Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Internet
Café e liberdade

Ditaduras do Irã e da China não conseguem
conter a revolução silenciosa dos cibercafés


Ruth Costas


AFP
Internet pública em Pequim: hackers oficiais para invadir sites indesejados

No fim da década de 80, quando a internet ainda engatinhava, o presidente americano Ronald Reagan previu que o chip seria um Davi capaz de derrotar o Golias do totalitarismo. O prognóstico mostrou-se acurado. Com um computador e uma linha telefônica, qualquer pessoa é livre para se informar e discutir os problemas de seu país, por mais fechado que seja seu regime. Talvez o exemplo mais notável seja o Irã, país submetido a um código de conduta medieval por uma ditadura religiosa. Os mais de 1.000 cibercafés de Teerã, a capital iraniana, transformaram-se nos quartéis-generais de um revolução silenciosa que desafia o regime. Os blogs – diários eletrônicos da rede – viraram mania nacional e as salas virtuais de bate-papo vivem repletas de iranianos trocando informações e paquerando longe dos olhos dos religiosos xiitas.

Antes de o primeiro cibercafé ser inaugurado, em 1998, o número de iranianos com acesso à internet não passava de 2.000. Hoje são 4 milhões, a grande maioria freqüentadores dos cibercafés. Nos últimos meses, os aiatolás estão tentando frear a liberdade de navegar pela internet. Centenas de cibercafés foram fechados com a desculpa de que não tinham licença para operar e dez pessoas foram presas por criticar o governo em sites e blogs. O Parlamento examina um projeto de lei preparado pelo aiatolá Mahmoud Shahroudi, chefe do Judiciário, cujo objetivo é punir quem usa a rede "para causar distúrbios entre a população", segundo suas palavras.

A experiência chinesa mostra que essa é uma luta inútil – exceto se a ditadura estiver disposta a cortar de vez qualquer conexão eletrônica com o mundo moderno. O governo comunista chinês permitiu que a internet se disseminasse até atingir 46 milhões de pessoas, mas impõe um filtro de conteúdo aos provedores e contratou hackers para tirar do ar as páginas indesejadas. "Assim como os chineses, os aiatolás não conseguirão controlar totalmente a internet, porque precisam dela para ampliar a participação do Irã no comércio mundial", disse a VEJA o americano Taylor Boas, autor do livro Rede Aberta, Regimes Fechados: o Impacto da Internet em Regimes Autoritários.

As ditaduras lidam com a questão da internet de duas maneiras. Nos regimes mais isolados, a conexão dos cidadãos com a rede mundial de computadores é praticamente inexistente ou restrita aos funcionários do governo e a turistas. Nesse grupo estão Cuba, Síria e Coréia do Norte. Nos países em que os ditadores vivem a dicotomia entre a necessidade de aderir à modernidade e o desejo de manter a população alienada, a internet é permitida, mas são criados mecanismos de controle de seu acesso e seu conteúdo. Esse é o caso do Irã e da China. O que os aiatolás iranianos e os dirigentes comunistas chineses estão percebendo, no entanto, é que, assim como a internet ajuda a tirar o país do atraso tecnológico e comercial, também força a população a sair do atraso político.

 
 
 
 
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