Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Música
Mauricinhos do barulho

Foi-se o tempo em que rock era coisa
de proletário. Aí estão os Strokes para
comprovar


Sérgio Martins, de Los Angeles


Divulgação
Os rapazes dos Strokes: cabelos ensebados, roupinhas de brechó e "conservadorismo pop"


Para ouvir: 12:51, do novo álbum

"O que mais pode fazer um rapaz pobre / Senão tocar numa banda de rock?" Durante muitos anos, esses versos de Street Fighting Man (1968), dos Rolling Stones, foram uma descrição fiel do mundo roqueiro: ele era povoado por garotos proletários que esperavam vencer na vida fazendo barulho. Mas esse cenário mudou com o tempo e, hoje, as benesses de uma carreira de sucesso na indústria musical tornaram-se atraentes até para quem nasceu em berço de ouro. Eis aí o quinteto americano The Strokes para comprovar. Considerado por muitos o melhor grupo de rock do momento, ele despontou em 2001 com o disco Is This It? e agora está lançando o segundo álbum, Room on Fire. Todos os seus integrantes são de família abastada. O vocalista Julian Casablancas, por exemplo, é filho de John Casablancas, dono da agência de modelos Elite. O mais "humilde" do grupo é o baixista Nikolai Fraiture. Ele cresceu num apartamento numa área nobre de Manhattan.

Os Strokes fazem o estilo desleixado. Usam cabelo ensebado, jeans puídos, tênis All Star e terninhos de brechó. Casablancas diz que passa vários dias com a mesma roupa (embora deixe bem claro que troca as meias e a cueca). Antes de formarem a banda, os meninos freqüentavam faculdades sem nenhum entusiasmo. O guitarrista Albert Hammond Jr. estudava cinema, mas tem dificuldade para lembrar o nome de seu diretor preferido. "Eu e Julian passávamos a tarde no escritório do pai dele, conferindo as modelos", contou em entrevista a VEJA. Nem mesmo a música era uma paixão. "Eu só peguei numa guitarra para montar o grupo", diz. Divertir-se e encher a cara nos clubes de rock de Manhattan parecia, contudo, uma boa idéia, e foi lá que começaram sua carreira.

VEJA conferiu um show da turnê de lançamento de Room on Fire. Casablancas comanda o espetáculo. Ao final da apresentação, ele promoveu um quebra-quebra no palco. Jogou o microfone contra os refletores, chutou os amplificadores e destruiu a bateria. A platéia, lotada de meninas da geração Y – ou seja, entre o final da adolescência e os 20 e poucos anos –, delirou. Ao que consta, Casablancas não tem namorada no momento. Os comprometidos do grupo são o guitarrista Nick Valensi, que namora a ex-supermodelo Amanda de Cadenet, e o baterista Fabrizio Moretti (cuja mãe é brasileira), que juntou os trapinhos com a atriz Drew Barrymore.

Do primeiro para o segundo álbum, o som dos Strokes não sofreu nenhuma mudança significativa. É bom? É. Eles fazem músicas despojadas, que se agarram à memória. O barulho convive com boas melodias. O DNA dos Strokes traz genes do punk rock (Stooges) e da new wave (The Cars). Mas, como notou o crítico Joe Hagan na revista Newsweek, há algo de insatisfatório nessas canções impecáveis. Hagan sugere que os Strokes exprimem uma espécie de "conservadorismo pop". Mauricinhos disfarçados, eles seriam "a trilha sonora de uma cultura calcificada pelo marketing e pela moda". É apenas rock'n'roll, dirá alguém. Talvez seja um pouco menos.

 
 
 
 
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