Edição 1899 . 6 de abril de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
Todos querem vender a Chávez

Com os cofres cheios de petrodólares,
o presidente venezuelano usa o talão
de cheques para fazer amigos
e influenciar países


José Eduardo Barella

 
Jorge Silva/Reuters
Uribe, Zapatero, Chávez e Lula na Venezuela: venda de armas em reunião para celebrar a paz

Como uma grande democracia européia deve lidar com um tiranete do Terceiro Mundo? Bem, a resposta parece depender de quanto dinheiro ele tem para gastar. Graças aos mais de 40 bilhões de dólares arrecadados pela Venezuela no ano passado com as exportações de petróleo e ao desejo impulsivo de ir às compras, Hugo Chávez tornou-se um freguês disputadíssimo no cenário internacional. Na semana passada, o primeiro-ministro espanhol, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, fechou um contrato de 1,7 bilhão de dólares para a venda de armas para a Venezuela. Além do armamento, os dois países assinaram um acordo cujo propósito é a criação de uma sociedade mista para explorar o petróleo venezuelano. Na Espanha, o líder da oposição, Mariano Rajoy, ocupou a tribuna do Parlamento para qualificar de "irresponsabilidade absoluta" a venda de armas para Hugo Chávez. Para Rajoy, não se deve vender armas a um governo empenhado em destruir de forma sistemática a democracia em seu país. Sobretudo no momento em que Chávez está empenhado em complicar a própria vida com as ameaças que faz aos Estados Unidos.

O anúncio do negócio das armas espanholas foi feito na reunião dos chefes de governo do Brasil, Colômbia, Venezuela e Espanha, na semana passada, em Caracas. O encontro serviu também para assentar a paz entre o presidente venezuelano e seu colega colombiano, Álvaro Uribe. Ambos concordaram em virar a página no episódio do seqüestro, feito por caçadores de recompensas venezuelanos em Caracas, de um guerrilheiro das Farc que foi entregue às autoridades colombianas. As intensas relações econômicas entre os dois vizinhos acabaram por prevalecer sobre as rivalidades ideológicas entre os presidentes. Uribe quer preservar os bons negócios, mas sabe que precisa ficar de olhos abertos porque o coronel de Caracas continua um bom amigo das Farc. O Brasil também tem feito bons negócios com Chávez. O superávit no comércio bilateral, de 1,2 bilhão de dólares no ano passado, deverá dobrar. Também há armas nessa amizade. A Venezuela tem interesse em adquirir aviões de combate brasileiros, da mesma forma que está comprando helicópteros e fuzis da Rússia. Desde janeiro, Chávez destinou 7 bilhões de dólares a gastos militares. Para que pode servir todo esse arsenal? Chávez gosta de alardear a ridícula e implausível necessidade de se defender da ameaça de uma invasão americana. O perigo real é os fuzis e helicópteros acabarem nas mãos das Farc, como teme a Colômbia. Chávez também está empenhado em armar milícias, separadas do Exército, para consolidar seu poder e aterrorizar a oposição venezuelana.

Andres Leighton/AP
Chavista em Caracas: milícia


Zapatero e Luiz Inácio Lula da Silva apresentam a amizade e os negócios como parte de uma estratégia para conter e moderar Hugo Chávez. Em particular, Lula tem aconselhado moderação ao presidente venezuelano – sem muito sucesso, admite-se no Itamaraty. Diante do potencial de instabilidade que Chávez representa para o continente, a questão é se essa política é suficiente. O presidente da Venezuela usa seus petrodólares para se meter nos negócios domésticos de países vizinhos. Através de seus círculos bolivarianos, dá dinheiro aos sandinistas que tentam voltar ao poder na Nicarágua, financiou um major rebelado no Peru e o líder cocaleiro Evo Morales, que vem convulsionando a Bolívia.

De modo geral, quando são paparicados por países poderosos, os ditadores consideram-se autorizados a cometer novas maldades. Com muitos deles funcionou melhor a pressão direta e objetiva. No ano passado, para evitar o rompimento com a União Européia, Fidel Castro libertou meia dúzia de dissidentes, todos condenados a longas penas de prisão. No caso do presidente venezuelano, Brasil e Espanha – e até os Estados Unidos, como já disse a secretária de Estado Condoleezza Rice – acham que, neste momento, isolar Chávez só traria mais problemas para a América Latina e também para a Casa Branca. A tática de envolvimento amigável, de apelo à razão, é uma herança que Lula recebeu do governo anterior. Com a diferença de que Fernando Henrique Cardoso agia em Caracas sem os arroubos emocionais de Lula. "Vale a pena negociar com Chávez", disse a VEJA o cientista político venezuelano Carlos Romero. "A Venezuela é um importante exportador de petróleo para os Estados Unidos, mantém boas relações com os países vizinhos e não tem poderio militar para expandir sua revolução bolivariana pela região." Como resumiu o embaixador espanhol em Washington, Carlos Westendorp, é preciso "lulalizar" Chávez – ou seja, convencê-lo de que a moderação pode render bons negócios.

 
 
 
 
topovoltar