Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Imigração
Exportar mão-de-obra
é bom negócio

Dinheiro enviado por emigrantes torna-se
vital para a economia de países pobres


Ruth Costas

 
Divulgação
Sol, personagem de Deborah Secco na novela América: sonho de trabalhar nos EUA

EXCLUSIVO ON-LINE
Informações sobre os serviços dos bancos

Uma em cada dez pessoas no mundo depende de dinheiro enviado por familiares que vivem no exterior. No total, são 125 milhões de trabalhadores emigrados, espalhados por todos os continentes, que enviam para casa recursos para pagar a escola dos filhos, o seguro-saúde da mãe, comprar carro, casa própria ou financiar pequenos negócios. Em 2004, só os imigrantes de países pobres fizeram remessas de 125 bilhões de dólares para seus parentes, quase o equivalente ao PIB da Argentina. Trata-se de um fenômeno econômico recente. Nos últimos 25 anos, o volume total de dinheiro remetido pelos trabalhadores a seu país de origem aumentou mais de 500%. Para o Brasil, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foram enviados no ano passado 5,6 bilhões de dólares, o mesmo valor que o país conseguiu com a comercialização de soja em grãos, um dos principais produtos da pauta de exportações brasileira. A sobrevivência de alguns países depende desses recursos. No Haiti, o dinheiro dos emigrantes representa um quarto do PIB e é a única fonte de sustento de famílias inteiras. Os técnicos do Banco Mundial e do BID consideram esses recursos um fator eficiente na redução da pobreza, já que vão diretamente para quem precisa deles. Por isso, essas instituições estão dando às remessas feitas por imigrantes a mesma importância de outros setores da economia dos países em desenvolvimento.

Por trás dessa movimentação financeira, há uma migração que funciona sob uma lógica econômica simples: nos países ricos os salários são mais altos e falta gente para trabalhar como pedreiro, faxineiro, garçom e outras funções que não exigem qualificação, enquanto nos pobres existe uma quantidade imensa de trabalhadores que ganham pouco (ou nada) e estão dispostos a se mudar para receber em dólares, euros ou ienes. Diferentemente do que acontecia nas migrações do início do século passado, hoje, graças à modernização do transporte e da comunicação, é fácil manter os vínculos com o país de origem. Os imigrantes visitam com maior freqüência a terra natal, conversam mais com seus parentes e amigos por telefone e pela internet e, como conseqüência, têm mais motivos para investir por lá o dinheiro que ganham no exterior. "O imigrante é um aventureiro, o que o torna um empreendedor em potencial e alguém mais disposto a voltar a seu país para abrir um negócio próprio", diz a socióloga Ana Cristina Braga Martes, professora da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, que acaba de finalizar uma pesquisa sobre os brasileiros nos Estados Unidos.

Na maioria das vezes, os imigrantes fazem suas remessas informalmente por intermédio de pequenas agências ou doleiros. O governo do país que recebe essas remessas nem chega a saber do fluxo de dinheiro, já que a transferência é toda feita por baixo do pano. "Os imigrantes não usam os bancos porque ficam longe do local de trabalho, ninguém fala seu idioma nas agências ou simplesmente porque são ilegais no país", disse a VEJA o economista indiano Dilip Ratha, do Banco Mundial. Os brasileiros evitavam enviar suas economias pelos bancos nacionais por causa das tarifas, mais altas que as cobradas pelos doleiros. Isso começa a mudar. A Caixa Econômica Federal estabeleceu, há duas semanas, uma parceria com o banco português BCP. Os brasileiros nos Estados Unidos e no Canadá podem agora usar as agências do BCP para fazer as remessas. A taxa é de 2,5% do valor enviado, contra a média de 7% cobrada pelos demais bancos. "Se os brasileiros estão trabalhando ilegalmente nos Estados Unidos é problema dos americanos", diz o presidente da Caixa, Jorge Mattoso. "Para nós, o que importa é trazê-los para o sistema bancário e fazer com que seu dinheiro possa ser legalizado." O Banco do Brasil e o Banespa aumentaram o número de agências no Japão e criaram novas formas para facilitar o envio de dinheiro pelos dekasseguis, os trabalhadores brasileiros no Japão. Para completar, baratearam as tarifas. É um reconhecimento bem-vindo, ainda que atrasado, da importância da dinheirama que os brasileiros enviam do exterior.

 

 

 
 
 
 
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