Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Comportamento
Coisa de criança

Vestidos de Barbie, Peter Pan
e Cinderela, adultos agora fazem
festas em bufês infantis


Ariel Kostman

 
Fotos arquivo pessoal
MARCO ANTONIO CAMPOS SALLES,
64 anos, advogado
Ele se vestiu de sultão na festa que teve tobogã e trenzinho: "Queria que meus amigos voltassem aos bons tempos de criança"

O aniversário de 64 anos do advogado paulista Marco Antonio Campos Salles foi comemorado em grande estilo. Os 200 convidados brincaram nos carrinhos bate-bate, escorregaram no tobogã e andaram de trenzinho. A festa foi realizada no bufê infantil Planet Mundi, em São Paulo. "Minha intenção era exatamente essa", diz Marco Antonio. "Fazer com que meus amigos voltassem aos bons tempos de infância." Ele usou uma fantasia de sultão. Sua mulher, Sandra, vestiu-se de Jeannie do seriado Jeannie É um Gênio. Desde o início do ano, bufês infantis têm sido surpreendidos pela quantidade de adultos interessados em fazer festas. E não se trata aqui necessariamente de excêntricos ou adolescentes tardios. São pessoas com responsabilidades, empregos respeitáveis e, muitas vezes, com filhos. Simplesmente cultivam a descontração de uma festa infantil. "É uma moda que está crescendo", diz a dona do Planet Mundi, Rosangela Veiga. "Hoje, os adultos já representam 30% das festas."

No Rio de Janeiro, a economista Isadora Skornicki comemorou seus 21 anos fantasiada de Cinderela no bufê Espaço Encantado. Os convidados também estavam vestidos como personagens de contos de fada. Além dos brinquedos, ela fez questão de contratar animadores para entreter seus convidados com brincadeiras com bexigas. "Para mim, a festa foi uma despedida da infância", diz Isadora, que trabalha em uma financeira.

No paulista Mega Party, que conta com atrações como piscina de bolinhas, roda-gigante e videogames, a história se repete. "Neste ano aumentou a procura de festas para adultos aqui", diz a gerente Fernanda Machado. "Eles querem algo diferente, um clima de sonho. O pessoal brinca mesmo, igual criança."

 
ISADORA SKORNICKI,
22 anos, economista
Brinquedos e animadores para entreter os convidados: "Festa para marcar a despedida da infância"

Além dos bufês infantis, outros profissionais que trabalham com festas já detectaram o modismo. A decoradora de festas Andrea Guimarães diz que de um ano para cá esse tipo de encomenda foi muito solicitado. "Já fiz festas para adulto decoradas com personagens como Lilo & Stitch e Aladdin", diz. "Um cliente comemorou seus 40 anos fantasiado de Peter Pan. E só tocava música infantil." A mineira Fabiana Brito, dona da agência de garçons Camarero, de Belo Horizonte, diz que festa que se preze na capital mineira precisa ter lembrancinhas no final. Entre os mimos, anéis que piscam e óculos coloridos. Vestidos com orelhas de Mickey, os garçons da Camarero trabalharam recentemente na festa de aniversário de uma médica cujo tema era Minnie. Casada, dois filhos já crescidos, a aniversariante estava vestida como a namorada do Mickey e os convidados, como personagens infantis. Os garçons serviram cachorro-quente, pipoca e algodão-doce.

Em julho, a universitária Tatiane Teixeira comemorou seu 23º aniversário vestida de Barbie. A boneca também foi o tema de toda a decoração, e os convidados eram recepcionados ao som da Xuxa. "Tive um certo receio de me acharem muito criança, mas decidi fazer o que tinha vontade", diz Tatiane. "E os convidados curtiram bastante. Acho que atualmente as pessoas se sentem mais livres para mostrar seu lado infantil." Uma das bandas mais requisitadas nas festas paulistanas, a Soul Gang mantém músicas infantis no repertório mesmo em eventos para adultos. "Recentemente, em uma festa de casamento, a turma estava bem desanimada", lembra o produtor da banda, Eder Triton. "Foi só começarmos a tocar uma música da Xuxa e todo o pessoal mais velho foi para a pista. Muitas vezes, os adultos curtem mais as músicas infantis do que as crianças."

A moda das festas com temas infantis só para adultos faz parte de um fenômeno moderno. Em termos de consumo e hábitos, nunca os adultos estiveram tão à vontade para se comportar como crianças. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, que ouviu pessoas de 20 a 30 anos de idade em vários países, detectou a tendência ao consumo dos chamados "produtos regressivos": brinquedos e objetos de infância. Num esforço de interpretação psicológica, o instituto sugere que essas compras ocorrem porque embutem a possibilidade de voltar ao ambiente seguro e aconchegante da infância. Pesquisa do mesmo instituto no Brasil com homens de 18 a 29 anos que moram em lares sem crianças mostra que 24,4% deles assistem a programas infantis na TV e 8,8% tinham comprado brinquedos nos trinta dias anteriores. "Os limites entre o mundo infantil e o adulto estão desaparecendo", opina a publicitária Helena Quadrado, vice-presidente de planejamento da McCann-Erickson. "Se algo me dá prazer, me permito fazer, mesmo que não seja adequado a minha idade."

 
 
 
 
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