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6 de fevereiro de 2008
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A peste está sempre à espreita

A história do médico que venceu o cólera em Londres
traz lições muito atuais de ciência e política urbana


Moacyr Scliar

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Quadro: Guerra aos micróbios
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Trecho do livro

Nas últimas semanas, um surto de febre amarela causou temor no Brasil. O vírus da doença é conhecido, assim como o seu modo de contágio, pela picada de certos mosquitos. Há uma vacina disponível. Ainda assim, o risco de epidemia existe, caso se descuide da vigilância sanitária. Essa é a triste verdade sobre males desse tipo: não basta dispor de armas contra o micróbio; é preciso estar alerta para condições ambientais e sociais que favorecem sua disseminação e manter políticas de saúde pública adequadas. Um belo livro sobre o tema do combate às epidemias chega às prateleiras no próximo dia 12. O Mapa Fantasma (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 276 páginas; 39,90 reais) fala da devastação que o cólera causou em Londres, em meados do século XIX. O grande mérito do autor, o americano Steven Johnson, foi transformar um episódio da história da ciência numa narrativa elétrica, que, como ele mesmo diz, tem vários protagonistas: uma bactéria letal, uma metrópole e um homem como o cientista John Snow, que para salvar vidas teve de lutar não apenas contra a natureza, mas também contra a ignorância.

A Londres de meados do século XIX era uma megalópole de 2,5 milhões de habitantes, precariíssima do ponto de vista do saneamento. O cólera era então, como outras doenças, atribuído a miasmas – emanações tóxicas de pântanos e regiões insalubres. John Snow discordava: o cólera, dizia, transmitia-se por via oral. Em 1854, ele comprovou sua teoria em condições dramáticas, quando a doença dizimou a população pobre do bairro do Soho. Profissional bem-sucedido, que teve a rainha Vitória entre os pacientes, Snow nem por isso deixou de visitar os miseráveis tugúrios onde moravam as vítimas do cólera. Num mapa da cidade, ele assinalou os lugares das mortes (daí o título do livro: no mapa de Snow, os mortos figuram simbolicamente como fantasmas). A concentração de óbitos nas vizinhanças da bomba de água de Broad Street apontava a conexão entre água e doença. Por proposta de Snow, o conselho administrativo da região mandou remover a bomba do poço, com o que os casos de doença diminuíram.

Segundo Steven Johnson, a investigação de Snow assinala "o momento em que um indivíduo de bom senso, pela primeira vez na história, analisou as condições da vida urbana e chegou à conclusão de que as cidades seriam um dia grandes algozes" em termos de disseminação de doenças. Snow foi um médico sagaz, observador, cético diante de dogmas e superstições – e uma prova de que o combate a epidemias com freqüência tem heróis e vilões. A história brasileira dá exemplos disso. Na virada do século XIX para o XX, o sanitarista Oswaldo Cruz, recém-alçado à chefia da Diretoria de Saúde Pública (o Ministério da Saúde de então), teve de combater – justamente ela – a febre amarela que grassava no Rio de Janeiro. Luminares da ciência sustentavam que a peste se propagava por meio do solo; Cruz, adepto da idéia correta de que o mosquito era o vetor, enfrentou zombarias e hostilidades. Mais tarde, ao tornar obrigatória a vacinação contra a varíola, Cruz viu eclodir uma revolta que transformou a capital do país em campo de batalha. Inversamente, quando um surto de meningite atingiu São Paulo, em 1974, uma decisão política equivocada do governo militar, que censurou notícias sobre o tema, deixou a população à beira do pânico.

Epidemias são situações-limite e, como tais, ensinam muito sobre a própria condição humana; não por outra razão inspiraram muitos escritores, como o Daniel Defoe de Diário do Ano da Peste (1722), um relato ficcionalizado do surto de peste bubônica que devastou Londres em 1665, e o Albert Camus do clássico A Peste. O Mapa Fantasma mostra como epidemias colocam à prova conhecimentos e práticas sociais e se constituem em desafios políticos. Não é obra de ficção, mas se lê com o mesmo prazer.

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