Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Comportamento
Véu, grinalda e marketing

Livro americano ensina as mulheres a
buscar marido como se fosse um plano
de ação no mundo dos negócios


Lizia Bydlowski


Ilustrações Negreiros

Livros sobre estratégias infalíveis de marketing e negócios são sucesso garantido, como comprovam todas as listas de "mais vendidos". Manuais sobre como arranjar marido são artigo de leitura certa (ainda que não assumida), como evidenciam toneladas de páginas em revistas femininas. A americana Rachel Greenwald, 39 anos, formada em psicologia com mestrado em administração de empresas em Harvard, achou um jeito de juntar as duas coisas. Em seu livro Como Arranjar Marido Depois dos 35 Anos – Usando o que Aprendi na Harvard Business School, ela apresenta um plano de ação de quinze passos recheado de conceitos e jargão típicos de marketing que tem por objetivo declarado casar suas discípulas (por amor, diga-se) num prazo de no máximo um ano e meio. Lançado em setembro, o livro chegou ao 12º lugar na lista dos mais vendidos (auto-ajuda) do New York Times e vai virar filme. Fácil o caminho do altar não será, adverte Rachel logo na primeira página. Da mulher que seguir O Programa (escrito assim, em maiúsculas, ao longo do livro) exige-se determinação, força de vontade, comprometimento total – e uma tremenda cara-de-pau. "Que fique bem claro: esse não é um plano para gente relapsa. Ler o livro é como discar Casamento 190. É uma emergência", avisa. Como saber se a leitora está preparada para tanto esforço? Fácil. Só estará apta a seguir O Programa, diz a autora, quem responder com um inequívoco "sim" à seguinte pergunta: você está disposta a fazer qualquer coisa, exceto as ilegais e imorais, para arranjar marido? Se estiver, siga em frente.

Os quinze passos têm nomes como Embalagem, Marca, Publicidade, Telemarketing e Marketing On-line. Cada um começa com "O que eu aprendi em Harvard" e, em seguida, ensina como adaptar princípios consagrados à empreitada matrimonial. A linguagem é franca, cruel às vezes. No capítulo "Embalagem," ao se estender sobre a necessidade de melhorar o visual (inclusive perguntando a seis pessoas, três homens e três mulheres, o que vêem de errado em você), Rachel profere, na bucha: "Gostaria de poder dizer que o que conta é o eu interior – e, a longo prazo, é o que mais conta mesmo –, mas o fato é que, no começo, sua aparência faz toda a diferença". Seguem alguns conselhos: roupas, nem muito chamativas, nem muito sóbrias, nem muito "mulher de negócios". Preto total "faz você passar despercebida". "Fuja de roupa que só é elogiada por mulheres". E a regra de ouro, considerando-se o público americano, mas que tem lá seu apelo universal: "Use sempre sutiã que projete os seios. Depois dos 35 anos, só ajuda". Já o excesso de peso, se não for muito, é relevado. "Serei franca: as gordas vão experimentar maior rejeição que as magras. Mesmo assim, siga em frente. Ele existe. Você só precisa achar um."

Reforçando os estereótipos mais consagrados, Rachel manda que suas seguidoras sejam "femininas", usem cabelo comprido, vestidos vaporosos, decotes discretos, e só muito raramente tomem a iniciativa. Sexo, jamais nos primeiros encontros – melhor é aplicar a regra "2/2": só com alguém com quem tenha se encontrado no mínimo duas vezes por semana, por no mínimo dois meses (o.k., abre-se aqui uma pausa cética). Morar junto, nem pensar – aí entra de novo a especificidade do público dos EUA, onde a coabitação, nem depois de décadas, é considerada casamento de verdade. Soa antifeminista? Rachel não liga a mínima, define-se como "pós-feminista". Soa desesperado? "Nunca uso a palavra 'desesperada'. Prefiro 'pró-ativa'." E alerta: "A época é de crise", lembrando que nos Estados Unidos existem 28 milhões de mulheres solteiras com mais de 35 anos e só 18 milhões de homens na mesma situação (no Brasil, a proporção, pelo menos, é um pouco mais confortável: 7 milhões de mulheres para 6,2 milhões de homens).

No capítulo "Telemarketing", manda a candidata telefonar a todos (todos mesmo) os parentes, amigos, conhecidos e conhecidos de conhecidos, perguntando se não conhecem ninguém para lhe apresentar. Já em outro, prega a necessidade de se identificarem nichos de mercado – "menos quantidade, mais qualidade". Em "Marketing de massa", o inusitado pode se tornar campo fértil: quem mais, além de Rachel Greenwald, perceberia o potencial, em matéria de marido, de fazer parte de um júri? A explicação: "É uma oportunidade de conhecer onze homens e mulheres. Poucos serão homens solteiros na sua faixa de idade. Mas nunca se sabe quem, numa conversa casual, pode fazer menção a algo que a leve a seu futuro marido. Todos os onze homens e mulheres do júri têm amigos, primos, colegas de trabalho". Ir a festas é importantíssimo, fazer cursos também – de assuntos "masculinos", como pescaria, mecânica e golfe, não só para conhecer candidatos como para poder conversar depois sobre eles com algum conhecimento de causa. Tudo isso, claro, custa dinheiro. Daí a necessidade, logo no primeiro momento, de abrir uma conta bancária separada só para a atividade de arranjar marido. Uma dotação orçamentária, por assim dizer, composta de 10% no mínimo, 20% se possível, da renda anual da candidata ao casamento.

A certa altura vem a avaliação e, para muitas, a pior humilhação: perguntar a homens interessantes que não a convidaram para sair de novo depois de um primeiro encontro o que viram de errado na sua preciosa pessoa. A boa notícia: você não precisa perguntar pessoalmente. A má: tem de achar uma amiga que faça isso por você, tabule as respostas e relate os resultados que certamente arrancarão nacos de sua auto-estima. Isso feito, é preciso mudar o que está errado e seguir na luta. Dureza? "Quem procura emprego dedica tempo e esforço a achar o melhor. Quem quer perder peso aceita qualquer sacrifício", exemplifica Rachel – que por sinal é casada há onze anos e tem três filhos. "O Programa é uma mistura de busca de emprego e regime rígido: exige dedicação, sacrifícios e regras". Às brasileiras que se encaixam no perfil e clamam por mais detalhes: "Como Arranjar Marido Depois dos 35 Anos" deve sair no Brasil em abril do ano que vem, publicado pela editora Sextante.

 
Abaixo o barzinho, viva a festa


Um dos recursos mais utilizados por brasileiras empenhadas em achar marido é freqüentar os chamados single bars, redutos de solteiros interessados em companhia do sexo oposto. No Charles Edward, casa noturna com estilo de pub inglês que se tornou um dos mais concorridos single bars de São Paulo – "Primeiro, vieram meus amigos separados; depois, as ex-mulheres e amigas delas", conta o dono, Kyko Dias –, é palpável o clima de mútua procura.

O problema: pela própria natureza do ambiente, os homens vão a single bars para se divertir. Isso significa nada, nada, nadinha de compromisso. Márcia (identidade mantida em sigilo, a pedido), 49 anos, freqüenta esses bares há tempo suficiente para ter feito algumas constatações básicas. "Os homens mentem o estado civil e a profissão. A maioria quer uma aventura de uma noite só", registra. A médica Célia, 36 anos, ao contrário, conheceu o marido em um deles, mas avisa: custa caro – cerca de 100 reais para se produzir, mais 35 em petiscos e bebidas.

A solução Greenwald: o livro, decididamente, não é favorável a single bars quando se trata de arranjar marido. Rachel põe muito mais fé em uma festa – quanto maior, melhor. E dá dicas:

Chegar cedo, para conhecer o ambiente, posicionar-se em local favorável para ver e ser vista e poder dar informações sobre o lugar ("Um iniciador natural de conversas").

Ir sozinha, por mais constrangedor que possa ser. No máximo, chegue com uma amiga, combinando se separarem assim que passarem da porta.

Circular e trazer de casa, bem decorada, uma lista de perguntas que possam dar partida a uma conversa interessante com algum candidato a marido (tipo "Meu chefe comprou um Jaguar. Você já viu algum ao vivo?" – sim, um vocabulário básico sobre carros e esportes é essencial nessa fase).

 
Cair na rede é preciso


Só no mês de setembro, 665 000 pessoas acessaram sites de relacionamento no Brasil. Desse total, 67% eram da espécie procurada – homens – e 25% tinham mais de 35 anos, de acordo com a aferição do Ibope/NetRatings. Em alguns sites a inscrição é gratuita; outros, com mais recursos, cobram uma taxa, que no ParPerfeito, o site de relacionamento nacional mais acessado pelos brasileiros, é de 29 reais por mês.

O problema: para sua tese de mestrado sobre sites de relacionamento, a jornalista e psicóloga Luciene Setta entrevistou 500 homens e mulheres entre 25 e 45 anos e concluiu que apenas 2% criaram vínculos afetivos mais sólidos. A maioria não costuma culminar em coisa séria de verdade, como aprendeu a decoradora paulista Ana Cláudia Sanches, 46 anos: "Há mais de seis anos freqüento salas de bate-papo na internet. Também gosto de sair à noite, mas não dou chance para homens que não são atraentes. Na internet, a gente pode gostar da pessoa mesmo sem ver. O duro é que parece que a maioria dos homens que estão na rede é casada. Tive dois relacionamentos sérios com homens que conheci na internet e os dois acabaram porque eles eram casados".

A solução Greenwald: Rachel insiste que a internet é obrigatória para mulheres solteiras com mais de 35 anos, por ser o jeito mais fácil e barato de garantir ampla fartura de contatos – providência essencial no seu plano de quinze passos. Ela recomenda que, no início da prospecção, a candidata se passe por homem, para "sondar a concorrência" e entender a cabeça do público-alvo. Também aconselha alguns dias de séria meditação sobre o nome e o resumo de qualidades que acompanharão o cadastro. No mais, é agenda livre, expectativas flexíveis, exagero contido ("Tente achar um ponto de equilíbrio – parecer bonita sem se comparar a uma Jennifer Aniston") e, indispensável, um diário, para não se confundir entre tantos pretendentes. Por último, não jogue tempo e esforço fora. Encontrou, conversou, não bateu, dispensou. Ponto final.

 
De cães a bombeiros, tente tudo


Na hora de procurar o homem dos seus sonhos, inscrever-se em um curso ou contratar o serviço de uma agência de encontros direcionada para um determinado objetivo pode ensejar o desfecho feliz. A Table for Six promove encontros de homens e mulheres de 30 a 55 anos de classes A e B. Como seleciona? Simples: cobra caro – em um ano, gastam-se 1 560 reais. Além de jantares em bons restaurantes, organiza aulas de culinária, viagens nos fins de semana e passeios de balão.

O problema: o maior risco das atividades em pequenos grupos é que todo mundo acaba amigo de todo mundo e os namoros passam para segundo plano – um pecado inominável na bíblia de Rachel Greenwald. A advogada Lilian, 44 anos, morou fora do Brasil muito tempo e, quando voltou, encontrou os amigos todos casados. Associou-se à Table for Six e já participou de uma viagem de fim de semana com curso intensivo de dança de salão. "Conheci muita gente e fiz muitos amigos, mas é difícil encontrar alguém com o perfil que tenho em mente", diz. A agente de viagens Monique de Carvalho, 46 anos, separada, uma filha, prefere freqüentar os jantares. "Faço muitos amigos. Já tenho até uma turma", conta. Mas novo parceiro, nada. "Nesta faixa de idade é difícil. Os homens só querem garotinhas."

A solução Greenwald: variar, sempre e muito. "Desafie-se a listar cinqüenta opções na categoria 'grupos de solteiros'", ensina. Procure, evidentemente, ambientes favoráveis a homens solteiros, como (sugestões dela) curso de marcenaria, adestramento de cães, treinamento em caso de incêndio. Ou, melhor ainda, dê um curso: pegue um bom livro de receitas, monte um cardápio de oito pratos fáceis e ofereça-se no seu clube para dar um curso de duas horas intitulado "Refeições rápidas para solteiros". Quer tentar a chance de brilhar sozinha perante a platéia perfeita?

 

 
 
 
 
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