BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
REVISTAS
VEJA
Edição 2046

6 de fevereiro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
André Petry
Lya Luft
Diogo Mainardi
Millôr
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Auto-retrato
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 

Cinema
Doce sem ser adocicado

Juno, uma das criações mais originais do cinema
independente, merece mais do que suas quatro
indicações ao Oscar: merece ser visto


Isabela Boscov

Divulgação

Juno (Ellen Page) divide uma refeição nada balanceada com sua amiga (Olivia Thirlby): não, ela não está esperando um "food baby"

VEJA TAMBÉM
Da internet
Trailer do filme

Algumas adolescentes se expressam por meio das roupas que vestem, outras montam blogs, outras ainda fazem álbuns de colagem. Já a personagem-título de Juno (Estados Unidos/Canadá, 2007) dirige toda a sua criatividade para o que diz, e como o diz. Juno é incapaz de deixar uma palavra quieta no seu canto: todas elas têm de ser modificadas ou arranjadas em combinações inovadoras e improváveis. É condizente então que os diálogos do filme (já em exibição em esquema de pré-estréias, e com entrada em circuito prevista para o dia 22) fervilhem de imaginação – e que, na interpretação da notável Ellen Page e dos atores igualmente inteligentes que lhe fazem companhia, eles ricocheteiem para lá e para cá como balas num tiroteio. Oportunidade para essa fuzilaria não é o que falta na história. Por causa de uma tarde sem muito que fazer, passada na companhia do amigo Paulie Bleeker (Michael Cera, que é um capítulo à parte), Juno se descobre grávida. Aos 16 anos. Vai ter de dar a notícia ao pai e à madrasta (J.K. Simmons e Allison Janney), que, na sua perplexidade inicial, se perguntam se não preferiam ter sido informados de que a filha está usando drogas. Vai anunciar a novidade à melhor amiga (Olivia Thirlby), que pondera que Juno pode simplesmente estar esperando um "food baby" – ou seja, talvez ela tenha comido demais no almoço (uma série de testes de farmácia, realizados com o auxílio de um galão de suco de laranja, desmente a hipótese). E vai ter uma conversa surreal com uma colega de escola que faz plantão na porta de uma clínica de abortos. "Seu bebê já tem unhas!", afirma a menina, conseguindo com isso que a grávida dê meia-volta. Juno terá, portanto, de achar uma outra solução para o bebê, a qual vem na forma dos Loring (Jason Bateman e Jennifer Garner), um casal jovem, bem de vida e de bem com a vida, mas desesperado por um filho. Ou isso, ao menos, é o que eles procuram aparentar.

Mordaz sem ser cruel e doce sem ser adocicado, o filme dirigido por Jason Reitman é uma das criações mais originais do cinema americano nos últimos anos. Mais ainda por vir do cenário independente, no qual uma regra implícita dita que todas as famílias têm de ser desajustadas e todo humor tem de passar pela ironia. Como em seu trabalho anterior, Obrigado por Fumar, Reitman (uma edição revista e melhorada de seu pai, Ivan Reitman, diretor de Os Caça-Fantasmas) é seguro no controle do ritmo e do tom, e ajuda personagens em situações potencialmente antipáticas a revelar o melhor de si. O que fez Juno abalar o meio cinematográfico, porém, foi a sua autora: a ex-stripper Diablo Cody (veja o quadro abaixo), que, até onde se sabe, é a primeira representante da categoria a ser indicada a um Oscar. Antes de o filme ser lançado, especulava-se que sua assinatura não passaria de um golpe de marketing para atrair curiosidade para uma produção modestíssima, rodada a um custo de 2,5 milhões de dólares e sem orçamento para publicidade. Com a acolhida entusiasmada do público e dados os elogios unânimes à voz singular que emerge de Juno – o diretor garante que ela pertence integralmente à sua colaboradora –, o desdém se transformou em admiração (ou irritação, no caso de alguns roteiristas invejosos). O que se esperava de Diablo era vulgaridade ou choque; o que Juno oferece é o oposto: uma visão madura e generosa de uma menina numa situação difícil e da maneira como ela e as pessoas que gostam dela tentam fazer das circunstâncias o melhor que puderem.

É na maneira como Diablo escreve as falas, contudo, que seu talento singular se mostra melhor. Às vezes copiosas, outras vezes compostas em staccato, elas são mais do que imaginativas – são um exemplo de como construir personagens e evocar seus estados de espírito por meio de diálogos. Todas as pessoas que aparecem em Juno têm sua própria identidade verbal, distinta das outras e sempre perfeitamente apropriada a quem são e a quem as interpreta. Em algumas cenas, o contraponto se dá por meio da música que está ao fundo; em outras, como todas as protagonizadas pelo radiosamente capaz Michael Cera, são as pausas e os silêncios que contam. Essa habilidade, que diretor, roteirista e elenco exercem em conjunto, é indício de que Juno não é apenas um acidente feliz. É um filme gestado com carinho e desvelo por artistas que têm um respeito fundamental pelo que criam e pelos eventuais apreciadores de sua criação.

 

A Surfistinha deles

Chris Jackson/Getty Images
Diablo: do strip-tease e do sexo por telefone ao Oscar


Brooke Busey, uma morena vistosa de 29 anos que lembra muito no estilo a legendária pin-up Bettie Page, estudou em escola católica, formou-se em comunicação e trabalhou como publicitária até o dia em que, cansada de se esfalfar no emprego, resolveu se profissionalizar em um de seus passatempos – o strip-tease. Nascia aí Diablo Cody, que é tanto seu nom de guerre quanto seu nom de plume: à maneira da paulista Bruna Surfistinha, que virou best-seller com os relatos em blog e em livro de suas aventuras como garota de programa, essa americana de Chicago ficou célebre primeiro com um site sobre suas proezas e depois com a autobiografia Candy Girl: A Year in the Life of an Unlikely Stripper. A surpresa é que Diablo, hoje aposentada de suas atividades em estado natural e também de uma passagem pelo ramo do sexo telefônico, conseguiu capitalizar sua fama não apenas em mais fama, mas numa carreira bem-sucedida como roteirista. Além de Juno, pelo qual concorre com todo merecimento ao Oscar, ela fez para Steven Spielberg o piloto de uma minissérie, The United States of Tara, em fase de desenvolvimento, e está negociando vários outros projetos em estúdios diversos de Hollywood. Diablo faz pouco de sua súbita notoriedade nessa área. "Pura sorte", diz. Mas, pelo que se vê em Juno, sorte não tem nada a ver com a história. Ela é o artigo genuíno, e de qualidade.


 

Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |