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Cinema Juno,
uma das criações mais originais do cinema
Algumas adolescentes se expressam por meio das roupas que vestem, outras montam blogs, outras ainda fazem álbuns de colagem. Já a personagem-título de Juno (Estados Unidos/Canadá, 2007) dirige toda a sua criatividade para o que diz, e como o diz. Juno é incapaz de deixar uma palavra quieta no seu canto: todas elas têm de ser modificadas ou arranjadas em combinações inovadoras e improváveis. É condizente então que os diálogos do filme (já em exibição em esquema de pré-estréias, e com entrada em circuito prevista para o dia 22) fervilhem de imaginação e que, na interpretação da notável Ellen Page e dos atores igualmente inteligentes que lhe fazem companhia, eles ricocheteiem para lá e para cá como balas num tiroteio. Oportunidade para essa fuzilaria não é o que falta na história. Por causa de uma tarde sem muito que fazer, passada na companhia do amigo Paulie Bleeker (Michael Cera, que é um capítulo à parte), Juno se descobre grávida. Aos 16 anos. Vai ter de dar a notícia ao pai e à madrasta (J.K. Simmons e Allison Janney), que, na sua perplexidade inicial, se perguntam se não preferiam ter sido informados de que a filha está usando drogas. Vai anunciar a novidade à melhor amiga (Olivia Thirlby), que pondera que Juno pode simplesmente estar esperando um "food baby" ou seja, talvez ela tenha comido demais no almoço (uma série de testes de farmácia, realizados com o auxílio de um galão de suco de laranja, desmente a hipótese). E vai ter uma conversa surreal com uma colega de escola que faz plantão na porta de uma clínica de abortos. "Seu bebê já tem unhas!", afirma a menina, conseguindo com isso que a grávida dê meia-volta. Juno terá, portanto, de achar uma outra solução para o bebê, a qual vem na forma dos Loring (Jason Bateman e Jennifer Garner), um casal jovem, bem de vida e de bem com a vida, mas desesperado por um filho. Ou isso, ao menos, é o que eles procuram aparentar. Mordaz sem ser cruel e doce sem ser adocicado, o filme dirigido por Jason Reitman é uma das criações mais originais do cinema americano nos últimos anos. Mais ainda por vir do cenário independente, no qual uma regra implícita dita que todas as famílias têm de ser desajustadas e todo humor tem de passar pela ironia. Como em seu trabalho anterior, Obrigado por Fumar, Reitman (uma edição revista e melhorada de seu pai, Ivan Reitman, diretor de Os Caça-Fantasmas) é seguro no controle do ritmo e do tom, e ajuda personagens em situações potencialmente antipáticas a revelar o melhor de si. O que fez Juno abalar o meio cinematográfico, porém, foi a sua autora: a ex-stripper Diablo Cody (veja o quadro abaixo), que, até onde se sabe, é a primeira representante da categoria a ser indicada a um Oscar. Antes de o filme ser lançado, especulava-se que sua assinatura não passaria de um golpe de marketing para atrair curiosidade para uma produção modestíssima, rodada a um custo de 2,5 milhões de dólares e sem orçamento para publicidade. Com a acolhida entusiasmada do público e dados os elogios unânimes à voz singular que emerge de Juno o diretor garante que ela pertence integralmente à sua colaboradora , o desdém se transformou em admiração (ou irritação, no caso de alguns roteiristas invejosos). O que se esperava de Diablo era vulgaridade ou choque; o que Juno oferece é o oposto: uma visão madura e generosa de uma menina numa situação difícil e da maneira como ela e as pessoas que gostam dela tentam fazer das circunstâncias o melhor que puderem.
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