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Beleza A
miragem do supercreme Avanços no conhecimento
sobre o envelhecimento da pele renovam a esperança na criação
de um produto que acabe de vez com as rugas  Anna
Paula Buchalla
Um grupo de físicos da
Universidade Clarkson, nos Estados Unidos, anunciou uma descoberta que deve causar
uma reviravolta na indústria de cosméticos: a de como as células
da pele envelhecem por dentro. O que se sabia até então era de que
forma elas envelheciam por fora. Eles constataram que, conforme o tempo passa,
ocorre um enrijecimento da estrutura responsável por manter a integridade
da célula, o citoesqueleto. Antes se acreditava que só o líquido
existente entre elas endurecia. Chamado de matriz extracelular e composto principalmente
de fibras e lipídios, esse líquido é responsável pela
comunicação entre as células e o aporte de nutrientes para
cada uma delas. O seu endurecimento leva a que a pele fique mais fibrosa e, portanto,
mais áspera e menos elástica. "A grande maioria dos cosméticos
antiidade atuais age no fluxo de substâncias que estão ao redor das
células", diz Emiro Khury, consultor da indústria de cosméticos.
Os tratamentos contra a perda de elasticidade visam a imitar a ação
desse líquido e, com isso, otimizar as funções celulares
sobretudo no que se refere ao aumento da síntese de colágeno
e elastina, as fibras de sustentação da pele. Com a nova descoberta,
está dado o tiro de largada para a criação de produtos capazes
de atuar nos dois níveis dentro e fora da célula. Os pesquisadores
da Universidade Clarkson saíram na frente: já patentearam uma fórmula
(secretíssima) que deve chegar ao mercado em menos de um ano. "Por enquanto,
só podemos dizer que ela é capaz de 'amolecer' o esqueleto enrijecido
das células velhas e, assim, diminuir as rugas", disse a VEJA o físico
Igor Sokolov, um dos autores do estudo. Há
apenas dois anos os estudiosos começaram a voltar sua atenção
para o que acontece no interior das células da pele que as faz envelhecer.
A descoberta americana é conseqüência dessa linha de pesquisa.
Num primeiro momento, os cremes surgidos a partir daí passaram a atuar
no processo de divisão celular. Isso porque já se sabia que, a cada
vez que uma célula se divide, ela perde conteúdo genético
e parte de seu DNA acaba sendo desativada. A perda de informações
genéticas equivale a uma perda de juventude o que leva ao endurecimento
do citoesqueleto, como agora se sabe. O professor Sokolov e sua equipe estão
utilizando a técnica de microscópio de força atômica
para estudar doenças associadas ao envelhecimento celular. O equipamento,
normalmente usado em pesquisas de física, permite vasculhar a superfície
de átomos e moléculas tocando-os com uma agulha finíssima.
Graças a essa técnica microscópica, os cientistas puderam
notar que, após várias divisões, as células delas
surgidas eram de duas a dez vezes mais rijas do que as anteriores.
A corrida pela criação de produtos com o poder de apagar as marcas
do tempo e diminuir o ritmo do processo de envelhecimento foi intensificada a
partir dos anos 80. Nessa década surgiram os primeiros tratamentos capazes
de agir nas camadas mais profundas da pele. O mais revolucionário foi o
ácido retinóico, um derivado da vitamina A encontrado até
hoje nos principais compostos antiidade. O ácido retinóico estimula
a produção de colágeno, fibra que dá sustentação
à pele. Depois dele, apareceu o ácido glicólico, extraído
da cana-de-açúcar e com ação mais branda. Mais recentemente,
a indústria passou a investir nos antioxidantes, com a constatação
de que vitaminas como a C e a E impedem ou minimizam a ação de radicais
livres, que aceleram o processo de envelhecimento e favorecem o aparecimento das
rugas. Na base da geração mais recente
de cosméticos estão nanopartículas que funcionam como uma
espécie de elevador e carregam as substâncias rejuvenescedoras até
as regiões mais recônditas da epiderme. Graças a essa propriedade,
os nanocosméticos conseguem agir na camada basal, considerada o berço
das células da epiderme. Eles melhoram a qualidade das células na
sua formação, retardando o envelhecimento da pele. É na camada
basal que também estão as fibras musculares que, ao se contrair,
ajudam a formar as linhas e rugas de expressão. "Esses ativos não
perdem a sua importância com as descobertas dos pesquisadores de Clarkson",
diz o dermatologista Humberto Antonio Ponzio, professor da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. "O que teremos é, além deles, mais uma frente
de atuação contra o envelhecimento." Enquanto o supercreme não
vem (se é que ele virá), anote aí qual é a outra aposta
dos fabricantes de cosméticos: a soja. Descobriu-se que o grão não
só combate o envelhecimento, mas ajuda a clarear manchas da pele e a inibir
o crescimento de pêlos.
Melhor que o Botox? Quem
já testou garante que as rugas diminuem drasticamente. Quem ainda não
tem está enlouquecido na fila das importadoras para garantir o seu pote.
O creme do laboratório americano Klein-Becker chama-se StriVectin e tem
uma história curiosa. Produzido com o objetivo de minimizar as estrias
(principalmente das mulheres que acabaram de ter filhos), ele foi distribuído
na fase de testes pelo fabricante a algumas consumidoras. Boa parte delas nem
se deu ao trabalho de ler as instruções de uso. Por força
do hábito, levaram o produto direto ao rosto. Quando os pesquisadores colhiam
as opiniões, ficaram surpresos ao descobrir que muitas relataram uma melhora
impressionante nas rugas. Nos Estados Unidos, o creme virou febre absoluta. É
vendido em grandes redes como Neiman Marcus, Bloomingdale's e Saks, onde costuma
esgotar-se toda semana. As importadoras brasileiras estão abarrotadas de
pedidos. O tubo de 170 gramas custa 135 dólares, cerca de 400 reais.
No ano passado, as vendas do StriVectin alcançaram 64 milhões de
dólares nas lojas de departamentos americanas, mais do que qualquer outro
produto para cuidados com a pele. Num lance ousado, o fabricante lançou
uma campanha com a pergunta "Melhor do que o Botox?". Trata-se de uma aproximação
espertíssima, que visa a vender o StriVectin como o sucessor dessa praga
universal que se tornou a toxina botulínica uma estratégia
de marketing usada também em relação a outros cremes, como
o Serotox, Protox e Hydroderm. Praga, sim. No Brasil, surgiu até uma modalidade
chamada "caravana do Botox". Grupos se organizam, fretam uma van ou um
microônibus e vão até uma clínica, algumas vezes
em cidades vizinhas, onde as injeções custam mais barato. O país
é o segundo do ranking de aplicações só perde
para os Estados Unidos, onde elas lideram a lista dos procedimentos não
cirúrgicos: mais de 2,8 milhões por ano. Juntamente com as rugas,
o Botox parece ter abolido o senso de ridículo. Basta ver a legião
de homens e mulheres que desfilam por aí com olhos e bocas repuxados, sem
nenhuma expressão no rosto. Pior do que o Botox o tal StriVectin não
deve ser.  | | Anúncios
de cremes que simulam os efeitos do Botox: mercado milionário |
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