|
|
Brasil Olha
só, sem a rede O
Brasil dispensa a proteção do FMI, e a política econômica
do país é elogiada como "exemplo para o mundo"  Leandra
Peres

Os
brasileiros que hoje têm até 22 anos de idade passaram praticamente
toda a vida com a economia do país sob a tutela do Fundo Monetário
Internacional (FMI), organismo criado há meio século com o objetivo
de amenizar o impacto das crises financeiras pelo mundo afora. Desde 1983, quando
tentava sair da lama da crise da dívida externa, o Brasil vinha mantendo
algum tipo de compromisso com o FMI ou tinha uma carta de intenções
sob análise, ou negociava um acordo, ou esperava a liberação
de uma parcela de ajuda financeira, ou simplesmente tentava obter aval do fundo
a suas políticas. Agora, 22 anos e sete acordos depois, o país volta
a andar "com as próprias pernas", conforme a expressão usada pelo
presidente Lula na segunda-feira passada, quando comentou a decisão do
governo de não renovar o acordo com o fundo. Como o trapezista que faz
piruetas sem uma rede para protegê-lo de uma queda ocasional, o Brasil volta
a ter apenas a si mesmo como escudo contra eventuais crises externas e ataques
especulativos à moeda. É um avanço. O consenso nacional,
à esquerda e à direita, a respeito da austeridade das contas públicas
é uma conquista de todos os brasileiros. Agora,
com seu vôo-solo, o Brasil não deve reinventar a roda. Ao contrário.
O país precisa apenas se manter nos trilhos que o trouxeram até
aqui. O tripé que tem dado segurança à política econômica,
bem-sucedida até agora, baseia-se nos seguintes princípios: o câmbio
flutuante, as metas para a inflação e a disciplina fiscal. Sem ter
de controlar a taxa de câmbio, como acontecia no governo anterior, o país
entrou num novo ciclo: tornou-se uma cidadela bem mais forte contra os ataques
especulativos e ganhou maior flexibilidade para fixar a taxa de juros. O equilíbrio
nas contas públicas é a fundação que sustenta todo
o edifício econômico. Se o governo gasta mais do que arrecada, restam
apenas três alternativas para cobrir o rombo: aumentar a dívida,
cobrar mais impostos ou deixar que suba a inflação. A principal
lição dos tempos em que era preciso correr para a barra da saia
do FMI é a de que a economia privada e o bem-estar das pessoas não
se mantêm saudáveis se existe descaso com a disciplina fiscal no
setor público. "Nos últimos dez anos, a sociedade brasileira desenvolveu
a cultura da responsabilidade fiscal. Aprendeu que o dinheiro que o governo gasta
sai do bolso de cada um", afirma Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda.
Anibal
Greco/Reuters
 | | Manifestação
em Buenos Aires de repúdio à política econômica e, claro, ao FMI: ilusão ideológica
|
Em alguns setores, chamou atenção
o fato de que o governo brasileiro, mesmo sem a tutela do FMI, pretende manter
o rigor fiscal mas alguém acha que poderia ser de outro modo? É
evidente que o governo brasileiro, tanto o anterior como o atual, já incorporou
a noção de que bom comportamento fiscal não é uma
escolha, mas um imperativo. "O Brasil tem dado demonstrações inequívocas
de que o esforço fiscal é um compromisso fundamental e não
será negligenciado", disse o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ao anunciar
na segunda-feira a decisão de não renovar o acordo com o FMI. Ele
não descartou, inclusive, que o governo decida por iniciativa própria
aumentar o superávit de 4,25% do PIB previsto para este ano caso
a economia continue crescendo. "Ainda temos um certo complexo de colônia
e achamos que alguém de fora precisa nos dizer o que fazer", diz Mailson
da Nóbrega. "Precisamos romper com essa visão, e isso vai acontecer
a partir de agora, quando o governo cumprir suas metas, sem acordo."
Ao anunciar o adeus ao FMI, o ministro Antonio Palocci usou
um tom cauteloso. Com sua prudência característica, reforçou
o compromisso do governo com a austeridade fiscal e a natureza técnica
da decisão. "O Brasil deixa de renovar o acordo num momento em que os fundamentos
da economia estão muito melhores. A redução da vulnerabilidade
externa é notável. Por isso, avaliamos não ser necessário
manter o acordo", disse. A dependência brasileira do que acontece lá
fora, de fato, mudou da água para o vinho. Em 2002, quando o país
assinou com o FMI o acordo que deixou agora de renovar, a dívida externa
equivalia a 41% do PIB. Hoje, esse porcentual caiu quase 10 pontos. A parcela
vinculada ao dólar da dívida interna também caiu muito. Quase
30% da dívida interna era em dólar. Hoje, esse índice é
de menos de 10%. As exportações também tiveram crescimento
exponencial, chegando à casa dos 100 bilhões de dólares.
Por fim, as reservas do Banco Central pularam de 35,8 bilhões para quase
62 bilhões de dólares. Nada disso significa que o país tenha
ficado imune às crises externas, mas é certo que deixou de ficar
tão fragilmente exposto a elas. Celso
Junior/AE
 | | O
ministro Palocci, ao anunciar o fim do acordo com o fundo: a lição da disciplina
fiscal é patrimônio da sociedade |
"O
impacto de uma crise internacional sobre o Brasil seria menor hoje em dia porque
o país está muito menos vulnerável", explica Nuno Câmara,
economista sênior do banco de investimentos Dresdner Kleinwort Wasserstein,
em Nova York. "Estamos muito mais confiantes em recomendar a compra de papéis
brasileiros." No mesmo dia da entrevista de Palocci, o presidente Lula aproveitou
uma solenidade no Palácio do Planalto para mandar seu recado. Ele reconheceu
a importância que os acordos com o FMI tiveram para que o país "sobrevivesse"
em períodos de crise internacional e, lembrando as velhas campanhas em
que manifestantes gritavam "Fora, FMI", muitas delas comandadas pelo próprio
PT, disse que, agora, o país poderá "andar com as próprias
pernas". No Brasil, talvez por sua condição de maior devedor do
fundo em todo o planeta, a imagem do FMI foi fortemente politizada nas últimas
décadas e, por isso, produziu-se muita bravata. Em 1959, o presidente Juscelino
Kubitschek (1956-1961) denunciou o acordo que o país tinha com o FMI porque
levaria a nação ao "aniquilamento" e o povo brasileiro a "passar
fome". O presidente Fernando Collor (1990-1992) xingou o então chefe de
uma missão no Brasil, José Fajgenbaum, que comentou que o Brasil
precisava alterar a Constituição para melhor ajustar a economia.
Collor considerou a sugestão "inadmissível". Fajgenbaum foi substituído
por outro negociador e teve de deixar o Brasil. A
importância que se dá à decisão do governo brasileiro
de não renovar o acordo com o FMI é natural. Afinal, além
de ficar mais de duas décadas sob a tutela da instituição,
à exceção de alguns anos em que ela própria se recusou
a chancelar as políticas nacionais, o Brasil é o maior devedor do
fundo no mundo. Deve cerca de 23 bilhões de dólares. Além
disso, talvez seja o país que mais tempo ficou sob as asas do FMI. E isso
tudo, é claro, ajudou as esquerdas a demonizar a imagem do organismo, politizando-a
ao máximo a ponto de transformar o FMI em bandeira política. Outro
país onde as coisas também tomam uma proporção extrema
é a Argentina, não por acaso o terceiro maior devedor do FMI, com
14 bilhões de dólares de papagaio, atrás apenas do Brasil
e da Turquia, que deve 21 bilhões. Como o vizinho tem vivido uma relação
semelhante com o FMI, ainda que nos últimos tempos o Brasil tenha se tornado
um aluno exemplar enquanto a Argentina se transformou no estudante rebelde, produziu-se
por aqui a impressão de que em qualquer país o FMI provoca protestos,
desencadeia paixões e levanta marés de ira. AP
 | | A
reunião que, em 1944, fundou o FMI: clube de adesão voluntária que, mais tarde,
seria demonizado pelas esquerdas |
O próprio
FMI fez autocrítica recente de sua atuação em diversos países.
Seus técnicos reconheceram que, no caso da Argentina, a demora em exigir
que o governo ajustasse suas contas pode ter empurrado o país mais rapidamente
para a moratória de 2001. Os erros do FMI não justificam o papel
de Geni do capitalismo que militantes de esquerda atribuem ao fundo. O problema
é que as três letras são um alvo fixo para a militância
órfã da queda do Muro de Berlim. O FMI disputa com o neoliberalismo
o posto de termo mais odiado entre as pessoas que lutam "pela mudança do
modelo" em busca de "um mundo mais justo". Esse posto já foi ocupado pelo
termo capitalismo. Como essas pessoas, em geral, não têm propostas
alternativas viáveis, toda a sua energia é gasta na desconstrução
do oponente, e não na defesa do modelo que advogam. Típico. O economista
Nathan Rosenberg, autor de um livraço intitulado Como o Ocidente Enriqueceu
(How the West Grew Rich), lembra que as forças econômicas e as
pessoas que criaram o sistema econômico que viria a ser conhecido como capitalismo
nunca usaram esse termo. "Capitalismo foi uma expressão popularizada pelos
marxistas na segunda metade do século XIX como um opróbrio ao sistema
que eles queriam derrubar", escreveu Rosenberg. O economista lembra que concentrar
todas as mazelas do mundo sobre um único rótulo seja ele
capitalismo, seja neoliberalismo ou FMI funciona como bandeira política,
mas nada acrescenta ao debate intelectual. No caso
do fundo isso é patente. O FMI é um clube de países cuja
adesão é inteiramente voluntária. E quem decide integrá-lo
é porque concorda com suas regras. É como um condomínio.
Manter um acordo com o FMI, portanto, não é uma situação
desesperadora, e deixar de renová-lo também não significa
a redenção. O México, por exemplo, teve de pedir socorro
ao FMI em 1995, quando sofreu um ataque especulativo, e encerrou o acordo dois
anos depois. Em 1999, o governo mexicano teve de voltar novamente ao fundo, de
onde saiu no ano seguinte e, desde então, está em vôo-solo.
Hoje, 84 países têm algum tipo de proteção no FMI.
A maioria das nações tomadoras de empréstimo, 59 ao todo,
é formada por países pobres que recebem tratamento privilegiado,
com juro subsidiado, e devem, tudo somado, uns 10 bilhões de dólares
ao organismo. Os outros 25 países são considerados mercados emergentes
entre eles está o Brasil e, juntos, detêm o grosso
da dívida com o fundo, uma cifra que se aproxima de 90 bilhões de
dólares. Dever para o FMI e pagar em dia é uma credencial para as
economias que precisam atrair investimentos privados. Fazer isso, como o Brasil
decidiu na semana passada, sem ser obrigado por um acordo, é uma sinalização
positiva que amacia o caminho do futuro para os brasileiros e suas empresas e
para o governo. 

|