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Especial Um
adeus com dor O terceiro pontificado mais longo de
todos os tempos chegou a seu término com uma exposição pública
de dor jamais vista na história da Igreja Católica. Houve um sentido
nisso. Paralisado e silenciado pela doença de Parkinson, João Paulo
II transubstanciou seu calvário particular numa mensagem universal: a de
que não existe redenção sem sofrimento. É a mensagem
ao mesmo tempo bela e terrível sobre a qual, afinal de contas, se alicerça
o cristianismo. Como forma de recuperá-la numa era marcada pelo hedonismo,
João Paulo II carregou sua cruz diante dos olhos do mundo. Pode-se não
concordar com tudo o que o papa polonês pregou e defendeu. Mas é
impossível não admirá-lo pela sua coragem na saúde
e na doença. Na vida e na morte.  Mario
Sabino
Fotos
Max Rossi/Reuters
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"Por esta santa unção e por sua
misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do
Espírito Santo, para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve, e, na
Sua bondade, alivie os teus sofrimentos" Unção
dos enfermos, ministrada ao papa na quinta-feira "Vinde,
ó Deus, em meu auxílio. Socorrei-me sem demora. Que minha prece feita a Ti se
eleve como incenso, minhas mãos como oferta vespertina. Senhor, eu Te clamo. Vem,
vem a mim, escuta a minha prece quando clamo a Ti. Glória ao Pai e ao Filho e
ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia." Salmo
da Liturgia das Horas, que o papa pediu que lhe fosse lido no dia 1º
de abril |
| O
mundo parou para acompanhar a agonia de João Paulo II na sexta-feira passada.
Cinco semanas antes, ele havia sido submetido a uma traqueostomia, a única
solução encontrada pelos médicos para contornar a insuficiência
respiratória do papa de 84 anos. Com uma cânula que levava o ar diretamente
para seus pulmões, ele esboçou uma leve recuperação.
Mas as dificuldades só fizeram aumentar dali por diante. O papa já
não conseguia andar, falar nem mastigar, com a maior parte de seus músculos
internos enrijecida pelo Parkinson. Sem poder comer, e com 19 quilos a menos,
João Paulo II passou a alimentar-se por meio de uma sonda nasogástrica.
Na quinta-feira 31, profundamente debilitado, ele foi acometido por uma infecção
urinária que não demoraria a evoluir para um quadro de septicemia.
Na madrugada de sexta-feira, o papa teve uma parada cardíaca. Antes disso,
deu a entender que não queria ser transferido para o Hospital Gemelli e
recebeu a unção dos enfermos. Ao longo do dia, seus rins pararam
de funcionar e sua respiração tornou-se ainda mais ofegante, agônica.
Médicos e cardeais perderam a esperança. Max
Rossi/Reuters
 | | Vigília
para o papa em agonia: em 1º de abril, fiéis se reúnem na Praça de São Pedro,
no Vaticano, para rezar por João Paulo II |
Sua última aparição pública ocorreu na quarta-feira
30. O papa assomou à janela de seu apartamento para saudar a multidão
de fiéis que o chamava com insistência, da Praça de São
Pedro. João Paulo II tentou pronunciar algumas palavras, mas uma expressão
de dor e desalento logo se estampou em seu rosto. Ele benzeu a multidão
com um sinal-da-cruz, e as cortinas da janela se fecharam. Foi o derradeiro ato
de um espetáculo de dor digno dos grandes pastores de almas e que recuperou
o significado original do sacrifício cristão. Um fim bem diferente
do de Pio XII, o pontífice que precedeu a abertura proporcionada pelo Concílio
Vaticano II, convocado por João XXIII e concluído por Paulo VI
dos quais, aliás, o polonês Karol Wojtyla tomou seu nome papal (veja
quadro). Pio XII morreu em 9 de outubro de 1958, na residência de
verão de Castelgandolfo, nos arredores de Roma, depois de uma semana de
doença. Como descreve o vaticanista italiano Giancarlo Zizola, a morte
de Pio XII foi "solitária, cruelmente monárquica, trombeteada por
manchetes de jornais romanos antes mesmo que tivesse ocorrido e com fotos de sua
agonia feitas traiçoeiramente por seu médico". Alik
Keplicz/AP
 | | Missa
numa igreja de Varsóvia, em 1º de abril: poloneses oram pela recuperação de seu
filho mais ilustre, o primeiro papa não italiano em 455 anos |
À morte de um papa segue-se um ritual prolongado. Depois
que os médicos atestam o falecimento, o cardeal camerlengo (no caso, o
espanhol Eduardo Martínez Somalo), encarregado de governar interinamente
a Igreja até que um novo pontífice seja eleito, entra no quarto
do papa, vestido de violeta, em sinal de luto. O camerlengo é escoltado
por um destacamento da Guarda Suíça, que simboliza a autoridade
que lhe foi recém-conferida. Para confirmar que o papa já não
mais vive, ele bate três vezes no seu rosto, com um pequeno martelo de prata,
enquanto o chama pelo nome de batismo. Morte confirmada, é declarada a
Sé Vacante, período no qual a Igreja será dirigida em seu
dia-a-dia pelo camerlengo e por mais três cardeais, aos quais sucederão
outros três depois de três dias, e assim por diante, até que
o conclave eleja um novo papa. As questões mais importantes ficam a cargo
do Colégio Cardinalício, composto por todos os cardeais eleitores
da Igreja. Emilio
Morenatti/AP
 | | No
Cenáculo, onde Jesus realizou a última ceia, em Jerusalém: cardeais, bispos e
arcebispos, italianos e espanhóis em sua maioria, rezam pela saúde de João Paulo
II, em 1º de abril |
O camerlengo é
encarregado de lacrar o escritório e o apartamento do papa e de comunicar
a outros prelados o seu falecimento. Segundo a constituição apostólica
Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II em 1996,
que trata da vacância da Sé Apostólica e da eleição
do pontífice, as exéquias devem durar nove dias consecutivos. O
conclave, que tem lugar na Capela Sistina, começa quinze dias depois da
morte do papa. Do próximo participarão 117 cardeais (aqueles com
mais de 80 anos perdem o direito a voto). A lei prevê que, até que
um nome seja escolhido, aconteçam quatro escrutínios secretos por
dia dois de manhã e dois à tarde. Se, depois de três
dias, não se chegar a um nome que tenha obtido dois terços dos votos,
o conclave é interrompido por um dia, para orações e conversas.
Após essa pausa, são feitas três séries de sete escrutínios,
a intervalos de 24 horas. Caso nem assim seja eleito um novo papa, os cardeais
poderão optar pelo sistema de maioria simples, escolhendo entre os dois
candidatos mais votados até então, ou partir para um terceiro nome.
Até a promulgação da Universi Dominici Gregis, era
preciso que a implantação da maioria simples tivesse a concordância
unânime dos cardeais. Mas a constituição mudou isso: basta
que metade deles concorde para que o sistema passe a vigorar. Com isso, na hipótese
de um conclave difícil, prevalecerá o grupo de cardeais mais articulado.
No que se refere à sucessão de João Paulo II, esse grupo
deverá ser o dos italianos, que desejam retomar o Trono de Pedro depois
de 26 anos de pontificado de um polonês. Peter
Muhly/AFP
 | | Na
Igreja de São Paulo, em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1º de abril: católica
acende vela para João Paulo II |
Durante
todo o período do conclave, os cardeais eleitores ficam sem nenhum contato
com o mundo exterior. Até a assembléia que elegeu João Paulo
II, em 1978, eles eram obrigados a acampar nas salas ao lado da Capela Sistina.
Em 1993, um edifício situado a oeste da cidade do Vaticano, o Ospizio Santa
Marta, começou a ser reformado para abrigar os eleitores do conclave. O
prédio ganhou 120 quartos modernos. Para sair de lá e chegar à
Sistina, há duas maneiras: pegar um ônibus especial que circunda
por trás a Basílica de São Pedro ou utilizar um corredor
que liga o Ospizio Santa Marta à capela com os magníficos afrescos
de Michelangelo. Os vaticanistas acreditam que não demorará para
que o novo papa seja escolhido, visto que não parece haver dissensões
profundas entre os cardeais. Dos 117 eleitores, 114 foram nomeados por João
Paulo II. O papa que definhou em praça pública moldou a Igreja a
sua imagem e semelhança. Pier
Paolo Cito/AP
 | | O
cardeal Camillo Ruini celebra missa em prol da saúde de João Paulo II (acima)
e foto dele na Praça São Pedro, no Vaticano | James
Hill/The New York Times
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O simbolismo de um nome
AP
 | | Paulo
VI: homenagens |
Logo depois de eleito,
todo papa anuncia o nome pelo qual será chamado durante seu pontificado.
Trata-se de uma escolha pessoal, mas não aleatória. "Em geral, o
nome indica uma tendência do pontificado", explica dom Benedito Beni dos
Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Ao optar por chamar-se
João Paulo II, o polonês Karol Wojtyla homenageou seus três
antecessores imediatos e expressou um desejo de continuidade na condução
da Igreja. A mudança de nome dos papas tem
raízes no Evangelho. Jesus sagrou o apóstolo Simão como Pedro,
dizendo que ele seria a pedra sobre a qual se ergueria a Igreja. Embora muitos
papas tenham assumido nomes de apóstolos (João é o nome mais
recorrente na história, com 23 papas), ainda não apareceu um Pedro
II. Repetir o nome do pai da Igreja seria faltar com a humildade. Há outros
nomes virtualmente "proibidos". É improvável, por exemplo, que hoje
um papa venha a se intitular Alexandre, nome que evoca a memória de Alexandre
VI, o nepotista e dissoluto pontífice da família Bórgia que
governou entre 1492 e 1503. Às vezes, porém,
um papa parece desafiar a história: João XXIII não fez caso
do fato de haver existido antes dele um antipapa (um falso postulante ao pontificado)
com esse mesmo nome. Papa reformador, que convocou o Concílio Vaticano
II, ele manifestou com essa escolha sua devoção a São João
Evangelista, mas ao mesmo tempo deu uma sutil demonstração de independência.
João XXIII morreu em 1963. O sucessor eleito foi o primeiro desde o século
XVII a se chamar Paulo. Assim como São Paulo, no século I, expandiu
o cristianismo para além do mundo judaico, Paulo VI pretendia ampliar o
alcance da fé católica. Com sua morte, em 1978, surgiu o primeiro
papa da história a ter um nome composto. João Paulo I sinalizava
o desejo de seguir o caminho de reformas cautelosas de seus dois antecessores
caminho que seria consolidado por João Paulo II (mas com cautela
até exagerada, segundo seus críticos). Na atual conjuntura política
do Vaticano, há boas chances de que a continuidade prevaleça. Não
será surpresa se o próximo papa se proclamar João Paulo III.
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