Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Terror dos cartolas

A advogada Gislaine Nunes faz
fortuna ao ajudar os craques
de futebol a romper os contratos
com os clubes


Gabriela Carelli


Claudio Rossi
Gislaine: "Tempo é dinheiro, de preferência muito dinheiro"


"Rápido, rápido. Ponham rodinhas nos pés que os minutos valem ouro, meus benzinhos." É com frases como essa, acompanhadas de um estalar de dedos frenético, que a advogada Gislaine Nunes inicia o expediente em seu escritório, no bairro de Perdizes, em São Paulo. "Tempo é dinheiro, de preferência muito dinheiro!", vai discursando para os funcionários. As "míseras 24 horas", como ela define um dia, parecem realmente exíguas para tudo o que faz essa paulista de Bauru, de 37 anos, que há dez deixou a vida pacata de dona-de-casa do interior para se transformar na mulher mais rica, poderosa e temida do futebol brasileiro. Sua especialidade é defender jogadores que desejam mudar de time mas não conseguem – acham-se presos a contratos que os obrigam a desembolsar pequenas fortunas a título de indenização caso troquem de camisa. Além de livrá-los da multa, ela ainda inverte a situação: o clube é que os acaba indenizando por ter agido de má-fé. Atualmente, ela cuida de 400 processos desse tipo. Nos últimos dez anos, liberou 350 atletas, evitando que os clubes embolsassem 270 milhões de reais dos craques ou dos times que queriam contratá-los. Os cartolas, é claro, preferem ver uma assombração em cores a ouvir falar de Gislaine Nunes.

Entre os clientes atuais de Gislaine, em ações que se arrastam na Justiça, estão os selecionáveis Juninho Pernambucano e Ricardo Oliveira, Luizão, Cicinho e Grafite, do São Paulo, o argentino Ortega e o chileno Maldonado. "São meus meninos, meus bebês", derrete-se a advogada. Eles, por sua vez, a chamam de "mãezinha". Não é para menos. Seus dois celulares vermelho-cintilantes estão sempre à mão para atendê-los mesmo quando o assunto não é ação trabalhista. Se o jogador bate o carro, lá vai Gislaine brigar na polícia. Ela lê livros de auto-ajuda para os pupilos nos momentos difíceis, compra preservativos e os distribui para protegê-los. Os "bebês" retribuem. Com carros, jóias, perfumes... "Está vendo este Cartier aqui?", diz, apontando o relógio. "Ganhei de um dos meus meninos. Os diamantes (brincos e anéis da Tiffany) também."

A verdadeira retribuição, porém, são os honorários que ela cobra, e que já a transformaram numa nova-rica de primeiríssima linha. Gislaine recebe do jogador entre 20% e 30% do valor da multa que ele teria de pagar ao clube no fim do processo. Enquanto a ação corre na Justiça, recebe por hora trabalhada 100 euros – isso mesmo, ela calcula tudo em euros porque tem muitos clientes no futebol europeu. Só de causas em andamento ela tem a receber 40 milhões de reais. "Fiz uma cirurgia de redução de estômago porque a obesidade me incomodava", ela informa. Sumiram, desde então, 51 quilos, o que lhe permitiu comprar 58 terninhos novos, na maioria da grife Giorgio Armani, e ter um personal stylist que a auxilia a percorrer os salões da butique Daslu, a mais cara do Brasil. "Eu sou cara e não nego. Não sou modesta. Sei quanto valho, benzinho."

Gislaine começou a carreira nos anos 90, dentro de casa. Seu marido, o jogador de futebol Evandro Nunes, que passou pela Ponte Preta e pelo Noroeste, sofreu uma lesão no tendão e só arrumava emprego em times pequenos, que raramente pagavam o salário em dia. Formada em direito numa faculdade particular de Bauru, a então dona-de-casa, cansada de dívidas, tirou o diploma do baú. "Tive uma idéia: em vez de recorrer à Justiça Desportiva para receber os salários atrasados, como faziam todos os advogados, decidi levá-lo para a Justiça do Trabalho, pois ele era um trabalhador como outro qualquer", diz. Gislaine ganhou a causa de seu marido, outros jogadores souberam e começaram a procurá-la para resolver o mesmo problema.

Em 1995, Gislaine foi convidada para advogar no Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo. O sucesso veio a partir de 2002, quando Luizão, então do Corinthians, a procurou. Ele se queixava de não receber salário havia cinco meses. A advogada constatou que existia uma irregularidade no contrato do jogador com o clube e convenceu o juiz a liberá-lo do compromisso com o Corinthians. "Gislaine percebeu que os contratos dos jogadores eram elaborados de forma a fraudar a legislação trabalhista e fiscal", diz Marcilio Krieger, membro da comissão de direito esportivo da Ordem dos Advogados do Brasil. "Ela é uma espertalhona que se aproveita do paternalismo da Justiça do Trabalho para ganhar os processos", rebate Roque Citadini, vice-presidente do Corinthians.

Como todo sucesso tem seu preço, há quatro anos Gislaine convive com ameaças de morte, recebe presentes macabros, como pedaços de animais mortos, atende a telefonemas assustadores e anda escoltada por seguranças. Cansada desses sobressaltos, e prevendo que a legislação esportiva irá mudar, encolhendo sua clientela, ela resolveu diversificar os negócios. No ano passado, criou uma empresa de marketing para gerenciar a imagem dos jogadores. De quebra, ajuda-os a investir o dinheiro, a escolher carros, comprar imóveis, renovar seguros e até a pagar as contas do mês. Coisa de mãezona. Entre os clientes da nova empresa estão o goleiro Rogério Ceni, o atacante Robinho, os técnicos Vanderlei Luxemburgo e Zetti. Também fechou parceria com uma firma de marketing esportivo em Lisboa. E não pretende parar por aí. Gislaine pensa em brilhar na televisão, num programa sobre futebol. Ela garante que convites para isso não faltam.

 

Os casos mais valiosos

Em 350 ações, que somam 270 milhões de reais, Gislaine evitou que jogadores pagassem multas por quebra de contrato. Ao lado, os casos que envolveram as cifras mais altas (em reais)

Pascal George/AFP
Beto Barata/AE
JUNINHO PERNAMBUCANO
Foi para o Lyon, da França, e deixou de pagar ao Vasco 62 milhões
LUIZÃO
Hoje no São Paulo, deixou de pagar ao Corinthians 40 milhões


Cristina Quicler/AFP
RICARDO OLIVEIRA
Deixou de pagar à Portuguesa 31 milhões. Está no Betis

 
 
 
 
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