Edição 1899 . 6 de abril de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
Os microfones vão ser ligados

Congresso aprova convocação de
três envolvidos no caso Farc-PT


Policarpo Junior

 
José Miguel Gomez/Reuters
Guerrilheiros das Farc: Lula nega ligação do PT com as Farc e diz que a denúncia é coisa "antiga"

Na semana passada, a comissão do Congresso encarregada de fiscalizar o setor de inteligência do governo resolveu entrar no caso Farc-PT. Há quatro semanas, o comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vem garantindo que jamais investigou a suspeita de que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) teriam dado 5 milhões de dólares à campanha eleitoral do PT em 2002. A versão da Abin, de que ouviu apenas um "boato" e nem lhe deu importância, já foi desmentida por um ex-agente da agência, o coronel Eduardo Ferreira, que trabalhou sete anos na Abin e esteve envolvido com a investigação. Também foi desmentida por um espião da agência que trabalha infiltrado no movimento sindical em Brasília. O espião contou que elaborou dois relatos sobre o caso. O coronel Ferreira, por sua vez, conta que a investigação da Abin durou mais de um ano, gerou dezenas de relatórios, gravações de áudio e vídeo. O coronel vai mais longe: diz que os investigadores encontraram três ordens de pagamento com indícios de que 1 milhão de dólares teriam de fato entrado no Brasil.

Na quinta-feira passada, a comissão do Congresso decidiu convocar o coronel e o espião. Os membros da comissão também querem ouvir José Milton Campana, que hoje ocupa o cargo de diretor adjunto da Abin e, na época, se envolveu com a investigação dos supostos laços financeiros entre as Farc e o PT. Os relatórios do caso eram digitados no gabinete de Campana e, dali, remetidos à então diretora-geral, Marisa Del'Isola. Na surdina, a Abin faz uma sindicância interna para descobrir quem, de dentro do órgão, passou as informações que vieram a público. No rastro da sindicância, Campana, um dos suspeitos do vazamento, foi posto na geladeira: está informalmente afastado do comando da diretoria adjunta. Seu depoimento à comissão é aguardado com ansiedade. Dos três convocados, Campana é o único que ainda não falou sobre o assunto. A um amigo, ele comentou que apenas cumpriu seu dever funcional. Disse que recebeu ordem superior para tocar as investigações sobre a suposta conexão financeira Farc-PT.

O presidente Lula, durante viagem à Venezuela na semana passada, abordou o tema em público pela primeira vez. Disse que as denúncias são "antigas", pois surgiram na campanha de 2002, e nunca foram "levadas a sério" pelos petistas. Lula incorreu numa imprecisão. Por sua gravidade, uma denúncia de algo que ocorreu em 2002 não pode ser descrita como "antiga". Foi ontem. O assunto voltou à baila em uma reportagem publicada por VEJA há três semanas. Ali não se acusou o PT de ter recebido dinheiro das Farc. Até hoje, não se sabe se isso ocorreu. O que VEJA publicou, e a Abin insiste em negar, é outra coisa: é o fato de que a suspeita de um ducto financeiro Farc-PT foi exaustivamente investigada e há vários documentos sobre o caso arquivados na Abin. A Abin nega, mas não abre os arquivos. Os três depoimentos à comissão do Congresso devem ajudar a esclarecer a questão. Pena que vão demorar. Antes, o presidente da comissão, o senador Cristovam Buarque, quer aprovar um regimento interno. O estatuto dirá como e em que condições a comissão pode ouvir o espião, que quer manter sua identidade sob anonimato e, para isso, pediu para depor fora do Congresso. "Como está, fica tudo nas minhas costas", reclama Buarque. O senador Demostenes Torres, do PFL de Goiás, teme que a discussão sobre o regimento sirva só para adiar os depoimentos. "Para ouvir a versão do governo e tentar dar o caso por encerrado, ninguém precisou de regimento", diz ele. Cristovam Buarque garante que não se trata disso. Tomara que não.

 
 
 
 
topovoltar