão de letras L.H.O.O.Q.
que forma uma frase obscena em francês (o artista era fã de
trocadilhos e jogos verbais). A intervenção sobre a Gioconda foi
deliberadamente infantil: o próprio Duchamp dizia que era como pintar de
preto os dentes de um cartaz. O grande mérito da biografia de Tomkins está
em não sacralizar seu personagem. Duchamp foi, sim, um gênio, como
todos os seus autoproclamados herdeiros não cansam de repetir. O que esses
retardatários muitas vezes não notam é que ele era também
um tremendo zombador.
| Os choques de Marcel Duchamp
 | NU
DESCENDO UMA ESCADA O título irreverente desagradou aos cubistas,
que vetaram a tela numa mostra em Paris, em 1912 | RODA
DE BICICLETA A obra foi o primeiro ready-made do artista, que se entretinha
com ela em seu estúdio L.H.O.O.Q.
A Mona Lisa de bigode e cavanhaque foi criada em 1919. As iniciais do título
formam uma frase obscena em francês
Tate Modern/AFP  | FONTE
O mictório, assinado com o pseudônimo R. Mutt, foi recusado
numa mostra de vanguarda nos Estados Unidos | |
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