Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
Ufa, acabou

Em Revolutions, só o Agente Smith lembra
o que havia de bom no primeiro Matrix


Isabela Boscov


Warner Bros
Reeves e Weaving: o programa de computador é que parece humano


Especial Matrix Revolutions
Quiz: 80 perguntas sobre Matrix

No longo, muito longo Matrix Revolutions (The Matrix Revolutions, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta quarta-feira simultaneamente em quase todo o mundo, há uma seqüência de uns dez minutos em que Neo (Keanu Reeves), o suposto salvador da humanidade, enfrenta mais uma vez – a última – seu arqui-rival, o Agente Smith (Hugo Weaving). Cercados por milhares de clones do agente, Neo e Smith lutam sob um céu cinza-esverdeado, riscado de relâmpagos, e mobilizam tanta energia com seus golpes que, por vezes, as ondas de choque que eles produzem impedem que a chuva pesada chegue ao chão. O cenário semi-real, a limpeza com que a coreografia é filmada, a ênfase na interação entre os dois personagens e o balanço entre humor e tensão tornam esse um momento que parece extraído do primeiro Matrix – e, por conseqüência, o único momento deste epílogo da série capaz de proporcionar alguma satisfação verdadeira.

Matrix Reloaded, lançado há seis meses, e em muito maior grau este Matrix Revolutions são exemplos ilustrativos (e decepcionantes) de como um autor pode interpretar mal as razões que tornaram sua criação um fenômeno de aceitação popular. Os irmãos Andy e Larry Wachowski, diretores dos filmes e articuladores da hoje vasta e poderosa marca Matrix, não dão entrevistas e não se explicam. Mas, a julgar pelas continuações que lançaram neste ano, os Wachowski identificaram a audácia do visual como a força por trás de seu sucesso. É nela, em detrimento de todo o resto, que eles investem pesado. A cena da luta final entre Neo e Smith, porém, faz lembrar o que era de fato surpreendente e oportuno no filme original, e de que quase não restam vestígios agora: a ambigüidade e a confusão entre o que é real e possível e aquilo que não passa de uma fabricação. Em Revolutions, não há mais zonas cinzentas ou dúvidas que fisguem a platéia. Zion, a cidade subterrânea em que os homens resistem ao domínio das máquinas, está sob ataque total. Há apenas os bons, os maus e os efeitos especiais.

Não é que a bilheteria desminta os Wachowski. Com 736 milhões de dólares acumulados até aqui, Reloaded é a maior renda global do ano (embora, nos Estados Unidos, tenha perdido o posto para Procurando Nemo e Piratas do Caribe). O que os desmente é a sensação de tarefa a cumprir com que se atravessa as duas horas de Revolutions, e o alívio provocado pela breve presença em cena do pertinaz e irascível Agente Smith, um programa de computador que odeia os homens, mas é o único personagem com emoções reconhecivelmente humanas. Feitas as contas, é por ele, e pelo excelente trabalho do ator australiano Hugo Weaving, que a série merece ser lembrada.

 
 
 
 
topo voltar