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Religião Novas
armas contra Satã A Igreja Católica
lança no Brasil livro com modificações no ritual do exorcismo
 Sérgio
Martins
Em 1973, o filme O Exorcista causou impacto
ao narrar o embate entre um sacerdote católico e o demônio encarnado
numa garotinha. Se a fita fosse refeita hoje, o ritual executado teria mudanças
significativas. A mais importante delas é que o sacerdote poria ênfase
nos rogos para que o Espírito Santo descesse sobre o corpo e a mente da
vítima. O novo rito prevê a esconjuração do demônio
(veja quadro), mas como um recurso secundário,
ao contrário do que acontecia na fórmula anterior, datada do século
XVII. Essa nova receita é prescrita pelo livro Ritual de Exorcismos
e Outras Súplicas (Paulus; 96 páginas; 28 reais). Lançada
na Itália em 1998 e agora no Brasil, depois de um processo de tradução
que se estendeu por sete anos, a obra estabelece como os sacerdotes católicos
devem proceder em casos de possessão demoníaca. Resultado da renovação
dos rituais católicos iniciada nos anos 60 com o Concílio Vaticano
II, o manual não propõe somente a mudança de uma liturgia
que, a própria Igreja afirma, quase nunca é realizada. Ele reflete
uma nova maneira de falar sobre o Mal aos fiéis, numa resposta católica
a religiões rivais. Marcas da nova filosofia
da Igreja a respeito do exorcismo são a cautela e o ceticismo em relação
aos episódios de possessão. Para as autoridades católicas,
a imensa maioria dos casos é totalmente infundada. "Em mais de trinta anos
de sacerdócio, nunca deparei com uma situação que requeresse
exorcismo de verdade", diz o bispo brasileiro Manoel João Francisco, autor
do prefácio da edição brasileira de Ritual de Exorcismos
e Outras Súplicas. Segundo o novo manual católico, os principais
indicativos de que uma pessoa foi possuída pelo tinhoso seriam falar línguas
com as quais ela nunca teve contato, manifestar conhecimento sobre lugares e saberes
estranhos e apresentar uma força descomunal para seu porte. Ainda assim,
o exorcismo só será considerado como hipótese depois que
a pessoa passar pelo exame de psicólogos e outros especialistas. É
como se a Igreja propusesse uma santa aliança com as ciências médicas.
Oscar
Cabral
 | "XÔ,
CAPETA" Ritual de purificação em culto evangélico:
exorcismo ostensivo |
A desconfiança
em relação aos casos de possessão não significa que
a Igreja tenha relegado a um papel secundário o combate ao demônio
e o ritual de exorcismo. Admitir que o Mal existe e deve ser combatido significa
também reconhecer o poder maior de Deus. Na Bíblia há
menções aos embates com espíritos malignos já no Antigo
Testamento. E o primeiro exorcista propriamente dito foi ninguém menos
do que Jesus Cristo. Em sua nova doutrina sobre o assunto, a Igreja afirma que
o demônio não é somente uma abstração filosófica,
mas uma entidade que existe de fato e está em constante luta contra os
desígnios divinos, ainda que só se manifeste como possessão
em casos raríssimos. Interessa-lhe, contudo, contrapor-se ao que considera
uma tendência de "satanização do cotidiano". Um
aspecto dessa tendência seria o recrudescimento dos cultos demoníacos,
especialmente entre os jovens. Um exemplo é o caso criminal que abalou
a Itália anos atrás. Os integrantes de uma banda metaleira denominada
As Bestas de Satã assassinaram três pessoas uma das vítimas,
por julgarem que seria uma reencarnação da Virgem Maria. Para a
Igreja, o vazio espiritual levaria os jovens a se deixar seduzir pelo satanismo.
A exploração do tema na mídia também causa consternação.
Ele está num filme como Constantine, atualmente em cartaz no Brasil,
em que o herói interpretado por Keanu Reeves é o que se poderia
chamar de exorcista freelancer. Recentemente, a TV inglesa exibiu um exorcismo
"real", enquanto médicos mediam as alterações provocadas
pelo ritual no cérebro da vítima.
Alessandra
Tarantino/AP
 | AULAS
SOBRE O TINHOSO Padres assistem a curso de exorcismo
no Vaticano: possessão como ciência |
Outra
faceta da "satanização do cotidiano" contra a qual a Igreja Católica
tenta se opor é a crença de que qualquer vicissitude pessoal é
resultado da ação do demônio e a conseqüente busca
de amparo ou salvação nos templos. Nas missas do movimento carismático,
no interior do próprio catolicismo, há o chamado exorcismo devocional
momento em que se fazem orações contra as forças maléficas.
Denunciar a ação do diabo é também uma parte importante
do culto das igrejas evangélicas, nas quais o exorcismo é praticado
de maneira ostensiva e na base do "Xô, Capeta!" ou seja, com os xingamentos
contra o diabo e a linguagem colorida que o catolicismo também permitia
usar, e que foi banida pelo novo rito. "Muita gente procura esses cultos porque
atribui problemas pessoais ao diabo. As pessoas terceirizam o Mal", diz o teólogo
Márcio Fabri. A Igreja Católica considera
o exorcismo uma espécie de ciência. O padre que o realiza precisa
ter atributos especiais. Somente um sacerdote que se destaque pela "piedade, ciência,
prudência e integridade de vida" pode realizá-lo e com autorização
expressa do bispo a que responde. Em fevereiro, uma academia do Vaticano foi palco
do primeiro curso oficial sobre exorcismo. Promovida pelos Legionários
de Cristo, uma congregação ultraconservadora, a série de
conferências foi acompanhada por mais de 100 padres e seminaristas. Nenhum
sacerdote brasileiro fez o curso.
Vade
retro Eu te esconjuro, todo e qualquer espírito
imundo, todo e qualquer poder das trevas, todo ataque do adversário
infernal, toda legião, corja e facção diabólica. Em
nome e pela força de nosso Senhor, Jesus Cristo, arranca-te e foge
da Igreja de Deus, das almas criadas à imagem do Criador, e remidas
pelo precioso sangue do Cordeiro divino. Hábil
serpente, nunca mais ouses enganar o gênero humano, perseguir a igreja
de Deus e abalar e joeirar como o trigo os eleitos de Deus Trecho
do Ritual de Exorcismos e Outras
Súplicas | | |