Depois de dar o maior
golpe financeiro da história, francês diz
ser vítima do sistema e vira ícone anticapitalista
na internet
Julia Duailibi
Fred Tanneau/AFP
Kerviel em 2001, quando disputou
(e perdeu) eleição para vereador de Pont-lAbbé,
sua cidade natal
A notoriedade do francês
Jérôme Kerviel, autor da maior fraude financeira
de que se tem notícia, já extrapola em muito a
pequenina Pont-lAbbé, cidade de 8 000 habitantes
da região da Bretanha onde nasceu há 31 anos.
E já vai além das páginas policiais e financeiras,
nas quais surgiu há dez dias, depois que as autoridades
descobriram operações que causaram perdas de 4,9
bilhões de euros (ou 7 bilhões de dólares)
no banco em que trabalhava, o tradicional Société
Générale. Para parte da opinião pública
do país, historicamente aversa a sistemas movidos a lucro,
Kerviel já é uma celebridade, uma espécie
de herói anticapitalista. Já há mais de
100 comunidades em sua homenagem no site de relacionamentos
Facebook. Enquanto isso, camisetas são vendidas com frases
como "Sou namorada de Jérôme" ou "Jérôme
Kerviel, 4 900 000 000 (de euros). Respeito". A
multidão comprou sua causa. Kerviel tem sido comparado
ao personagem bíblico Davi, por ter vencido uma espécie
de Golias do capitalismo, a Robin Hood e até chamado
de Che Guevara das finanças.
Benoit Tessier/Reuters
Daniel Bouton, presidente do Société:
trabalho duro para recuperar a credibilidade
A simpatia em torno do francês ganhou combustível
após Kerviel apresentar sua defesa às autoridades:
um arrazoado hipócrita baseado na tese de que, sendo
um pobre "patinho feio" no meio das estrelas do banco,
ele cometeu os crimes para compensar suas deficiências
de formação. Kerviel nem de longe era um dos operadores
mais brilhantes da instituição. Formado na Universidade
de Lyon, tida como uma faculdade de segunda linha para a área
de negócios, seu currículo contrastava com o de
geninhos do seu setor, formados pelas melhores escolas de finanças
da França. Em seu depoimento, ao qual o jornal Le
Monde teve acesso, ele se esforça para sustentar
essa tese sem pé nem cabeça. Kerviel disse às
autoridades que era "estressante" ocupar uma posição
considerada mais baixa. Quando foi promovido para a mesa de
operações do banco, há mais de dois anos,
o francês disse ter percebido que não seria pago
como os outros. "Eu não tinha a menor ilusão.
Sabia muito bem que ganharia menos que as outras mesas de operação
e que eu não seria pago de acordo com os padrões
do mercado." Mas, em vez de correr para aplacar a desvantagem,
escolheu o caminho mais simples: aplicou o golpe na tentativa
de inflar o seu bônus. Ele contou que tudo começou
em 2005, quando apostou na queda dos mercados, o que de fato
ocorreu com os ataques terroristas daquele ano em Londres. Como
a operação havia sido arriscada demais, resolveu
escondê-la. A partir dali, passou a, sistematicamente,
fazer operações fictícias para encobrir
eventuais perdas. Com um pouco de mistério no ar, a advogada
de Kerviel argumentou vagamente ser pouco provável que
seus superiores não soubessem de nada. Até agora
nada indica que soubessem. O fato é que Kerviel não
tem absolutamente nada de Robin Hood. Ao contrário, buscava,
por meios criminosos, tudo o que o capitalismo oferece de melhor.
Há que se reconhecer a semelhança entre o falsário
e Che Guevara.