Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Beleza
A miragem do supercreme

Avanços no conhecimento sobre
o envelhecimento da pele renovam
a esperança na criação de um produto
que acabe de vez com as rugas


Anna Paula Buchalla

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Beleza e
Boa Forma

Um grupo de físicos da Universidade Clarkson, nos Estados Unidos, anunciou uma descoberta que deve causar uma reviravolta na indústria de cosméticos: a de como as células da pele envelhecem por dentro. O que se sabia até então era de que forma elas envelheciam por fora. Eles constataram que, conforme o tempo passa, ocorre um enrijecimento da estrutura responsável por manter a integridade da célula, o citoesqueleto. Antes se acreditava que só o líquido existente entre elas endurecia. Chamado de matriz extracelular e composto principalmente de fibras e lipídios, esse líquido é responsável pela comunicação entre as células e o aporte de nutrientes para cada uma delas. O seu endurecimento leva a que a pele fique mais fibrosa e, portanto, mais áspera e menos elástica. "A grande maioria dos cosméticos antiidade atuais age no fluxo de substâncias que estão ao redor das células", diz Emiro Khury, consultor da indústria de cosméticos. Os tratamentos contra a perda de elasticidade visam a imitar a ação desse líquido e, com isso, otimizar as funções celulares – sobretudo no que se refere ao aumento da síntese de colágeno e elastina, as fibras de sustentação da pele. Com a nova descoberta, está dado o tiro de largada para a criação de produtos capazes de atuar nos dois níveis – dentro e fora da célula. Os pesquisadores da Universidade Clarkson saíram na frente: já patentearam uma fórmula (secretíssima) que deve chegar ao mercado em menos de um ano. "Por enquanto, só podemos dizer que ela é capaz de 'amolecer' o esqueleto enrijecido das células velhas e, assim, diminuir as rugas", disse a VEJA o físico Igor Sokolov, um dos autores do estudo.

Há apenas dois anos os estudiosos começaram a voltar sua atenção para o que acontece no interior das células da pele que as faz envelhecer. A descoberta americana é conseqüência dessa linha de pesquisa. Num primeiro momento, os cremes surgidos a partir daí passaram a atuar no processo de divisão celular. Isso porque já se sabia que, a cada vez que uma célula se divide, ela perde conteúdo genético e parte de seu DNA acaba sendo desativada. A perda de informações genéticas equivale a uma perda de juventude – o que leva ao endurecimento do citoesqueleto, como agora se sabe. O professor Sokolov e sua equipe estão utilizando a técnica de microscópio de força atômica para estudar doenças associadas ao envelhecimento celular. O equipamento, normalmente usado em pesquisas de física, permite vasculhar a superfície de átomos e moléculas tocando-os com uma agulha finíssima. Graças a essa técnica microscópica, os cientistas puderam notar que, após várias divisões, as células delas surgidas eram de duas a dez vezes mais rijas do que as anteriores.

A corrida pela criação de produtos com o poder de apagar as marcas do tempo e diminuir o ritmo do processo de envelhecimento foi intensificada a partir dos anos 80. Nessa década surgiram os primeiros tratamentos capazes de agir nas camadas mais profundas da pele. O mais revolucionário foi o ácido retinóico, um derivado da vitamina A encontrado até hoje nos principais compostos antiidade. O ácido retinóico estimula a produção de colágeno, fibra que dá sustentação à pele. Depois dele, apareceu o ácido glicólico, extraído da cana-de-açúcar e com ação mais branda. Mais recentemente, a indústria passou a investir nos antioxidantes, com a constatação de que vitaminas como a C e a E impedem ou minimizam a ação de radicais livres, que aceleram o processo de envelhecimento e favorecem o aparecimento das rugas.

Na base da geração mais recente de cosméticos estão nanopartículas que funcionam como uma espécie de elevador e carregam as substâncias rejuvenescedoras até as regiões mais recônditas da epiderme. Graças a essa propriedade, os nanocosméticos conseguem agir na camada basal, considerada o berço das células da epiderme. Eles melhoram a qualidade das células na sua formação, retardando o envelhecimento da pele. É na camada basal que também estão as fibras musculares que, ao se contrair, ajudam a formar as linhas e rugas de expressão. "Esses ativos não perdem a sua importância com as descobertas dos pesquisadores de Clarkson", diz o dermatologista Humberto Antonio Ponzio, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "O que teremos é, além deles, mais uma frente de atuação contra o envelhecimento." Enquanto o supercreme não vem (se é que ele virá), anote aí qual é a outra aposta dos fabricantes de cosméticos: a soja. Descobriu-se que o grão não só combate o envelhecimento, mas ajuda a clarear manchas da pele e a inibir o crescimento de pêlos.

 

 

Melhor que o Botox?

Quem já testou garante que as rugas diminuem drasticamente. Quem ainda não tem está enlouquecido na fila das importadoras para garantir o seu pote. O creme do laboratório americano Klein-Becker chama-se StriVectin e tem uma história curiosa. Produzido com o objetivo de minimizar as estrias (principalmente das mulheres que acabaram de ter filhos), ele foi distribuído na fase de testes pelo fabricante a algumas consumidoras. Boa parte delas nem se deu ao trabalho de ler as instruções de uso. Por força do hábito, levaram o produto direto ao rosto. Quando os pesquisadores colhiam as opiniões, ficaram surpresos ao descobrir que muitas relataram uma melhora impressionante nas rugas. Nos Estados Unidos, o creme virou febre absoluta. É vendido em grandes redes como Neiman Marcus, Bloomingdale's e Saks, onde costuma esgotar-se toda semana. As importadoras brasileiras estão abarrotadas de pedidos. O tubo de 170 gramas custa 135 dólares, cerca de 400 reais.

No ano passado, as vendas do StriVectin alcançaram 64 milhões de dólares nas lojas de departamentos americanas, mais do que qualquer outro produto para cuidados com a pele. Num lance ousado, o fabricante lançou uma campanha com a pergunta "Melhor do que o Botox?". Trata-se de uma aproximação espertíssima, que visa a vender o StriVectin como o sucessor dessa praga universal que se tornou a toxina botulínica – uma estratégia de marketing usada também em relação a outros cremes, como o Serotox, Protox e Hydroderm. Praga, sim. No Brasil, surgiu até uma modalidade chamada "caravana do Botox". Grupos se organizam, fretam uma van – ou um microônibus – e vão até uma clínica, algumas vezes em cidades vizinhas, onde as injeções custam mais barato. O país é o segundo do ranking de aplicações – só perde para os Estados Unidos, onde elas lideram a lista dos procedimentos não cirúrgicos: mais de 2,8 milhões por ano. Juntamente com as rugas, o Botox parece ter abolido o senso de ridículo. Basta ver a legião de homens e mulheres que desfilam por aí com olhos e bocas repuxados, sem nenhuma expressão no rosto. Pior do que o Botox o tal StriVectin não deve ser.

 

Anúncios de cremes que simulam os efeitos do Botox: mercado milionário
 
 
 
 
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