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Livros Um
adeus à tradição O ocaso do
Japão ancestral na obra-prima de Tanizaki 
Jerônimo Teixeira
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O título original em japonês
de As Irmãs Makioka (tradução de Leiko Gotoda,
Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro; Estação
Liberdade; 744 páginas; 72 reais) é Sasameyuki, que se traduziria
literalmente como "neve fina". Além de incorporar o fragmento do nome de
uma das personagens, Yukiko, a palavra traz evocações muito apropriadas
ao tema do livro. Diz respeito à última neve do inverno, que derreterá
em breve. É uma metáfora exata para o que Junichiro Tanizaki (1886-1965),
um dos maiores escritores japoneses do século XX, tentou fazer em sua obra-prima:
fixar os últimos momentos de uma época evanescente. O Japão
tradicional das heroínas do livro se esboroa à medida que a ação
do romance, que tem início em 1936, se aproxima da II Guerra Mundial (a
história acaba meses antes do bombardeio japonês a Pearl Harbour).
A beleza da narrativa está no tom elegíaco com que são reconstituídos
os tempos em que as famílias abastadas dos arredores de Osaka viajavam
para Kioto para ver a floração das cerejeiras.
As personagens centrais são quatro irmãs de Kansai, região
que engloba as cidades de Kobe, Kioto e Osaka. O próprio Tanizaki estabeleceu-se
nessa área em 1923, depois que um terremoto destruiu grande parte de sua
Tóquio natal. Essa mudança geográfica corresponde a uma virada
na literatura do autor. Até então um escritor "ocidentalizado",
Tanizaki passou a se interessar pelas tradições de seu país.
A diferença entre a modernidade fria e suja de Tóquio e o ambiente
afetivo e tradicional de Kansai é fundamental em As Irmãs Makioka.
Mas, a despeito de seu viés nostálgico, esse não é
um romance conservador. Tanizaki também mostra como a rigidez da tradição
aprisiona suas personagens, impedidas de buscar a felicidade amorosa por preconceitos
de classe. O drama central do livro diz respeito
a Yukiko, a irmã que, já passando dos 30, não consegue arranjar
um marido. Sucessivos pretendentes são rejeitados por não se encaixarem
nos critérios antiquados dos Makioka. A dócil Yukiko dobra-se a
esses protocolos superados sem protestar. Em oposição a ela, aparece
Taeko, a irmã mais nova, que ensaia uma discreta rebelião contra
os ditames familiares. O contraste entre a irmã "moderna" e a "tradicional",
porém, não é simplista. Os dois pólos se enredam.
Apesar de sua admiração pelos velhos costumes e pela indumentária
japonesa, Yukiko estuda francês e escuta música ocidental. E a descolada
Taeko, embora prefira o vestido ao kimono, cultiva artes japonesas como a dança
e a confecção de bonecas. Tanizaki
tinha especial apreço pelo universo feminino os homens do livro
são pouco mais do que sombras. Há um tênue fundo autobiográfico
na obra: as quatro irmãs foram baseadas na mulher e nas três cunhadas
do autor. Estão ausentes de As Irmãs Makioka as escandalosas
fixações sexuais que caracterizam outras obras de Tanizaki, como
Voragem e Diário de um Velho Louco. O leitor ocidental reencontra
em As Irmãs Makioka certa atmosfera doméstica que conhece
dos livros de uma Jane Austen: rodas de chá dominadas por mulheres cuja
única preocupação parece ser o casamento. É difícil
entender o que poderia haver de ofensivo para o nacionalismo japonês nesse
delicado romance. No entanto, sua publicação em capítulos
por uma revista literária foi suspensa, em 1943, sob a alegação
de que a obra não atendia aos "interesses nacionais". A tradição
japonesa que Tanizaki amava não servia para incitar a expansão imperialista.
Ela só convidava a apreciar a beleza da flor de cerejeira. |