|
|
Internet
Café e liberdade
Ditaduras do Irã e da China não
conseguem
conter a revolução silenciosa dos cibercafés

Ruth Costas
AFP
 |
| Internet pública em Pequim: hackers
oficiais para invadir sites indesejados |
No fim da década de 80, quando a internet
ainda engatinhava, o presidente americano Ronald Reagan previu que
o chip seria um Davi capaz de derrotar o Golias do totalitarismo.
O prognóstico mostrou-se acurado. Com um computador e uma
linha telefônica, qualquer pessoa é livre para se informar
e discutir os problemas de seu país, por mais fechado que
seja seu regime. Talvez o exemplo mais notável seja o Irã,
país submetido a um código de conduta medieval por
uma ditadura religiosa. Os mais de 1.000 cibercafés de Teerã,
a capital iraniana, transformaram-se nos quartéis-generais
de um revolução silenciosa que desafia o regime. Os
blogs diários eletrônicos da rede viraram
mania nacional e as salas virtuais de bate-papo vivem repletas de
iranianos trocando informações e paquerando longe
dos olhos dos religiosos xiitas.
Antes de o primeiro cibercafé ser inaugurado,
em 1998, o número de iranianos com acesso à internet
não passava de 2.000. Hoje são 4 milhões, a
grande maioria freqüentadores dos cibercafés. Nos últimos
meses, os aiatolás estão tentando frear a liberdade
de navegar pela internet. Centenas de cibercafés foram fechados
com a desculpa de que não tinham licença para operar
e dez pessoas foram presas por criticar o governo em sites e blogs.
O Parlamento examina um projeto de lei preparado pelo aiatolá
Mahmoud Shahroudi, chefe do Judiciário, cujo objetivo é
punir quem usa a rede "para causar distúrbios entre a população",
segundo suas palavras.
A experiência chinesa mostra que essa
é uma luta inútil exceto se a ditadura estiver
disposta a cortar de vez qualquer conexão eletrônica
com o mundo moderno. O governo comunista chinês permitiu que
a internet se disseminasse até atingir 46 milhões
de pessoas, mas impõe um filtro de conteúdo aos provedores
e contratou hackers para tirar do ar as páginas indesejadas.
"Assim como os chineses, os aiatolás não conseguirão
controlar totalmente a internet, porque precisam dela para ampliar
a participação do Irã no comércio mundial",
disse a VEJA o americano Taylor Boas, autor do livro Rede Aberta,
Regimes Fechados: o Impacto da Internet em Regimes Autoritários.
As ditaduras lidam com a questão da
internet de duas maneiras. Nos regimes mais isolados, a conexão
dos cidadãos com a rede mundial de computadores é
praticamente inexistente ou restrita aos funcionários do
governo e a turistas. Nesse grupo estão Cuba, Síria
e Coréia do Norte. Nos países em que os ditadores
vivem a dicotomia entre a necessidade de aderir à modernidade
e o desejo de manter a população alienada, a internet
é permitida, mas são criados mecanismos de controle
de seu acesso e seu conteúdo. Esse é o caso do Irã
e da China. O que os aiatolás iranianos e os dirigentes comunistas
chineses estão percebendo, no entanto, é que, assim
como a internet ajuda a tirar o país do atraso tecnológico
e comercial, também força a população
a sair do atraso político.
|