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Perfil Terror
dos cartolas A advogada Gislaine Nunes faz
fortuna ao ajudar os craques de futebol a romper os contratos com os clubes

Gabriela Carelli
Claudio Rossi  |
| Gislaine: "Tempo é dinheiro, de preferência muito dinheiro"
| "Rápido, rápido.
Ponham rodinhas nos pés que os minutos valem ouro, meus benzinhos." É
com frases como essa, acompanhadas de um estalar de dedos frenético, que
a advogada Gislaine Nunes inicia o expediente em seu escritório, no bairro
de Perdizes, em São Paulo. "Tempo é dinheiro, de preferência
muito dinheiro!", vai discursando para os funcionários. As "míseras
24 horas", como ela define um dia, parecem realmente exíguas para tudo
o que faz essa paulista de Bauru, de 37 anos, que há dez deixou a vida
pacata de dona-de-casa do interior para se transformar na mulher mais rica, poderosa
e temida do futebol brasileiro. Sua especialidade é defender jogadores
que desejam mudar de time mas não conseguem acham-se presos a contratos
que os obrigam a desembolsar pequenas fortunas a título de indenização
caso troquem de camisa. Além de livrá-los da multa, ela ainda inverte
a situação: o clube é que os acaba indenizando por ter agido
de má-fé. Atualmente, ela cuida de 400 processos desse tipo. Nos
últimos dez anos, liberou 350 atletas, evitando que os clubes embolsassem
270 milhões de reais dos craques ou dos times que queriam contratá-los.
Os cartolas, é claro, preferem ver uma assombração em cores
a ouvir falar de Gislaine Nunes.
Entre os clientes
atuais de Gislaine, em ações que se arrastam na Justiça,
estão os selecionáveis Juninho Pernambucano e Ricardo Oliveira,
Luizão, Cicinho e Grafite, do São Paulo, o argentino Ortega e o
chileno Maldonado. "São meus meninos, meus bebês", derrete-se a advogada.
Eles, por sua vez, a chamam de "mãezinha". Não é para menos.
Seus dois celulares vermelho-cintilantes estão sempre à mão
para atendê-los mesmo quando o assunto não é ação
trabalhista. Se o jogador bate o carro, lá vai Gislaine brigar na polícia.
Ela lê livros de auto-ajuda para os pupilos nos momentos difíceis,
compra preservativos e os distribui para protegê-los. Os "bebês" retribuem.
Com carros, jóias, perfumes... "Está vendo este Cartier aqui?",
diz, apontando o relógio. "Ganhei de um dos meus meninos. Os diamantes
(brincos e anéis da Tiffany) também."
A verdadeira retribuição, porém,
são os honorários que ela cobra, e que já a transformaram
numa nova-rica de primeiríssima linha. Gislaine recebe do jogador entre
20% e 30% do valor da multa que ele teria de pagar ao clube no fim do processo.
Enquanto a ação corre na Justiça, recebe por hora trabalhada
100 euros isso mesmo, ela calcula tudo em euros porque tem muitos clientes
no futebol europeu. Só de causas em andamento ela tem a receber 40 milhões
de reais. "Fiz uma cirurgia de redução de estômago porque
a obesidade me incomodava", ela informa. Sumiram, desde então, 51 quilos,
o que lhe permitiu comprar 58 terninhos novos, na maioria da grife Giorgio Armani,
e ter um personal stylist que a auxilia a percorrer os salões da butique
Daslu, a mais cara do Brasil. "Eu sou cara e não nego. Não sou modesta.
Sei quanto valho, benzinho." Gislaine começou
a carreira nos anos 90, dentro de casa. Seu marido, o jogador de futebol Evandro
Nunes, que passou pela Ponte Preta e pelo Noroeste, sofreu uma lesão no
tendão e só arrumava emprego em times pequenos, que raramente pagavam
o salário em dia. Formada em direito numa faculdade particular de Bauru,
a então dona-de-casa, cansada de dívidas, tirou o diploma do baú.
"Tive uma idéia: em vez de recorrer à Justiça Desportiva
para receber os salários atrasados, como faziam todos os advogados, decidi
levá-lo para a Justiça do Trabalho, pois ele era um trabalhador
como outro qualquer", diz. Gislaine ganhou a causa de seu marido, outros jogadores
souberam e começaram a procurá-la para resolver o mesmo problema.
Em 1995, Gislaine foi convidada para advogar no
Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo. O sucesso veio a partir
de 2002, quando Luizão, então do Corinthians, a procurou. Ele se
queixava de não receber salário havia cinco meses. A advogada constatou
que existia uma irregularidade no contrato do jogador com o clube e convenceu
o juiz a liberá-lo do compromisso com o Corinthians. "Gislaine percebeu
que os contratos dos jogadores eram elaborados de forma a fraudar a legislação
trabalhista e fiscal", diz Marcilio Krieger, membro da comissão de direito
esportivo da Ordem dos Advogados do Brasil. "Ela é uma espertalhona que
se aproveita do paternalismo da Justiça do Trabalho para ganhar os processos",
rebate Roque Citadini, vice-presidente do Corinthians.
Como todo sucesso tem seu preço, há quatro anos Gislaine convive
com ameaças de morte, recebe presentes macabros, como pedaços de
animais mortos, atende a telefonemas assustadores e anda escoltada por seguranças.
Cansada desses sobressaltos, e prevendo que a legislação esportiva
irá mudar, encolhendo sua clientela, ela resolveu diversificar os negócios.
No ano passado, criou uma empresa de marketing para gerenciar a imagem dos jogadores.
De quebra, ajuda-os a investir o dinheiro, a escolher carros, comprar imóveis,
renovar seguros e até a pagar as contas do mês. Coisa de mãezona.
Entre os clientes da nova empresa estão o goleiro Rogério Ceni,
o atacante Robinho, os técnicos Vanderlei Luxemburgo e Zetti. Também
fechou parceria com uma firma de marketing esportivo em Lisboa. E não pretende
parar por aí. Gislaine pensa em brilhar na televisão, num programa
sobre futebol. Ela garante que convites para isso não faltam.
| Os casos mais valiosos Em
350 ações, que somam 270 milhões de reais, Gislaine evitou
que jogadores pagassem multas por quebra de contrato. Ao lado, os casos que envolveram
as cifras mais altas (em reais)
Pascal George/AFP  | Beto
Barata/AE  |
JUNINHO PERNAMBUCANO
Foi para o Lyon, da França, e deixou de pagar ao Vasco 62 milhões
| LUIZÃO Hoje no São
Paulo, deixou de pagar ao Corinthians 40 milhões |
Cristina Quicler/AFP  | RICARDO
OLIVEIRA Deixou de pagar à Portuguesa 31 milhões. Está
no Betis | | | |