|
|
Livros
Últimas
palavras
O
romance que Bukharin escrevia quando
foi silenciado pela ditadura stalinista

Antonio
Gonçalves Filho
Roger Viollet
 |
| Bukharin:
destruído pela ditadura e reabilitado pela perestroika
|
|
|
O ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) usou seu poder
para trucidar os opositores. Mas a história tomou o partido
de suas vítimas, e preservou seus nomes. Acusado de terrorismo,
sabotagem e conspiração, o líder bolchevique
Nikolai Bukharin acabou executado em 1938, aos 50 anos, como "inimigo
do povo" soviético. Foi reabilitado meio século depois
de sua morte, durante a perestroika (ou "degelo"), promovida por
Mikhail Gorbachev. Bukharin é o autor de Materialismo
Histórico, obra canônica do marxismo. Quando foi
morto, escrevia um romance autobiográfico, que durante muito
tempo se julgou perdido. Só há onze anos os manuscritos
foram encontrados ironia entre os papéis do
arquivo pessoal de Stalin, graças ao empenho do pesquisador
Stephen F. Cohen, professor de política e estudos russos
da Universidade Princeton e autor de uma célebre biografia
de Bukharin. O fragmentado relato do "garoto de ouro da Revolução
Russa" chama-se O Romance do Cárcere (tradução
de Zoia Prestes; Record; 431 páginas; 48 reais). Bukharin
só teve tempo de escrever 22 capítulos e não
pôde contar os principais episódios de sua vida. Foi
silenciado em sua cela, onde registrou a última frase do
livro uma hora antes de um carrasco interromper a redação.
Se tivesse vivido um pouco mais, teria contado como Stalin o perseguiu
e mandou sua mulher para um campo de detenção, condenando
seu filho a um orfanato. Talvez pudesse ainda relatar as atrocidades
que testemunhou na prisão de Lubyanka, onde esteve de fevereiro
de 1937 a março de 1938. Mas nesse caso é quase certo
que seu livro não teria chegado até nós.
É
difícil imaginar o que fez Stalin conservar a obra
se para atender a uma humilhante súplica de Bukharin expressa
em carta, ou simplesmente porque não viu no livro nenhuma
crítica à sua estreita visão de mundo. Nas
páginas que ficaram, Bukharin mostra como vivia uma família
burguesa russa no fim do século XIX, obrigada a trocar Moscou
pela província quando o status do patriarca cai vertiginosamente.
Ele conta como Kolia Petrov (seu alter ego no romance) aprendeu
a ler aos 4 anos e desenvolveu um fascínio por borboletas
e uma absoluta lealdade aos amigos, entre eles um jovem judeu da
Bessarábia, Levka belo personagem que é uma
espécie de Huckleberry Finn russo. O livro termina de forma
abrupta, quando Kolia tem 15 anos. Pode-se ler nas entrelinhas,
contudo, um vigoroso manifesto contra o emergente totalitarismo
europeu, que coloca no mesmo saco a ditadura de Stalin e a de Hitler.
Bukharin
escreveu três livros teóricos na prisão, além
da autobiografia. Os títulos algo esotéricos desses
ensaios Arabescos Filosóficos é um deles
certamente tentaram confundir a direção do
presídio de Lubyanka. O Romance do Cárcere
escapa dessa linguagem cifrada. Nele, o ex-editor do jornal Pravda
e mais respeitado teórico do Partido Comunista russo adota
a estratégia inversa. Segue a simplicidade do inglês
Charles Dickens, homenageia o espírito aventureiro do americano
Mark Twain e imita o estilo do russo Ivan Turguêniev, todos
eles importantes ficcionistas do século XIX, para falar de
ciência política e marxismo. Por vezes, Bukharin interrompe
o relato da infância de Kolia na Bessarábia para formular
teses sociológicas. Uma delas traz críticas corrosivas
(e indiretas, claro) ao regime de Stalin. Ao escrever sobre burocratas
czaristas que emperram a revolução, Bukharin parece
estar falando dos stalinistas que transformaram a ex-União
Soviética num feudo burocrático.
Bukharin
anteviu os perigos do monopólio estatal dos meios de produção.
Foi também um pioneiro na questão ecológica.
Graças a ele, o Partido Comunista incorporou a idéia
de preservar florestas e rios num decreto assinado quando a União
Soviética engatinhava. Até nisso discordava de Stalin.
Enquanto o ditador defendia a industrialização do
país a qualquer preço, Bukharin recomendava um avanço
gradual, prevendo que o programa stalinista só sairia do
papel com muito sangue e à força da "exploração
militar e feudal" da massa. O líder revolucionário
Vladimir Lenin (1870-1924) considerava Bukharin seu legítimo
herdeiro intelectual. Alertou-o sobre a desmedida ambição
política de Stalin, mas Bukharin ignorou o aviso. Quando
decidiu criticar Stalin no Pravda, em 1929, era tarde demais.
A vingança não tardou. Ele foi afastado dos cargos
de influência até terminar seus dias na prisão.
É
possível desvendar a personalidade política de Bukharin
por meio de seu romance que na edição brasileira
tem o mérito da tradução direta do russo e
o demérito de ficar devendo um bom ensaio introdutório.
O livro fica mais saboroso quando se descobre que sua rejeição
ao radicalismo e às injustiças era hereditária.
O pai, um professor obrigado a assumir a função de
coletor de impostos na destituída Bessarábia, promoveu
a integração dos filhos com os judeus pobres da região
e, mesmo avesso ao clero da Igreja Ortodoxa, sempre pregou a tolerância.
Como o pai de Bukharin não aceitava suborno, seus superiores
desconfiaram que recebia propina e não dividia com eles.
Foi despedido, voltou com sua família para Moscou e viveu
em condições miseráveis com os filhos, que
tiveram boas lições práticas de solidariedade.
Lenin chamava Bukharin de "coração de cera", porque
ele se comovia facilmente com o drama alheio. A Rússia deu
ao mundo emocionantes autobiografias, gênero em que parece
imbatível. Na companhia de Tolstoi e Gorki, a de Bukharin
não faz feio. Uma das obras mais conhecidas de Dostoievski,
Recordações da Casa dos Mortos, também
nasceu de uma experiência na prisão. A diferença
é que ele foi salvo no último minuto por um ato de
misericórdia do czar. Bukharin não teve a mesma sorte.
| Dois
mundos
"O
mundo social se partiu visivelmente na mente de Kolia.
Antes, as pessoas para ele dividiam-se somente em duas
grandes categorias: adultos e crianças, sendo
que os adultos, às vezes, enganavam as crianças.
Depois os próprios adultos dividiam-se em bons
e maus, carinhosos e grossos. Mas agora sobressaía
uma nova dualidade do mundo, a sua divisão entre
o mundo dos ricos e o mundo dos pobres. (...) Ele começou
a ter vergonha da carne que 'comia todo dia', da roupa
limpa, do cotidiano meio senhorial e começou
a alimentar algo próximo do ódio e da
raiva, em relação aos babados das senhoras
das terras, suas sombrinhas, chapéus e lornhões."
Trecho
de O Romance do Cárcere
|
|
|