Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Arquitetura
Ele aceita pechinchar

Herdeiro do idealismo dos anos 60,
o americano Thom Mayne traz uma
alternativa à arquitetura-espetáculo


Isabela Boscov

 
Morphosis
A escola Diamond Ranch, que imita um cânion, e o Departamento de Transporte, em Los Angeles, que à noite lembra uma via expressa: aos 61 anos, Mayne (abaixo, à dir.) ainda é um enfant terrible

The New York Times

Ric Francis/AP

Entre os nomes que nos últimos tempos se celebrizaram na arquitetura contemporânea, nove em cada dez são adeptos do edifício-espetáculo – como o Museu Guggenheim de Bilbao, com suas formas improváveis recobertas de titânio, projetadas pelo americano Frank Gehry, ou a pirâmide de vidro do Museu do Louvre criada pelo sino-americano Ieoh Ming Pei, que dividiu os parisienses em "contra" e "a favor" durante anos, até que eles se habituassem à interferência (como quer o jargão) na paisagem. Projetos como esses têm a função explícita de chamar atenção para si – e por isso atraem visitantes e também renda, o que justifica seu financiamento sempre astronômico. Mas esse tipo de arquitetura suscita outros problemas além da conta salgada, que poucos governos ou empresas são capazes de bancar. Ela nem sempre se preocupa em ser funcional e, mais do que se harmonizar com seu entorno ou, quando for o caso, melhorá-lo, freqüentemente colide com ele. Beleza e impacto acima de tudo, e o restante num distinto segundo lugar – assim poderia descrever-se o lema implícito dessa arquitetura. Agora, porém, acaba de ganhar destaque inesperado um profissional que vem propondo soluções para acomodar de forma equilibrada – sem deixar de ser arrojada ou bela – todas essas variáveis. Há duas semanas, Thom Mayne, um relativo desconhecido em comparação com figuras como Gehry, Pei ou Richard Meier, tornou-se o oitavo americano, e o primeiro após um intervalo de catorze anos, a receber o Prêmio Pritzker de Arquitetura, a honraria máxima da área.

Mayne é uma ave rara no seu meio: um arquiteto de vanguarda que gasta relativamente pouco, constrói edifícios perfeitamente funcionais, acolhedores e – aí está a razão maior de seu sucesso – que compõem uma extensão vibrante do ambiente em que se encontram. É o caso da escola pública Diamond Ranch, na cidade de Pomona, na Califórnia. Encravada num terreno tão acidentado que era tido como inaproveitável, ela toma o formato de um cânion sinuoso, como os muitos da região. No lugar de barrancos, há blocos de concreto sustentados por uma estrutura de metal e revestidos de aço corrugado, que tombam em ângulos insólitos sobre um "vale" – o pátio pelo qual circulam os estudantes. O efeito geral é belo, inusitado e não tem nada de arbitrário. Concluído em 1999, o complexo reproduz o relevo no qual se encaixa e também brinca com ele, como se os blocos tivessem sido remexidos por um terremoto. É por causa de propostas como essa que Mayne se tornou um novo favorito para projetos públicos nos Estados Unidos (como a Vila Olímpica de Nova York, cujo plano principal será executado mesmo que a cidade não seja eleita sede dos Jogos de 2012) e em países como Áustria, Espanha e Coréia.

Aos 61 anos, Mayne ainda é considerado uma espécie de enfant terrible. É um criador instintivo e personalíssimo, que defende com unhas e dentes a idéia de que a arquitetura deve promover a integração de quem usufrui dela. A beleza, para Mayne, não é meta, mas conseqüência. Só à primeira vista, portanto, seus volumes magistrais têm algum parentesco com os de seus colegas mais famosos. Um dos melhores exemplos da filosofia de Mayne está no edifício Caltrans District 7, que serve de sede ao Departamento de Transporte de Los Angeles. No meio da monotonia e impessoalidade dos arranha-céus do centro da cidade, ele ergueu uma estrutura que varia entre treze e três andares de altura, com uma gigantesca praça interna e uma "pele" de metal perfurado, cujos poros se abrem à medida que a luz do sol desaparece. À noite, quando todos os néons vermelhos do interior do edifício estão acesos e visíveis também pelo seu exterior, quem bate os olhos nele pensa estar vendo uma via expressa.

Quase todos os projetos de Mayne têm essa dose de brincadeira, mas seus propósitos são dos mais sérios. A exemplo do modelo que também a Vila Olímpica de Nova York seguirá, o Caltrans permite reformulações, para se adequar à dinâmica de uma cidade grande, e se espalha de forma a abraçar as ruas e construções à sua volta. Por causa dessa visão arquitetônica e urbanística, ele já constitui um dos nortes para a futura remodelação do centro de Los Angeles. Mayne, enfim, está na ponta de uma tendência forte na arquitetura, a de combinar rigor com inventividade numa atualização da utopia modernista dos anos 30 e 40. Numa coisa, porém, é improvável que seus colegas o tomem como exemplo – em sua boa vontade para aceitar regateios de clientes. Com todos os seus desafios construtivos, a escola Diamond Ranch saiu por 28 milhões de dólares, e o Caltrans ficou em 170 milhões. Ou seja, 100 milhões a menos do que a quantia despejada no Walt Disney Concert Hall de Frank Gehry, não muito longe dali.

 
 
 
 
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