Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Humor
Pequena abusada

Uma caixa reúne os oito números
de Pif Paf, revista que teve vida curta
– mas entrou para a história


Marcelo Carneiro

 

Tasso Marcelo/AE
Millôr e duas capas da revista Pif Paf: "Estamos vendendo idéias"

Em agosto de 1964, cinco meses após o início do regime militar e com apenas oito números, um editorial de Pif Paf alertava: "Se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda a sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia". Foi o suficiente para que tivessem fim o primeiro tablóide do jornalismo carioca e a curta carreira do humorista Millôr Fernandes como dono de revista. Pif Paf teve existência breve e pequena tiragem – apenas 20.000 exemplares –, mas influenciou todos os jornais da imprensa alternativa que viriam em seguida, inclusive o mais bem-sucedido deles, O Pasquim. Pelas quatro décadas seguintes, seus raros exemplares tornaram-se peça de colecionador. Agora, poderão ser vistos em conjunto em Pif Paf (Argumento; 80 reais), uma caixa que traz as oito edições e textos de apresentação de alguns dos colaboradores da revista, entre eles os cartunistas Ziraldo e Claudius e o próprio Millôr, hoje colaborador de VEJA.

Ao contrário de boa parte do que se produziu na imprensa alternativa nos anos 60 e 70, Pif Paf não cheira a mofo. Suas capas.(como as duas reproduzidas nesta página) aliavam humor cáustico e projeto gráfico moderno, criação do austríaco Eugênio Hirsch, "um maluco fora de série que detestava a Áustria", na definição do próprio Millôr. A publicação nasceu da demissão do humorista das páginas de O Cruzeiro, principal revista da época, na qual trabalhou por 25 anos e da qual saiu por ter escrito uma irreverente Verdadeira História do Paraíso, atraindo a ira de conservadores católicos. Desempregado, mas contando com a ajuda de amigos e de um empréstimo bancário, Millôr foi à luta e transformou em revista sua coluna em O Cruzeiro, que também tinha o nome de Pif Paf.

O ar mambembe – "Muita gente reclamou do papel de nosso primeiro número. Não estamos vendendo papel, estamos vendendo idéias", dizia um dos editoriais – não impediu que o tablóide incomodasse o regime militar. Em suas páginas, nem o general Castello Branco, recém-empossado presidente de um regime linha-dura, escapou de virar piada. Um documento oficial da área de inteligência do Exército classificou a revista como primeiro exemplo de imprensa alternativa e seu dono como "esquerdista" – rótulo que causa urticária a Millôr. "Nunca fiz nada por ideologia, até hoje não sei o que quer dizer esquerdista e tenho horror a ser herói", diz o humorista. Isso não impediu que Millôr fosse chamado várias vezes para depor sobre Pif Paf e, pressionado também por uma dívida crescente, abandonasse o projeto. Foram apenas quatro meses e oito números. Mas divertiram – e irritaram – o bastante para entrar na história.

 
 
 
 
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