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6 de fevereiro de 2008
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Olimpíada
Sem fôlego em Pequim

Atletas preparam-se para enfrentar um terrível adversário
nos próximos jogos: o ar superpoluído da capital da China


Thomaz Favaro

Fotos Argonne National Laboratory
Pequim coberta pela poluição habitual e, abaixo, com
a paisagem limpa depois de dias de chuva: o governo até removeu fábricas

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Perguntas e respostas: Jogos Olímpicos em Pequim

A China construiu instalações magníficas para abrigar os jogos olímpicos de Pequim, em agosto. O Centro Aquático Nacional, apelidado de Cubo d’Água, inaugurado na segunda-feira passada, tornou-se imediatamente um ícone da arquitetura esportiva e uma demonstração do que o país é capaz de realizar. Apenas um obstáculo desafia a economia com crescimento anual de dois dígitos: a poluição. O ar da capital chinesa registra concentração de poluentes quase cinco vezes mais alta do que é considerado seguro pelos padrões da Organização Mundial de Saúde. Um estudo do Banco Mundial coloca Pequim em 16º lugar no ranking das cidades com ar mais poluído. Com exceção do Cairo, no Egito, e Jacarta, na Indonésia, só fazem parte dessa lista cidades chinesas e indianas. Respirar em tal ambiente é ruim para qualquer pessoa. Em uma competição de alto nível como a Olimpíada, isso pode levar um potencial medalhista ao último lugar em uma prova. "Nos esportes ao ar livre e de longa duração, como a maratona, a poluição pode diminuir a chance de quebrar recordes olímpicos", diz Paulo Nascimento Saldiva, chefe do departamento de patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) já anunciou que pode adiar algumas provas caso os níveis de poluição ameacem a saúde dos atletas. Muitas delegações decidiram chegar a Pequim apenas três dias antes das competições. Ao contrário de outros fatores, como temperatura e altitude, não há como um atleta se "aclimatar" à poluição: quanto mais ar sujo for inalado, pior (veja no quadro abaixo como isso interfere no desempenho do atleta). Atletas de vinte países vão treinar no Japão e os de outras quinze nacionalidades se concentrarão na Coréia do Sul, onde o clima é similar ao da capital chinesa, mas a poluição é bem menor. Maratonistas da Inglaterra e dos Estados Unidos testaram, no mês passado, máscaras que filtram parte dos poluentes atmosféricos sem prejudicar a respiração do atleta durante o esforço físico. Criadas especialmente para a Olimpíada, elas serão utilizadas até minutos antes do início das provas, já que o comitê olímpico proíbe seu uso durante a competição. A delegação americana encomendou 1.000 exemplares dessas máscaras. Não se trata de medida simplesmente cosmética. As máscaras especiais chegam a reduzir em 85% os poluentes inalados, contra 25% das comuns, feitas de papel. Iniciar uma prova com os pulmões limpos pode ser uma grande vantagem na Olimpíada de Pequim.

Fotos Reuters
O Cubo d’Água, inaugurado na semana passada: lá dentro, o ar é filtrado e refrigerado

Boxeadores americanos que participaram de uma competição em Pequim, no ano passado, tiveram de interromper o primeiro treino depois de apenas vinte minutos devido a ardência nos olhos e a dificuldades para respirar. Apesar de as corridas de aquecimento terem sido transferidas para os corredores do hotel, metade da equipe não conseguiu se recuperar a tempo de competir. A delegação brasileira ainda não decidiu como vai lidar com o problema da poluição. O maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze na Olimpíada de Atenas, deve passar por uma bateria de testes no laboratório da Universidade Federal de São Paulo para verificar sua sensibilidade à poluição. Ele já pensa em aderir à máscara de proteção, caso seja selecionado para disputar a Olimpíada. Por outro lado, a poluição pode livrar Vanderlei de um forte adversário. O maratonista etíope Haile Gebrselassie, atual recordista mundial, cogita não competir em Pequim, pois teme que a poluição agrave seu problema de alergia. A tenista belga Justine Henin, medalha de ouro em Atenas, que já desistiu de um torneio em Pequim no ano passado por causa de sua asma crônica, também reluta em comparecer.

Pequim é uma das cidades com a pior qualidade de ar do planeta, devido a uma combinação de ações humanas e fatores naturais. As partículas e os gases decorrentes da queima de combustíveis fósseis pelos automóveis e fábricas somam-se à poeira das construções e, na primavera, às tempestades de areia provenientes do Deserto de Gobi. Ironicamente, até as gigantescas construções destinadas à Olimpíada contribuem para aumentar o nível de material particulado suspenso no ar da cidade. A taxa anual de material particulado no ar de Pequim é mais que o triplo da verificada na cidade de São Paulo. Para piorar, Pequim está cercada por montanhas, o que dificulta a circulação do ar e faz com que a poluição se acumule sobre a cidade durante dias, até que seja dispersada pela chuva. A situação se agrava no verão, quando a intensidade dos ventos diminui o calor e a alta umidade provoca uma reação de diferentes gases poluentes, resultando em altas taxas de ozônio – considerado um dos piores gases para o desempenho dos atletas.

O governo chinês, que obviamente não quer que a poluição atrapalhe a festa olímpica, está recorrendo a medidas radicais: duas centenas de fábricas obsoletas foram transferidas para outros lugares ou fechadas nos últimos anos. Parte da energia para a calefação, antes feita com a queima de carvão, hoje é produzida com gás natural. A cidade substituiu 80.000 táxis antigos e plantou milhões de árvores. O governo anunciou que pretende cortar o fluxo de carros pela metade durante a Olimpíada. No total, Pequim investiu mais de 3 bilhões de dólares para diminuir a poluição, o equivalente a 18% de todos os gastos com a construção da infra-estrutura para os jogos. As soluções, apesar de bem-vindas, podem ser insuficientes para resolver o problema. "Em um estudo feito durante o verão, descobrimos que dois terços do ozônio e um terço do material particulado presente no novo Estádio Olímpico vêm de outras regiões poluentes da China", disse a VEJA o americano David Streets, do Laboratório Nacional Argonne, nos Estados Unidos. A menos de 200 dias do início da Olimpíada, resta pouca esperança de limpar a tempo o céu de Pequim.

Com reportagem de Alexandre Salvado

 
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Montagem com foto Photodisc



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