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Humor Pequena
abusada Uma caixa reúne os oito números
de Pif Paf, revista que teve vida curta mas entrou para a história
 Marcelo
Carneiro
Tasso
Marcelo/AE
 | | Millôr
e duas capas da revista Pif Paf: "Estamos vendendo idéias" |
Em agosto de 1964, cinco meses após o início do regime militar e
com apenas oito números, um editorial de Pif Paf alertava: "Se o
governo continuar deixando que circule esta revista, com toda a sua irreverência
e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia". Foi o suficiente
para que tivessem fim o primeiro tablóide do jornalismo carioca e a curta
carreira do humorista Millôr Fernandes como dono de revista. Pif Paf
teve existência breve e pequena tiragem apenas 20.000 exemplares
, mas influenciou todos os jornais da imprensa alternativa que viriam em
seguida, inclusive o mais bem-sucedido deles, O Pasquim. Pelas quatro décadas
seguintes, seus raros exemplares tornaram-se peça de colecionador. Agora,
poderão ser vistos em conjunto em Pif Paf (Argumento; 80 reais),
uma caixa que traz as oito edições e textos de apresentação
de alguns dos colaboradores da revista, entre eles os cartunistas Ziraldo e Claudius
e o próprio Millôr, hoje colaborador de VEJA.
Ao contrário de boa parte do que se produziu na imprensa alternativa nos
anos 60 e 70, Pif Paf não cheira a mofo. Suas capas.(como as duas
reproduzidas nesta página) aliavam humor cáustico e projeto gráfico
moderno, criação do austríaco Eugênio Hirsch, "um maluco
fora de série que detestava a Áustria", na definição
do próprio Millôr. A publicação nasceu da demissão
do humorista das páginas de O Cruzeiro, principal revista da época,
na qual trabalhou por 25 anos e da qual saiu por ter escrito uma irreverente Verdadeira
História do Paraíso, atraindo a ira de conservadores católicos.
Desempregado, mas contando com a ajuda de amigos e de um empréstimo bancário,
Millôr foi à luta e transformou em revista sua coluna em O Cruzeiro,
que também tinha o nome de Pif Paf.
O ar mambembe "Muita gente reclamou do papel de nosso primeiro número.
Não estamos vendendo papel, estamos vendendo idéias", dizia um dos
editoriais não impediu que o tablóide incomodasse o regime
militar. Em suas páginas, nem o general Castello Branco, recém-empossado
presidente de um regime linha-dura, escapou de virar piada. Um documento oficial
da área de inteligência do Exército classificou a revista
como primeiro exemplo de imprensa alternativa e seu dono como "esquerdista"
rótulo que causa urticária a Millôr. "Nunca fiz nada por ideologia,
até hoje não sei o que quer dizer esquerdista e tenho horror a ser
herói", diz o humorista. Isso não impediu que Millôr fosse
chamado várias vezes para depor sobre Pif Paf e, pressionado também
por uma dívida crescente, abandonasse o projeto. Foram apenas quatro meses
e oito números. Mas divertiram e irritaram o bastante para
entrar na história. |