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Internacional Todos
querem vender a Chávez Com os cofres cheios
de petrodólares, o presidente venezuelano usa o talão de
cheques para fazer amigos e influenciar países  José
Eduardo Barella
Jorge
Silva/Reuters
 | | Uribe,
Zapatero, Chávez e Lula na Venezuela: venda de armas em reunião para celebrar
a paz |
Como uma grande democracia européia
deve lidar com um tiranete do Terceiro Mundo? Bem, a resposta parece depender
de quanto dinheiro ele tem para gastar. Graças aos mais de 40 bilhões
de dólares arrecadados pela Venezuela no ano passado com as exportações
de petróleo e ao desejo impulsivo de ir às compras, Hugo Chávez
tornou-se um freguês disputadíssimo no cenário internacional.
Na semana passada, o primeiro-ministro espanhol, o socialista José Luis
Rodríguez Zapatero, fechou um contrato de 1,7 bilhão de dólares
para a venda de armas para a Venezuela. Além do armamento, os dois países
assinaram um acordo cujo propósito é a criação de
uma sociedade mista para explorar o petróleo venezuelano. Na Espanha, o
líder da oposição, Mariano Rajoy, ocupou a tribuna do Parlamento
para qualificar de "irresponsabilidade absoluta" a venda de armas para Hugo Chávez.
Para Rajoy, não se deve vender armas a um governo empenhado em destruir
de forma sistemática a democracia em seu país. Sobretudo no momento
em que Chávez está empenhado em complicar a própria vida
com as ameaças que faz aos Estados Unidos.
O anúncio do negócio das armas espanholas foi feito na reunião
dos chefes de governo do Brasil, Colômbia, Venezuela e Espanha, na semana
passada, em Caracas. O encontro serviu também para assentar a paz entre
o presidente venezuelano e seu colega colombiano, Álvaro Uribe. Ambos concordaram
em virar a página no episódio do seqüestro, feito por caçadores
de recompensas venezuelanos em Caracas, de um guerrilheiro das Farc que foi entregue
às autoridades colombianas. As intensas relações econômicas
entre os dois vizinhos acabaram por prevalecer sobre as rivalidades ideológicas
entre os presidentes. Uribe quer preservar os bons negócios, mas sabe que
precisa ficar de olhos abertos porque o coronel de Caracas continua um bom amigo
das Farc. O Brasil também tem feito bons negócios com Chávez.
O superávit no comércio bilateral, de 1,2 bilhão de dólares
no ano passado, deverá dobrar. Também há armas nessa amizade.
A Venezuela tem interesse em adquirir aviões de combate brasileiros, da
mesma forma que está comprando helicópteros e fuzis da Rússia.
Desde janeiro, Chávez destinou 7 bilhões de dólares a gastos
militares. Para que pode servir todo esse arsenal? Chávez gosta de alardear
a ridícula e implausível necessidade de se defender da ameaça
de uma invasão americana. O perigo real é os fuzis e helicópteros
acabarem nas mãos das Farc, como teme a Colômbia. Chávez também
está empenhado em armar milícias, separadas do Exército,
para consolidar seu poder e aterrorizar a oposição venezuelana.
Andres
Leighton/AP
 | | Chavista
em Caracas: milícia |
Zapatero
e Luiz Inácio Lula da Silva apresentam a amizade e os negócios como
parte de uma estratégia para conter e moderar Hugo Chávez. Em particular,
Lula tem aconselhado moderação ao presidente venezuelano
sem muito sucesso, admite-se no Itamaraty. Diante do potencial de instabilidade
que Chávez representa para o continente, a questão é se essa
política é suficiente. O presidente da Venezuela usa seus petrodólares
para se meter nos negócios domésticos de países vizinhos.
Através de seus círculos bolivarianos, dá dinheiro aos sandinistas
que tentam voltar ao poder na Nicarágua, financiou um major rebelado no
Peru e o líder cocaleiro Evo Morales, que vem convulsionando a Bolívia.
De modo geral, quando são paparicados por
países poderosos, os ditadores consideram-se autorizados a cometer novas
maldades. Com muitos deles funcionou melhor a pressão direta e objetiva.
No ano passado, para evitar o rompimento com a União Européia, Fidel
Castro libertou meia dúzia de dissidentes, todos condenados a longas penas
de prisão. No caso do presidente venezuelano, Brasil e Espanha e
até os Estados Unidos, como já disse a secretária de Estado
Condoleezza Rice acham que, neste momento, isolar Chávez só
traria mais problemas para a América Latina e também para a Casa
Branca. A tática de envolvimento amigável, de apelo à razão,
é uma herança que Lula recebeu do governo anterior. Com a diferença
de que Fernando Henrique Cardoso agia em Caracas sem os arroubos emocionais de
Lula. "Vale a pena negociar com Chávez", disse a VEJA o cientista político
venezuelano Carlos Romero. "A Venezuela é um importante exportador de petróleo
para os Estados Unidos, mantém boas relações com os países
vizinhos e não tem poderio militar para expandir sua revolução
bolivariana pela região." Como resumiu o embaixador espanhol em Washington,
Carlos Westendorp, é preciso "lulalizar" Chávez ou seja,
convencê-lo de que a moderação pode render bons negócios. |