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Arquitetura
Ele aceita pechinchar Herdeiro
do idealismo dos anos 60, o americano Thom Mayne traz uma alternativa à
arquitetura-espetáculo  Isabela
Boscov
Entre os nomes que nos últimos tempos se celebrizaram na arquitetura contemporânea,
nove em cada dez são adeptos do edifício-espetáculo
como o Museu Guggenheim de Bilbao, com suas formas improváveis recobertas
de titânio, projetadas pelo americano Frank Gehry, ou a pirâmide de
vidro do Museu do Louvre criada pelo sino-americano Ieoh Ming Pei, que dividiu
os parisienses em "contra" e "a favor" durante anos, até que eles se habituassem
à interferência (como quer o jargão) na paisagem. Projetos
como esses têm a função explícita de chamar atenção
para si e por isso atraem visitantes e também renda, o que justifica
seu financiamento sempre astronômico. Mas esse tipo de arquitetura suscita
outros problemas além da conta salgada, que poucos governos ou empresas
são capazes de bancar. Ela nem sempre se preocupa em ser funcional e, mais
do que se harmonizar com seu entorno ou, quando for o caso, melhorá-lo,
freqüentemente colide com ele. Beleza e impacto acima de tudo, e o restante
num distinto segundo lugar assim poderia descrever-se o lema implícito
dessa arquitetura. Agora, porém, acaba de ganhar destaque inesperado um
profissional que vem propondo soluções para acomodar de forma equilibrada
sem deixar de ser arrojada ou bela todas essas variáveis.
Há duas semanas, Thom Mayne, um relativo desconhecido em comparação
com figuras como Gehry, Pei ou Richard Meier, tornou-se o oitavo americano, e
o primeiro após um intervalo de catorze anos, a receber o Prêmio
Pritzker de Arquitetura, a honraria máxima da área.
Mayne é uma ave rara no seu meio: um arquiteto de vanguarda que gasta relativamente
pouco, constrói edifícios perfeitamente funcionais, acolhedores
e aí está a razão maior de seu sucesso que
compõem uma extensão vibrante do ambiente em que se encontram. É
o caso da escola pública Diamond Ranch, na cidade de Pomona, na Califórnia.
Encravada num terreno tão acidentado que era tido como inaproveitável,
ela toma o formato de um cânion sinuoso, como os muitos da região.
No lugar de barrancos, há blocos de concreto sustentados por uma estrutura
de metal e revestidos de aço corrugado, que tombam em ângulos insólitos
sobre um "vale" o pátio pelo qual circulam os estudantes. O efeito
geral é belo, inusitado e não tem nada de arbitrário. Concluído
em 1999, o complexo reproduz o relevo no qual se encaixa e também brinca
com ele, como se os blocos tivessem sido remexidos por um terremoto. É
por causa de propostas como essa que Mayne se tornou um novo favorito para projetos
públicos nos Estados Unidos (como a Vila Olímpica de Nova York,
cujo plano principal será executado mesmo que a cidade não seja
eleita sede dos Jogos de 2012) e em países como Áustria, Espanha
e Coréia. Aos 61 anos, Mayne ainda é
considerado uma espécie de enfant terrible. É um criador
instintivo e personalíssimo, que defende com unhas e dentes a idéia
de que a arquitetura deve promover a integração de quem usufrui
dela. A beleza, para Mayne, não é meta, mas conseqüência.
Só à primeira vista, portanto, seus volumes magistrais têm
algum parentesco com os de seus colegas mais famosos. Um dos melhores exemplos
da filosofia de Mayne está no edifício Caltrans District 7, que
serve de sede ao Departamento de Transporte de Los Angeles. No meio da monotonia
e impessoalidade dos arranha-céus do centro da cidade, ele ergueu uma estrutura
que varia entre treze e três andares de altura, com uma gigantesca praça
interna e uma "pele" de metal perfurado, cujos poros se abrem à medida
que a luz do sol desaparece. À noite, quando todos os néons vermelhos
do interior do edifício estão acesos e visíveis também
pelo seu exterior, quem bate os olhos nele pensa estar vendo uma via expressa.
Quase todos os projetos de Mayne têm essa
dose de brincadeira, mas seus propósitos são dos mais sérios.
A exemplo do modelo que também a Vila Olímpica de Nova York seguirá,
o Caltrans permite reformulações, para se adequar à dinâmica
de uma cidade grande, e se espalha de forma a abraçar as ruas e construções
à sua volta. Por causa dessa visão arquitetônica e urbanística,
ele já constitui um dos nortes para a futura remodelação
do centro de Los Angeles. Mayne, enfim, está na ponta de uma tendência
forte na arquitetura, a de combinar rigor com inventividade numa atualização
da utopia modernista dos anos 30 e 40. Numa coisa, porém, é improvável
que seus colegas o tomem como exemplo em sua boa vontade para aceitar regateios
de clientes. Com todos os seus desafios construtivos, a escola Diamond Ranch saiu
por 28 milhões de dólares, e o Caltrans ficou em 170 milhões.
Ou seja, 100 milhões a menos do que a quantia despejada no Walt Disney
Concert Hall de Frank Gehry, não muito longe dali. |